Pares em rede

A nova forma de usar a internet, conhecida como web 2.0, descentraliza as conexões, transforma consumidor em produtor e ajuda a construir inteligência para lidar com desafios comuns
Por Flavia Pardini
“Wiki”, a palavra do momento, além de dar nome à mais dinâmica enciclopédia da história, quer dizer “rápido”.  E rápido é o ritmo das mudanças que vêm ocorrendo nas comunicações, na produção e no consumo de informação: para quem nem bem entrou na era da chamada blogosfera – conjunto dos milhões de blogs e suas conexões -, já soam alertas de que ela morreu, cooptada pela mídia do mainstream.  A origem da palavra “wiki”, entretanto, dá uma pista do redesenho que blogs e outros elementos da chamada web 2.0 podem significar.
Corruptela havaiana da palavra “quick”, “wiki” foi emprestada de volta pelo inglês para referir-se à velocidade da rede mundial de computadores.  Mas o compartilhamento não está só no nome: wikis são sites colaborativos na world wide web que podem ser editados por qualquer pessoa – o mais famoso é a Wikipedia.  Wikis, blogs, sites de redes sociais – Orkut, Facebook, por exemplo – e de compartilhamento de vídeo – YouTube – compõem a web 2.0, que, ao contrário do que se possa imaginar, não representa uma revolução tecnológica.
A web 2.0 usa a internet como uma plataforma para criar produtos e serviços que não existiriam fora dela.  A diferença entre a Wikipedia e a Enciclopédia Britânica, por exemplo, não reside no fato de que a primeira não nasceu sobre papel.  A Enciclopédia Britânica que se encontra na internet é igual à que circulava em papel no século XX: produzida por poucos para muitos.  A Wikipedia jamais poderia ser impressa, pois depende da internet para ser elaborada, por meio de milhares de colaboradores e editores que, juntos, constroem o conhecimento que depois é compartilhado na rede.  Os usuários, portanto, são parte do processo de produção.
A tecnologia por trás da web 2.0 nasceu com a internet: conhecida como peer-to-peer, ou P2P, permite a troca de informação e arquivos entre os usuários, sem a intermediação de um servidor centralizado.  No modo de ser 1.0 da internet, os sites seguiam uma conexão cliente-servidor, em que o usuário conecta-se a um servidor e este lhe envia informação.  Não que a internet não possibilitasse outro modo de operar, pois ela mesma é composta de milhões de servidores interconectados.  Um dos marcos na transformação do uso da rede foi o advento, em 1999, do Napster, uma aplicação que, em vez de criar um site de onde se podiam baixar arquivos de música, ligou usuários em rede para que compartilhassem canções.  Não à toa, a indústria de discos foi às últimas conseqüências para fechar o serviço.
Em uma rede P2P não há centralização no processamento e na distribuição de dados, e a dinâmica de relacionamento é a cooperação livre entre os pares, tendo em vista a execução de uma tarefa comum.  Qualquer semelhança com a necessidade de compartilhar conhecimento e construir uma inteligência coletiva para enfrentar desafios globais, como a pobreza e as mudanças climáticas, não é mera coincidência.
À esquerda da propriedade
A cultura é a porta de entrada da web 2.0 no Brasil.  “Nosso problema não é a produção (cultural), mas a difusão”, diz Oona Castro, coordenadora do Instituto Overmundo, que nasceu do site colaborativo Overmundo (www.overmundo. org).  Ali, qualquer pessoa pode se cadastrar e contribuir com críticas, comentários ou produção cultural.
A edição é feita pela comunidade: cada contribuição fica na “fila” por 72 horas para que os pares avaliem e, por 48 horas, está aberta a votação.  “Quem decide o que vai ser publicado é a comunidade”, resume Oona.  Quantos mais votos uma contribuição recebe, mais chances tem de entrar na home page.
Nascido em 2006, o Overmundo conta com 39,6 mil usuários cadastrados, publica contribuições de todo o Brasil – no início, algumas eram estimuladas, mas hoje praticamente todas são voluntárias – e oferece tecnologia para que outras comunidades compartilhem conhecimento para produzir inteligência.  É o caso do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (www.
Forumseguranca.org.br), que fomenta a discussão – sempre urgente – sobre o tema no País.
“A web colaborativa invoca as pessoas a participar, é a apropriação das novas tecnologias em favor das pessoas”, diz Oona.  Um ingrediente importante é a cultura do copyleft, um trocadilho com a palavra copyright, que significa o direito de propriedade intelectual.
