Operação ocupação

As grandes cidades estão em uma encruzilhada: de um lado está a inércia de um modelo urbanístico falido; do outro, uma nova geração de ativistas que se vê capaz de virar esse jogo

Há algo fermentando dentro das maiores cidades do mundo. Uma insatisfação latente que, aos poucos, está se tornando evidente e ganhando as ruas na forma de pessoas cansadas de esperar aquela vida melhor que as grandes  metanarrativas [1] prometem sempre para um amanhã que não chega nunca. Desiludida com tanto blá-blá-blá, essa gente começa a tomar para si a responsabilidade de fazer algo capaz de melhorar – um pouquinho que seja – seu próprio entorno.

[1] Conceito filosófico que, grosso modo, se refere a discursos que pretendem dar sentido a cada aspecto da vida. O capitalismo e o marxismo podem ser colocados sob esse guarda-chuva

A impressão é que se trata de cada um por si. Um bando de formigas, atarefadamente, cuidando de sua própria microtarefa autoimposta. Há de tudo: uns querem ocupar a pracinha do lado de suas casas ou melhorar as condições das periferias e favelas; outro trabalha para garantir uma malha urbana um pouco mais amigável para andar a pé ou de bicicleta; um terceiro está empenhado em fazer a arte mais presente no dia a dia; também há quem peite as imobiliárias e tente melhorar os parques e áreas verdes.

Mas, como em um formigueiro real, o caos é apenas aparente. Basta dar um passo atrás e uma forma orgânica e complexa de ordem começa a emergir. “Se você pegar cada caso, parece uma coisa individualista e um pouco angustiante. Mas, quando você se afasta, vê que tem tantas dessas microintervenções acontecendo ao mesmo tempo que elas causam uma interferência no todo da cidade”, resume sociólogo Jeff Anderson, fundador da BioUrban e autor do livro Handmade Urbanism. “Esse emaranhado faz parte de uma mesma trama em que ações diferentes não criam ruído, mas fazem parte de um mesmo movimento”, completa.

Essa nova geração de ativista – na qual o próprio Anderson se inclui – traz para a cena urbana um ímpeto de fazer por conta própria e, a despeito da falta de condições ideais, tem raízes no punk dos anos 1970 e renasceu com o  movimento maker [2]. “Queremos fazer a cidade na prática, fazer a democracia participativa, porque a representativa está em xeque. Está todo mundo cheio de sentar numa sala de aula ou num escritório e não fazer nada de prático”, analisa.

[2] Versão hi-tech do espírito do faça-você-mesmo que prega que os usuários se apropriem das ferramentas tecnológicas e construam suas próprias soluções sem ficar esperando que venham das grandes empresas

É pode muito bem ser assim, com gente disposta a pôr a mão na massa e modificar uma esquina de cada vez, que o tal “novo mundo” comece mesmo a se tornar “possível”.

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