A colheita especial de Neide Rigo

A nutricionista transforma o resgate de alimentos “esquecidos” em referência para os pequenos produtores

(Imagem: Arquivo pessoal)
(Imagem: Arquivo pessoal)

Não há um só lugar que a nutricionista Neide Rigo deixe de observar ao andar por São Paulo. Em cada canto de praça, parques e calçadas, ela tem o hábito de procurar por ervas e hortaliças mais conhecidas como “não convencionais”.

Foi por meio dessas mudas encontradas de forma espontânea pela cidade que ela formou canteiros no quintal de sua casa. “Uns crescem plantados, outros largados e alguns de teimosos”, brinca. É nesse pequeno espaço que Neide colhe ora-pro-nóbis (folhas ricas em proteína e por isso chamada de bife dos pobres), mangarito (rizoma considerado a “trufa brasileira”) e cará-moela, ingrediente de cozidos no passado. Tem também capiçoba (folha similar ao espinafre), jambu (a erva amazonense que amortece de leve os lábios), e sementes de vários lugares.

Agora, parte desse “acervo” também está sendo plantado no sítio comprado por ela e pelo marido, em Piracaia, a 90 quilômetros da capital paulista. “Tenho um interesse histórico por alimentos, por isso eles nunca perdem a importância para mim”, diz.

Por resgatar alimentos à beira da extinção, Neide Rigo já contribuiu com o restabelecimento de alguns deles pelo País. Ela mandou para a região de Garanhuns, em Pernambuco, um tipo de melão (o cruá) que estava desaparecido por lá. Outra vez, recebeu de um produtor um punhado de farinha de araruta, que anda sumida do mercado. Segundo Neide, o que mais se encontra é o amido (fécula) de mandioca sendo vendido no lugar da outra raiz. “Quem conhece sabe que os biscoitos de araruta são mais leves e branquinhos”, afirma.

A dedicação aos alimentos quase desaparecidos levou a nutricionista a participar da Arca do Gosto, braço do movimento internacional Slow Food, que prega a recuperação da tradição de alguns produtos em seus respectivos países.

Ela mantém um blog (come-se.blogspot.com), por meio do qual conta a história e ensina a utilizar os alimentos que não passam pelas cozinhas tradicionais. Aos poucos, o espaço também se tornou referência de pequenos produtores, que vira e mexe mandam para ela encomendas com produtos desconhecidos do Brasil (mais sobre o resgate de alimentos “esquecidos” em Retrato).

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