O copyleft parte do princípio de que a defesa da propriedade intelectual, disfarçada na forma de proteção dos direitos do autor, permitiu a apropriação pelas corporações da informação e da criatividade.  A internet, lembra Oona, ajuda a desmontar o argumento de que a propriedade intelectual estimula a inovação, pois gera a possibilidade do acesso direto e barato a bens cujo valor advinha da escassez artificial.
O acesso e as formas alternativas de licenciar obras intelectuais permitem a formação da chamada “cauda longa”, ou seja, uma grande diversidade de produtos e seu consumo por nichos, o que contribui para a “ecologia da produção cultural”, nas palavras de Oona.  “As classes dominantes se apropriam das tecnologias, mas as periferias também”, diz.  Justo elas que não eram as escolhidas pela indústria cultural.
Do condomínio à comunidade
Nem sempre foi assim.  A internet chegou ao Brasil na segunda metade da década de 90 e, por anos, foi vista como elitista.  “Poucos enxergaram que era o contrário, que sem internet em todos os lugares é que se aprofundava a desigualdade”, conta Oona.  Aos poucos, a democratização do acesso avança, ancorada um pouco em políticas públicas e muito no sucesso global da rede.  Hoje, embora não se possa ignorar que a exclusão digital é realidade no Brasil, há um processo quase orgânico de espalhar a internet, como no caso das lan houses que pipocam pelos bairros.
Em um dos maiores bairros de Fortaleza, a Cooperativa Pirambu Digital (www.pirambudigital.com) criou o Condomínio Virtual, que catalisa doações de computadores usados para um “condomínio” em que o “síndico” fica responsável por receber a conexão de internet e compartilhá-la com os “condôminos”.  A idéia é integrar comunidades que se formam a partir dos condomínios, até que englobem bairros inteiros, além de formar jovens no desenvolvimento de sites e software e na prestação de serviços de informática.
Em outros tantos locais, a tecnologia e a possibilidade de usá-la em favor da comunidade chega por meio dos Pontos de Cultura, programa do Ministério da Cultura que articula e impulsiona iniciativas que envolvem as comunidades por meio de arte, cultura, cidadania e economia solidária.
No condomínio e nas comunidades, o fato de que cada vez mais pessoas estão conectadas salta aos olhos.  A eleição do democrata Barack Obama nos EUA, por exemplo, foi impulsionada pelo uso das redes sociais e pelo ciberativismo de entidades como a Avaaz (www.avaaz.org), que diz contar com uma lista de 3 milhões de nomes globalmente.  O objetivo da Avaaz é funcionar como um “alto-falante” e dar voz à “opinião pública global”, diz Graziela Tanaka, organizadora da entidade no Brasil.  Apesar disso, a entidade por enquanto atinge o público com consciência política – majoritariamente branco e com educação de nível superior -, mas sem tempo de ir às ruas por causas que vão da violência em Myanmar à ação global para mitigar as mudanças climáticas.
Até que ponto a conexão revoluciona radicalmente a organização da sociedade é questionável.  O jornalista americano James Surowiecki escreveu livros sobre a inteligência coletiva e alerta para a importância do pensamento independente, ao citar o fenômeno do “circular mill”: Quando uma formiga se perde, ela segue a companheira à frente e, na maior parte das vezes, o grupo acaba se movimentando em círculos.
Rumo ao 3.0
Talvez por isso a maior força das tecnologias que conectam as pessoas e permitem que elas deixem de só consumir para também produzir conhecimento esteja em seu potencial de empoderamento.  É o que aposta a Eletrocooperativa, entidade nascida em Salvador para atacar problemas da juventude como desigualdade, desemprego, violência e falta de inserção social e econômica, e que usa música e tecnologia para formar os jovens em “sevirologia” – ensiná-los a “se virar” para se transformarem em “seres sustentáveis”.
