O quintal da humanidade

Por Amália Safatle

Quando Emília se pôs a escrever a autobiografi a, disse que não escreveria, mas “mentiria” suas memórias.  Pois quem escreve sobre si mesmo tem um pé de enganação, escreveu Monteiro Lobato, em Memórias da Emília.  O próprio Lobato, que agora completaria 125 anos, escaparia dessa armadilha.  Sua biógrafa, a jornalista e historiadora Marcia Camargos, prepara mais um lançamento sobre a vida do escritor, desta vez com base em depoimentos e “causos” contados pela neta Joyce, que o chamava carinhosamente de Juca.

Em Juca e Joyce, obra a ser lançada em 19 de abril, em São Paulo, pela Editora Moderna, a neta mostra o avô em sua intimidade: guardava pedaços de rapadura no bolso do paletó, lia um dicionário de A a Z e mantinha o pijama por debaixo do terno nos dias frios.  Condiz com o que Lobato afi rmava: “As memórias são a alcova, as anáguas, as chinelas, o penico, o quarto dos criados, a sala de jantar, a privada, o quintal da humanidade, a grande humanidade com h minúsculo”.

Trata-se da mesma humanidade que Lobato um dia sonhou transformar pelas mãos das gerações futuras, como a da “fi lha” Emília e da neta Joyce, acreditando que romper com velhos paradigmas só seria possível pela atitude corajosa e transgressora das crianças.

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