Marina defende “tablado” em vez de “palanque”

Quem conseguiu entrar na lotada Sala Crisantempo encontrou clima acolhedor. Uma roda de conversa com pufes e crianças brincando sugeria um espaço para ouvir e ser ouvido, em consonância com a proposta político-estética apregoada pela Rede Sustentabilidade.

O espaço na Vila Madalena, bairro paulistano de classe média-alta, no entanto foi pequeno para receber todos os interessados em participar do lançamento da pré-candidatura de Ricardo Young – hoje vereador –, à prefeitura de São Paulo pela Rede.

Com presença de Marina Silva e também de pré-candidatos a vereança, o evento atraiu cerca de 400 pessoas no início de maio, muitas das quais se aglomeraram do lado de fora.

Lá dentro, Marina Silva deu o tom da estratégia de campanha da Rede: “Não vamos ter um grande palanque, mas podemos ter um grande tablado. Eu insisto no tablado, sabe, Ricardo? Este não é o momento de pensar nas grandes estruturas, elas estão ruindo. Mas é o momento de apostar nas praças, nas rodas de conversa, em como ter uma ocupação adequada inclusive por meio de ferramentas como a internet.”

Na roda, ouviram-se relatos de cidadãos como Rodrigo Bandeira de Luna, criador do Plano de Bairro da Pompéia, e Andrea Pesek, sobre a recuperação da Praça da Nascente, nesse mesmo bairro, iniciativa que se deu por meio da organização dos próprios moradores.

Young então usou esse gancho para descrever uma de suas propostas para São Paulo: promover conectividade e articulação que deem vazão à energia criativa dos cidadãos, potencializando a organização que já existe nos diversos territórios da cidade. E, a partir disso, fazer emergir a capacidade regenerativa de São Paulo.

Ele contou que antes de ser vereador tinha a ilusão de que conhecia a cidade. Mas o que conhecia não chegava nem perto do que chamou de “múltiplo de fractais”, experiências locais que se auto-organizam perto da excelência. “O poder público não dialoga com isso. Vi o quanto a política é ineficiente para chegar nas pontas”, contou.

“Quero mostrar e a viabilidade dessas ideias e iniciativas. Independente de ganhar as eleições, a cidade será melhor, mais amorosa, mais colaborativa, conectada, capaz de regenar serviços ambientais e restaurar a vida”, afirmou, “Para isso teremos de usar todos os recursos que estão à mão, da tecnologia à inteligência coletiva; das redes sociais ao serviço público já instalado”.

Para Young, as cidades precisam ganhar nova expressão: serem “restauradoras da vida”. “As cidades hoje matam a vida, destroem os serviços ambientais, o ar, a água e nós mesmos. As cidades, como redutos últimos da civilização, devem ser espaços regenerativos, senão vamos sucumbir”.

Marina Silva não deixou de conectar o evento à crise atual, dizendo que a política virou espaço muito mais de rótulo do que debate. “A gente esvazia qualquer coisa rotulando”. E que a proposta da Rede é “dar um novo significado à campanha política em plena crise da política, para tentar reconectar a sociedade à sua potência transformadora”.

“Parece ingênuo?”, perguntou ela, acrescentando a diretriz de fazer uma campanha ética e não destrutiva de seus opositores. “É preferível sofrer injustiça do que praticar injustiça. E fazer tudo o que for necessário para ganhar ganhando, jamais ganhar perdendo”, disse em clara referência às últimas eleições para presidência da República.

Mas o “como fazer” ainda é nebuloso. Como disse Marina, todo mundo sabe como é um partido tradicional, seja de centro, de direita ou de esquerda. “Mas ninguém sabe como é ser um partido em rede – esse é um esforço que está acontecendo no mundo inteiro. E a Rede se soma a esse esforço nessa tentativa de atualizar a política – na visão, no processo e na estrutura – para dialogar com este novo sujeito político que está surgindo no mundo, que eu chamo de ativismo autoral, das pessoas.”

Enquanto isso, o que o sistema oferece são os tradicionais métodos de governar pelas coalizões, que segundo Young custa caro tanto em termos financeiros como em ineficiência. O jogo partidário vem ditar esse fracionamento, onde uma secretaria não conversa com a outra e não existe cooperação entre servidores públicos. Isso cria uma grande contradição para a sustentabilidade na política, pois esta requer transversalidade, colaboração e cooperação.

Young não se conforma com esse sistema: “Por trás de todo servidor público existe o sonho genuíno de contribuir com o coletivo”, acredita. E quem não tem esse sonho, diz ele, deveria deixar o serviço público.

Sonhadores? Marina diz: “Minha experiência nesses quase 30 anos de vida pública mostra que a matéria mais concreta que temos para fazer as coisas acontecerem é o sonho.”

A população poderá participar da construção do plano de gestão do pré-candidato por meio da plataforma on-line “A São Paulo que Sonhamos“.

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