Hoje, a Eletrocooperativa fomenta a produção do que chama de “artesanato digital” e facilita negócios.  O próximo passo, conta Reinaldo Pamponet, fundador da entidade, é caminhar para usar a internet na geração de benefícios sociais, estimulando um modelo de produção aberto e a criação da “nova empresa social”.  Ele resume: a web 1.0 era o download, a web 2.  0 é o upload, a idéia é que a web 3.0 garanta valor econômico para quem faz o upload, usando a rede para fazer distribuição de renda.
materia_tecnologiaA nova forma de usar a internet, conhecida como web 2.0, descentraliza as conexões, transforma consumidor em produtor e ajuda a construir inteligência para lidar com desafios comuns
“Wiki”, a palavra do momento, além de dar nome à mais dinâmica enciclopédia da história, quer dizer “rápido”.  E rápido é o ritmo das mudanças que vêm ocorrendo nas comunicações, na produção e no consumo de informação: para quem nem bem entrou na era da chamada blogosfera – conjunto dos milhões de blogs e suas conexões -, já soam alertas de que ela morreu, cooptada pela mídia do mainstream.  A origem da palavra “wiki”, entretanto, dá uma pista do redesenho que blogs e outros elementos da chamada web 2.0 podem significar.
Corruptela havaiana da palavra “quick”, “wiki” foi emprestada de volta pelo inglês para referir-se à velocidade da rede mundial de computadores.  Mas o compartilhamento não está só no nome: wikis são sites colaborativos na world wide web que podem ser editados por qualquer pessoa – o mais famoso é a Wikipedia.  Wikis, blogs, sites de redes sociais – Orkut, Facebook, por exemplo – e de compartilhamento de vídeo – YouTube – compõem a web 2.0, que, ao contrário do que se possa imaginar, não representa uma revolução tecnológica.
A web 2.0 usa a internet como uma plataforma para criar produtos e serviços que não existiriam fora dela.  A diferença entre a Wikipedia e a Enciclopédia Britânica, por exemplo, não reside no fato de que a primeira não nasceu sobre papel.  A Enciclopédia Britânica que se encontra na internet é igual à que circulava em papel no século XX: produzida por poucos para muitos.  A Wikipedia jamais poderia ser impressa, pois depende da internet para ser elaborada, por meio de milhares de colaboradores e editores que, juntos, constroem o conhecimento que depois é compartilhado na rede.  Os usuários, portanto, são parte do processo de produção.
A tecnologia por trás da web 2.0 nasceu com a internet: conhecida como peer-to-peer, ou P2P, permite a troca de informação e arquivos entre os usuários, sem a intermediação de um servidor centralizado.  No modo de ser 1.0 da internet, os sites seguiam uma conexão cliente-servidor, em que o usuário conecta-se a um servidor e este lhe envia informação.  Não que a internet não possibilitasse outro modo de operar, pois ela mesma é composta de milhões de servidores interconectados.  Um dos marcos na transformação do uso da rede foi o advento, em 1999, do Napster, uma aplicação que, em vez de criar um site de onde se podiam baixar arquivos de música, ligou usuários em rede para que compartilhassem canções.  Não à toa, a indústria de discos foi às últimas conseqüências para fechar o serviço.
Em uma rede P2P não há centralização no processamento e na distribuição de dados, e a dinâmica de relacionamento é a cooperação livre entre os pares, tendo em vista a execução de uma tarefa comum.  Qualquer semelhança com a necessidade de compartilhar conhecimento e construir uma inteligência coletiva para enfrentar desafios globais, como a pobreza e as mudanças climáticas, não é mera coincidência.
À esquerda da propriedade
A cultura é a porta de entrada da web 2.0 no Brasil.  “Nosso problema não é a produção (cultural), mas a difusão”, diz Oona Castro, coordenadora do Instituto Overmundo, que nasceu do site colaborativo Overmundo (www.overmundo. org).  Ali, qualquer pessoa pode se cadastrar e contribuir com críticas, comentários ou produção cultural.
A edição é feita pela comunidade: cada contribuição fica na “fila” por 72 horas para que os pares avaliem e, por 48 horas, está aberta a votação.  “Quem decide o que vai ser publicado é a comunidade”, resume Oona.  Quantos mais votos uma contribuição recebe, mais chances tem de entrar na home page.
Nascido em 2006, o Overmundo conta com 39,6 mil usuários cadastrados, publica contribuições de todo o Brasil – no início, algumas eram estimuladas, mas hoje praticamente todas são voluntárias – e oferece tecnologia para que outras comunidades compartilhem conhecimento para produzir inteligência.  É o caso do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (www.
Forumseguranca.org.br), que fomenta a discussão – sempre urgente – sobre o tema no País.
“A web colaborativa invoca as pessoas a participar, é a apropriação das novas tecnologias em favor das pessoas”, diz Oona.  Um ingrediente importante é a cultura do copyleft, um trocadilho com a palavra copyright, que significa o direito de propriedade intelectual.
