Conservação como negócio

Organizações tentam fisgar empresas para investir nos parques brasileiros
Inspirado nas experiências bem-sucedidas de concessão de serviços à iniciativa privada nos parques da Argentina, África do Sul e dos Estados Unidos e no do Iguaçu, no Paraná, um grupo de organizações tenta atrair interesse de empresas para as Unidades de Conservação (UCs) de uso público do Brasil.

Entre outros benefícios para as UCs, espera-se que a participação privada na operação, sobretudo nos parques, aumente significativamente a visitação, melhore seu estado de conservação e gere muito mais receita com a oferta de serviços e atividades de ecoturismo. Apesar de contar com incontestável beleza cênica, abundância de atrativos naturais e diversidade de paisagens, a maioria esmagadora de nossos parques recebe poucos visitantes.

Só um parque nacional dos Estados Unidos, o de Yosemite, na Califórnia, recebeu 4,1 milhões de turistas em 2011, pouco menos que os 5 milhões que ingressaram nos 67 parques nacionais brasileiros. A maior parte da visitação concentra-se em apenas duas unidades, os parques nacionais do Iguaçu (1,4 milhão de visitantes em 2011) e da Tijuca (2,3 milhões). Entre ingressos e repasses de concessionários que operam em Iguaçu e no Parque da Serra dos Órgãos (no Rio de Janeiro), o Instituto Chico Mendes (ICMBio) recebeu a soma pouco expressiva de R$ 24,4 milhões no ano passado.

Motivar empresas para investir em parques é um desafio bastante árduo no Brasil. Mas a movimentação de atores sociais em torno do assunto nunca foi tão intensa como neste início de década. Uma promissora ponte entre os setores público e privado está sendo costurada pelo Instituto Semeia, em parceria com o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) e a Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura (Abeta).

Para ajudar os governos a mostrar às empresas que é um bom negócio investir em áreas protegidas, o Semeia desenvolve desde 2011 estudos de viabilidade econômica para a operação privada de sete parques e dois monumentos naturais nos estados de Minas Gerais, Rio e São Paulo. O projeto mais avançado é o da Rota Lund, que compreende o Parque do Sumidouro e dois monumentos naturais, três UCs estaduais situadas na Grande Belo Horizonte. Nesse caso, o estudo recomenda ao governo mineiro que licite a operação da Rota Lund por meio de uma parceria público-privada (PPP), segundo Gustavo Timo, conselheiro da Abeta e consultor do Semeia.

Análise preliminar do Semeia prevê que a PPP dobre para 160 mil o número anual de visitantes na Rota Lund, com geração anual de receita na casa dos R$ 16 milhões, com a exploração de ingressos, restaurantes, lojas, hotelaria e ecoturismo (hoje a venda de ingressos totaliza perto de R$ 700 mil anuais). No Parque Nacional da Serra da Bocaina (divisa entre São Paulo e Rio de Janeiro), o potencial de arrecadação anual é ainda maior, R$ 28 milhões no modelo de operação por PPP, segundo cálculos iniciais do Semeia. “Se não melhorarmos a visitação nos parques, os ruralistas vão ‘dinamitá-los’”, adverte Ana Luisa Da Riva, diretora-executiva do Semeia.

O modelo da PPP tende a ser mais utilizado em parques com custo alto de manutenção, embora de considerável potencial turístico. Na PPP, o privado é remunerado pelo governo em decorrência de metas de desempenho. Nas concessões, como em Iguaçu e na Serra dos Órgãos, é a concessionária que repassa dinheiro ao ICMBio, que inicia este mês estudos para estruturação de PPPs em quatro parques do Nordeste.

Também serão lançados editais para concessões de serviços para a iniciativa privada em nove parques, tais como Abrolhos (na Bahia), Serra da Bocaina e Chapada dos Veadeiros (Goiás). “O planejamento dos serviços e o padrão a ser exigido do concessionário devem considerar as condições do mercado”, admite Sonia Kinker, coordenadora-geral de visitação do ICMBio, em Brasília.

No Parque do Iguaçu, há hoje seis concessionários explorando serviços de sobrevoo, trilhas, hotelaria, navegação, transporte, alimentação e ingressos. A grande revolução na operação da UC ocorreu em 2000, quando a empresa Cataratas do Iguaçu venceu licitação para operar a venda de ingressos e outros serviços.

O número de visitantes mais que dobrou, dos 600 mil anuais para 1,5 milhão (previsão para 2012), e prevê-se que o faturamento alcançará R$ 55 milhões este ano, mais que o triplo do que arrecadou em 2005, informa Celso Vitreo Florêncio, gerente-geral da empresa, que investirá R$ 62 milhões em suas duas novas concessões, nos parques de Fernando de Noronha e da Tijuca. “Para o Iguaçu, foi um projeto pioneiro que deu muito certo. A visitação vem crescendo de 5% a 10% ao ano e o parque gera 800 empregos diretos através de seus concessionários”, comemora Jorge Pegoraro, chefe do parque.

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