Pequenos atos de generosidade

Foto de Heath Brandon via Flickr
Foto de Heath Brandon via Flickr

Uma onda movida a generosidade – e alimentada pelo triste estado da política nacional – vem pegando nos Estados Unidos. Trata-se do Pay It Forward, a ideia de repagar um favor ou um gesto bondoso não a quem o fez, mas a alguém outro, como forma de propagar a generosidade.

Segundo o The New York Times, é comum esses dias que clientes que utilizam os drive-thru de cadeias de restaurantes como McDonald’s e Chick-fil-A paguem não só pela sua compra, mas também pelo pedido do carro de trás. Quando o motorista que vem atrás chega ao caixa é informado de que sua conta está paga. Como a esta altura o carro da frente já partiu e fica difícil agradecer, a ideia é que o agradecimento seja feito a outrem.

“Nós realmente não sabemos o que está acontecendo, mas meu palpite é que tem um monte de coisas ocorrendo no país que as pessoas acham frustrantes. Pagar adiantado é uma maneira de contrabalançar isso”, disse um diretor da Chick-fil-A ao The New York Times.

Primeira entre as frustrações dos americanos parece estar a disputa partidária que levou ao fechamento das atividades do governo federal americano de 1o a 17 de outubro e a perspectiva de que a batalha se repetirá daqui a alguns meses.

A rede de coffee shops Starbucks deu um empurrãozinho na generosidade dos americanos em setembro quando o CEO Howard Schultz pediu que seus clientes dessem o exemplo aos políticos. Durante três dias, a Starbucks ofereceu um café de graça a quem se oferecesse para pagar uma bebida a outra pessoa.

A ideia de Schultz, segundo o marketing da empresa, era encorajar que cidadãos “apoiem e se conectem uns com os outros, ao mesmo tempo em que esperamos que os políticos eleitos façam o mesmo pelo país”. Analistas dizem que a iniciativa tem muito pouco impacto político, mas gera marketing positivo para a empresa, que sai na fita com a imagem de preocupada com o bem geral da nação.

Starbucks à parte, a ideia do “suspended coffee” se tornou viral no início desse ano ao sugerir que consumidores, ao comprar um café, deixassem pago mais um a ser doado a pessoas com dificuldades financeiras. Os organizadores do movimento dizem que ele não só beneficia a terceiros, mas permite que o doador tenha controle sobre sua doação, e ajuda financeiramente pequenas empresas locais e seus empregados.

A noção do Pay It Forward não é nova. Como ensina a Wikipedia, o princípio foi utilizado pelo escritor grego Menandro em sua peça “O Misantropo”, datada de 317 A.C. Outros autores que se utilizaram do conceito incluem Benjamim Franklin, Ralph Aldo Emerson e Ray Bradbury.

Em 2000, a novelista americana Catherine Ryan Hyde lançou o livro “Pay It Forward”, baseado em sua experiência quando seu carro pegou fogo e ela recebeu ajuda de um estranho. Transposto para o cinema também em 2000, o livro conta a história de um adolescente que bola um plano para melhorar o mundo por meio de uma rede de generosidade em que o recipiente de um favor, em vez de repagá-lo, faz favores a três outras pessoas.

Com o sucesso do livro e do filme Catherine fundou a Pay It Forward Foundation, que desde 2010 promove o Pay It Forward Day (em geral no mês de abril) e distribui braceletes para lembrar as pessoas de fazer pequenos atos de generosidade.

Há quem estenda à onda do Pay If Forward a mesma crítica feita ao filme baseado no livro de Catherine Ryan Hyde: de que se trata apenas de uma maneira fácil de se sentir bem em um mundo cada vez mais complexo.

Dificilmente pequenas gentilezas como pagar o fast-food do próximo vão mudar o estado do mundo. Mas assim como com as tendências de compartilhamento, colaboração, open source e outras, deixa a sensação de que há latente na sociedade a busca por um modo de operar menos individualista.

 

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