O copyleft parte do princípio de que a defesa da propriedade intelectual, disfarçada na forma de proteção dos direitos do autor, permitiu a apropriação pelas corporações da informação e da criatividade.  A internet, lembra Oona, ajuda a desmontar o argumento de que a propriedade intelectual estimula a inovação, pois gera a possibilidade do acesso direto e barato a bens cujo valor advinha da escassez artificial.
O acesso e as formas alternativas de licenciar obras intelectuais permitem a formação da chamada “cauda longa”, ou seja, uma grande diversidade de produtos e seu consumo por nichos, o que contribui para a “ecologia da produção cultural”, nas palavras de Oona.  “As classes dominantes se apropriam das tecnologias, mas as periferias também”, diz.  Justo elas que não eram as escolhidas pela indústria cultural.
Do condomínio à comunidade
Nem sempre foi assim.  A internet chegou ao Brasil na segunda metade da década de 90 e, por anos, foi vista como elitista.  “Poucos enxergaram que era o contrário, que sem internet em todos os lugares é que se aprofundava a desigualdade”, conta Oona.  Aos poucos, a democratização do acesso avança, ancorada um pouco em políticas públicas e muito no sucesso global da rede.  Hoje, embora não se possa ignorar que a exclusão digital é realidade no Brasil, há um processo quase orgânico de espalhar a internet, como no caso das lan houses que pipocam pelos bairros.
Em um dos maiores bairros de Fortaleza, a Cooperativa Pirambu Digital (www.pirambudigital.com) criou o Condomínio Virtual, que catalisa doações de computadores usados para um “condomínio” em que o “síndico” fica responsável por receber a conexão de internet e compartilhá-la com os “condôminos”.  A idéia é integrar comunidades que se formam a partir dos condomínios, até que englobem bairros inteiros, além de formar jovens no desenvolvimento de sites e software e na prestação de serviços de informática.
Em outros tantos locais, a tecnologia e a possibilidade de usá-la em favor da comunidade chega por meio dos Pontos de Cultura, programa do Ministério da Cultura que articula e impulsiona iniciativas que envolvem as comunidades por meio de arte, cultura, cidadania e economia solidária.
No condomínio e nas comunidades, o fato de que cada vez mais pessoas estão conectadas salta aos olhos.  A eleição do democrata Barack Obama nos EUA, por exemplo, foi impulsionada pelo uso das redes sociais e pelo ciberativismo de entidades como a Avaaz (www.avaaz.org), que diz contar com uma lista de 3 milhões de nomes globalmente.  O objetivo da Avaaz é funcionar como um “alto-falante” e dar voz à “opinião pública global”, diz Graziela Tanaka, organizadora da entidade no Brasil.  Apesar disso, a entidade por enquanto atinge o público com consciência política – majoritariamente branco e com educação de nível superior -, mas sem tempo de ir às ruas por causas que vão da violência em Myanmar à ação global para mitigar as mudanças climáticas.
Até que ponto a conexão revoluciona radicalmente a organização da sociedade é questionável.  O jornalista americano James Surowiecki escreveu livros sobre a inteligência coletiva e alerta para a importância do pensamento independente, ao citar o fenômeno do “circular mill”: Quando uma formiga se perde, ela segue a companheira à frente e, na maior parte das vezes, o grupo acaba se movimentando em círculos.
Rumo ao 3.0
Talvez por isso a maior força das tecnologias que conectam as pessoas e permitem que elas deixem de só consumir para também produzir conhecimento esteja em seu potencial de empoderamento.  É o que aposta a Eletrocooperativa, entidade nascida em Salvador para atacar problemas da juventude como desigualdade, desemprego, violência e falta de inserção social e econômica, e que usa música e tecnologia para formar os jovens em “sevirologia” – ensiná-los a “se virar” para se transformarem em “seres sustentáveis”.
Hoje, a Eletrocooperativa fomenta a produção do que chama de “artesanato digital” e facilita negócios.  O próximo passo, conta Reinaldo Pamponet, fundador da entidade, é caminhar para usar a internet na geração de benefícios sociais, estimulando um modelo de produção aberto e a criação da “nova empresa social”.  Ele resume: a web 1.0 era o download, a web 2.  0 é o upload, a idéia é que a web 3.0 garanta valor econômico para quem faz o upload, usando a rede para fazer distribuição de renda.

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