Comércio Justo S.A

O fair trade chega ao mercado convencional e esquenta a discussão sobre se será capaz de transformar o mainstream ou acabará cooptado
Por Regina Scharf
O comércio justo caiu, literalmente, na boca do povo.  Hoje, as rosquinhas servidas nas quase 6 mil lojas da rede Dunkin’ Donuts nos EUA vêm acompanhadas de café colhido em propriedades familiares da América Central que chega aos consumidores com um mínimo de intermediação.  O mesmo ocorre nos McDonald’s na Grã-Bretanha, que oferecem café certificado pela pela organização ambientalista Rainforest Alliance.  Unilever, Nestlé e Procter & Gamble passaram a comprar produtos do comércio justo, embora, verdade seja dita, em escala minúscula diante do total de seus negócios.
Essas multinacionais abrem suas portas e carteiras para pequenos agricultores, que, geralmente, mal conseguem vender para lojas das capitais de seus países.  Eles conquistaram um lugar nesses mercados sofisticados graças à prática que busca eliminar intermediários e subverter as regras convencionais do mercado.  A idéia do comércio justo é dar a produtores marginalizados a possibilidade de alcançar a auto-suficiência econômica.  Para se qualificar, eles têm de cumprir uma longa lista de regras, que vão do controle do uso de agrotóxicos e a conservação do solo à proibição do uso do trabalho infantil.
Há algumas evidências de que os dois lados ganham com a parceria.  O McDonald’s britânico anunciou no ano passado, meses depois de se converter ao comércio justo, que suas vendas de café haviam aumentado 15%.  Para os produtores há vantagens que compensam os altos custos da certificação.  Aqueles que usam os padrões da Fairtrade Labeling Organizations (FLO), que congrega certificadoras e redes de produtores, deveriam receber US$ 0,10 a mais por quilo vendido em comparação com o valor pago aos agricultores convencionais – o montante dobra se o produto for orgânico.
As certificadoras, aliás, são as grandes responsáveis pela invasão no mercado convencional, pois foram elas que criaram uma identidade facilmente reconhecível pelo consumidor em qualquer ponto-de-venda.  A associação com multinacionais – cooptação, dirão alguns – explica o crescimento expressivo da venda de alguns produtos, entre os quais o café reina absoluto.
O comércio justo movimentou cerca de US$ 3,6 bilhões no ano passado em todo o mundo.  Isso representa um crescimento de mais de 100% em apenas dois anos, pelos cálculos da FLO.  Entre 1998 e 2007, o volume de café certificado importado pelos Estados Unidos saltou de 34,5 para 30 mil toneladas, segundo a Transfair USA, certificadora americana de comércio justo.  A propósito, hoje o Brasil responde por pouco menos de 10% do café certificado importado pelos americanos.  O Peru, sozinho, vende 28%.  Mas esta é outra história.
Casamento de interesses
Será que misturar multinacionais e comércio justo faz sentido, que não o financeiro?  Afinal, aquelas visam o lucro, enquanto este foi criado para subverter a lógica capitalista de mercado e combater os atravessadores.
O casamento de interesses entre grandes corporações e pequenos produtores até recentemente indefesos tem um quê perturbador, até mesmo para alguns defensores do comércio justo.  É o caso de Dean Cycon, proprietário da Dean’s Beans, pequena torrefadora americana que emprega grãos 100% orgânicos e originários do comércio justo.
Ele é o inimigo número 1 das empresas que abraçam a causa de forma superficial.  Chegou a publicar um anúncio criticando Paul Newman porque a marca de alimentos orgânicos do ator comprava café de uma torrefadora que também trabalha com grãos convencionais.  No site de sua empresa, que fatura na casa dos US$ 3 milhões anuais, Dean alerta: “Os grandões delegaram o comércio justo aos seus departamentos de marketing.  Então, em vez de pagarem a todos os agricultores um salário digno, porque isso é ético e bom para os negócios a longo prazo, limitam o comércio justo a apenas mais uma opção no seu cardápio”.
A Transfair USA contra-argumenta no seu site que a disponibilidade desses produtos em qualquer parte, não apenas em lojas especializadas, “dá a uma maior gama de consumidores a possibilidade de fazer parte desse movimento”.
Mas é justamente esta tendência que gera tensão interna e impõe ao movimento um realinhamento de sua visão e práticas, concluem Laura Raynolds e Douglas Murray, da Universidade do Colorado, e John Wilkinson, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro no livro Fair Trade: The Challenges of Transforming Globalization.
Se o comércio justo vai mudar o sistema ou integrar-se a ele ainda é uma incógnita.  Agora é torcer para que seus ideais não sejam descartados com a borra do coador.
