Pelo estômago

Do cardápio de um quiosque de comida localizado numa praça de Pittsburgh, nos Estados Unidos, constam deliciosos pratos da culinária palestina, como shawarma, falafel, homus e baba ghanoush. O cliente distraído pode não perceber isso de forma consciente, mas aquele shawarma é um sanduíche da paz.

Por falar em sanduíches, na década de 1990 Thomas Friedman formulou a “teoria dos arcos dourados para a prevenção de conflitos”, segundo a qual dois países onde há McDonald’s não travam guerra entre si. Embora falha — tais conflitos de fato existiram —, a ideia por trás da teoria, que exalta os “efeitos conciliadores do comércio”, como descreveu Steven Pinker em Os Anjos Bons da Nossa Natureza, tem mérito.
Para Pinker, o comércio é uma das forças históricas que contribuíram para a redução da violência no mundo. Por muito tempo, povos vizinhos representavam uma potencial ameaça de invasão e dominação. O comércio alterou os incentivos, criando um jogo de soma diferente de zero: entrar em conflito com meu vizinho, com quem passei a fazer trocas comerciais mutuamente benéficas, agora também traz desvantagens.

O jornalista Robert Wright, autor de Não Zero: A lógica do destino humano, concorda com o argumento (ver sua palestra TED). Mas também enxerga um futuro potencialmente perigoso, caso não sigamos avançando na agenda do “progresso moral” da humanidade: o crescimento recente da intolerância religiosa, somado ao aumento da eficiência bélica e ao avanço tecnológico das comunicações, aumenta os riscos de ações coordenadas e com alta letalidade promovidas por grupos extremistas. Para Wright, nossa resposta a isso precisa ser inteligente, reforçando a noção de “destinos interlaçados”.

Pensando em termos de soft power, o turismo pode dar uma contribuição importante para isso. Ao se conhecer um país — seus marcos arquitetônicos, sua comida e, sobretudo, seus habitantes —, estabelece-se uma ligação afetiva com ele. Defender o “bombardeio do Irã” fica muito mais difícil quando o abstrato “Irã” é substituído pelas lojas do Grande Bazar de Teerã e entre as vítimas pode estar Ahmad, aquele simpático moço que nos ajudou quando nos perdemos nos jardins de Shiraz.

Aquele pequeno restaurante do início do texto chama-se Conflict Kitchen [Cozinha do Conflito], e se propõe a oferecer pratos de países com os quais os Estados Unidos estejam em conflito atualmente. Desde que foi inaugurado, em 2010, o restaurante também já serviu comida do Irã, Afeganistão, Cuba, Coreia do Norte e Venezuela (a decoração é uma atração à parte).

Busca criar esse vínculo afetivo pelo estômago. Espero que prospere a curto prazo, mas que em breve não tenha mais razão de existir. Ou quem sabe que passe a servir tradicionais hambúrgueres americanos, preferencialmente mais saudáveis e nutritivos do que os daquela rede dos arcos dourados.

*Doutor em Administração Política e Governo

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