“Tem mão humana no desastre”

Em campo para estudar medidas de adaptação no Semiárido, pesquisadora faz um sensível relato da condição humana à margem dos leitos secos. Conheça os resultados do estudo na edição P22_ON Água

 

 

“De sorte que sempre evitado, aquele sertão, até hoje desconhecido,

ainda o será por muito tempo.”

Euclides da Cunha, Os Sertões (1902)

 

A intenção era captar características que só a experiência revela. Sendo o objetivo entender as implicações da falta de água, por coincidência e infortúnio, o Semiárido é agora a expressão de dificuldades antes apenas imaginadas. A seca e seus muitos desenrolares afeta a dinâmica de seus acompanhantes de maneira pouco compreendida, pelo menos para aqueles que não a vivem. A região é árida, e em decorrência de fatores climáticos e geológicos, seus rios só existem em determinados meses do ano. Se a água não permanece no solo, tampouco se transporta no tempo, e é precisamente esta a função dos mais de 2.300 reservatórios instalados pelo território da bacia.

Os reservatórios, ao reterem grandes volumes de água, produzem artificialmente o que não se formou de maneira orgânica. Entre fevereiro e maio é quando a chuva cai, e em condições normais, cai muito, podendo ser tanta que ameaça romper barragens. Mas não no momento. Imersa em uma seca de seis anos, a Bacia do Rio Piancó-Piranhas-Açu tem grande parte das reservas perto do colapso. Sua geografia social acompanha seus atributos físicos, e é no leito do rio seco, ora em decorrência de sua natureza, ora por conta da seca que se instalou, que caminha a essência sertaneja.

“Na seca o sertanejo adormece mas, com a chuva, ele volta, igual à caatinga’, disse Seu Zé Preto, morador e pequeno produtor da zona rural de São Mamede, na Paraíba. Dono de um modesto sítio, o criador de gado conta que, com muito esforço, conseguiu manter 12 cabeças. Zé Preto regava sua plantação de palma forrageira, espécie que, mesmo sendo mais adaptada ao clima do Semiárido, impressiona por não estar presente em mais pedaços de terra. Com a mangueira na mão, conta que começou sua produção quando um caminhão derrubou algumas amostras da planta a caminho da propriedade de um grande fazendeiro local. Agora, é dessa derivação e esperteza que ele alimenta seu rebanho, mas ressalta que, se voltar a água, volta o capim, “é mais simples”.

Em meio à vegetação adormecida pela ausência de água, pequenos oásis verdes revelam rios tímidos e a vida que, ao seu redor, segue intermitente. Mas nisso que impressiona, nada mais normal. A seca só anseia ser combatida por aqueles que não a compreendem. É nesse cenário que a convivência assume diversas formas, se revelando histórica e parte da própria existência sertaneja. No entanto, se no passado significava retirar-se, agora significa poder ficar. Da mesma forma que a seca atualmente tem se prolongado, também se alonga a permanência na terra e o sustento em tempos de crise. Como resultado de política sociais e de infraestrutura, a população já não é tão vulnerável a esses eventos e, mesmo depois de seis anos de chuva escassa, pode dizer que não precisou partir.

O agricultor confiava na regularidade da chuva e plantava na terra árida esperando o inverno. Por outro lado, é difícil ver hoje uma casa no meio do sertão que não conte com uma cisterna. Na atual crise, os carros-pipa percorrem o caminho entre os reservatórios e a zona rural, preenchendo com água dos açudes, as cisternas vazias de água da chuva. Estas, quando cheias, aguentam uma temporada inteira de seca abastecendo quatro pessoas, que por ora não podem depender do cultivo próprio para se alimentar. A alteração dos padrões climáticos interfere também na dinâmica social regional. Nesse contexto, o comportamento das estruturas que comandam a vida da bacia se transforma, transformando também aqueles que delas dependem.

Aparecida é líder da comunidade rural de Mãe d’Água, aos pés da barragem de Coremas, e sabe que o clima na região já não é mais o mesmo. Sua mãe, de 80 anos, não lembra de seca tão forte, mas não se esquece de quando a água jorrava quatro metros acima do vertedouro de um dos principais reservatórios da bacia, vista principal de sua varanda. A cadeira de balanço na qual está sentada quase faz parte da paisagem local – praticamente toda casa tem duas ou mais, confortando a conversa que ecoa nas pequenas ruas do interior. Lembra ainda que antigamente carregava água do rio no lombo de um jumento, e concorda com a filha quando esta diz com firmeza: “Tem mão humana no desastre”, citando a má gestão dos açudes e o desmatamento da caatinga. Com admiração, e um pouco de aborrecimento, Aparecida fala da força da fé sertaneja, da resignação frente a esse tudo que sempre melhora. E, assim, todos seguem: igual será com a seca.

Ao final, fica evidente, a população e os reservatórios não mais se dissociam, sendo no esgotamento desta simbiose que nasce a demanda por novas existências.

*Pesquisadora do FGVces

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