O fair trade chega ao mercado convencional e esquenta a discussão sobre se será capaz de transformar o mainstream ou acabará cooptado
Por Regina Scharf
O comércio justo caiu, literalmente, na boca do povo.  Hoje, as rosquinhas servidas nas quase 6 mil lojas da rede Dunkin’ Donuts nos EUA vêm acompanhadas de café colhido em propriedades familiares da América Central que chega aos consumidores com um mínimo de intermediação.  O mesmo ocorre nos McDonald’s na Grã-Bretanha, que oferecem café certificado pela pela organização ambientalista Rainforest Alliance.  Unilever, Nestlé e Procter & Gamble passaram a comprar produtos do comércio justo, embora, verdade seja dita, em escala minúscula diante do total de seus negócios.
Essas multinacionais abrem suas portas e carteiras para pequenos agricultores, que, geralmente, mal conseguem vender para lojas das capitais de seus países.  Eles conquistaram um lugar nesses mercados sofisticados graças à prática que busca eliminar intermediários e subverter as regras convencionais do mercado.  A idéia do comércio justo é dar a produtores marginalizados a possibilidade de alcançar a auto-suficiência econômica.  Para se qualificar, eles têm de cumprir uma longa lista de regras, que vão do controle do uso de agrotóxicos e a conservação do solo à proibição do uso do trabalho infantil.
Há algumas evidências de que os dois lados ganham com a parceria.  O McDonald’s britânico anunciou no ano passado, meses depois de se converter ao comércio justo, que suas vendas de café haviam aumentado 15%.  Para os produtores há vantagens que compensam os altos custos da certificação.  Aqueles que usam os padrões da Fairtrade Labeling Organizations (FLO), que congrega certificadoras e redes de produtores, deveriam receber US$ 0,10 a mais por quilo vendido em comparação com o valor pago aos agricultores convencionais – o montante dobra se o produto for orgânico.
As certificadoras, aliás, são as grandes responsáveis pela invasão no mercado convencional, pois foram elas que criaram uma identidade facilmente reconhecível pelo consumidor em qualquer ponto-de-venda.  A associação com multinacionais – cooptação, dirão alguns – explica o crescimento expressivo da venda de alguns produtos, entre os quais o café reina absoluto.
O comércio justo movimentou cerca de US$ 3,6 bilhões no ano passado em todo o mundo.  Isso representa um crescimento de mais de 100% em apenas dois anos, pelos cálculos da FLO.  Entre 1998 e 2007, o volume de café certificado importado pelos Estados Unidos saltou de 34,5 para 30 mil toneladas, segundo a Transfair USA, certificadora americana de comércio justo.  A propósito, hoje o Brasil responde por pouco menos de 10% do café certificado importado pelos americanos.  O Peru, sozinho, vende 28%.  Mas esta é outra história.
Casamento de interesses
Será que misturar multinacionais e comércio justo faz sentido, que não o financeiro?  Afinal, aquelas visam o lucro, enquanto este foi criado para subverter a lógica capitalista de mercado e combater os atravessadores.
O casamento de interesses entre grandes corporações e pequenos produtores até recentemente indefesos tem um quê perturbador, até mesmo para alguns defensores do comércio justo.  É o caso de Dean Cycon, proprietário da Dean’s Beans, pequena torrefadora americana que emprega grãos 100% orgânicos e originários do comércio justo.
Ele é o inimigo número 1 das empresas que abraçam a causa de forma superficial.  Chegou a publicar um anúncio criticando Paul Newman porque a marca de alimentos orgânicos do ator comprava café de uma torrefadora que também trabalha com grãos convencionais.  No site de sua empresa, que fatura na casa dos US$ 3 milhões anuais, Dean alerta: “Os grandões delegaram o comércio justo aos seus departamentos de marketing.  Então, em vez de pagarem a todos os agricultores um salário digno, porque isso é ético e bom para os negócios a longo prazo, limitam o comércio justo a apenas mais uma opção no seu cardápio”.
A Transfair USA contra-argumenta no seu site que a disponibilidade desses produtos em qualquer parte, não apenas em lojas especializadas, “dá a uma maior gama de consumidores a possibilidade de fazer parte desse movimento”.
Mas é justamente esta tendência que gera tensão interna e impõe ao movimento um realinhamento de sua visão e práticas, concluem Laura Raynolds e Douglas Murray, da Universidade do Colorado, e John Wilkinson, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro no livro Fair Trade: The Challenges of Transforming Globalization.
Se o comércio justo vai mudar o sistema ou integrar-se a ele ainda é uma incógnita.  Agora é torcer para que seus ideais não sejam descartados com a borra do coador.

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