Preocupação do varejo com cadeia de suprimentos chega ao setor de pescados

Parceria inédita  firmada entre programa Seafood Watch e uma rede varejista no Brasil  – o Carrefour  – deve direcionar a política de compras da companhia. A comunicação será fundamental para o sucesso da iniciativa, pois a situação da pesca não é vista pelo consumidor de forma tão crítica como a do boi e da soja

O rastreamento da cadeia de fornecimento em redes varejistas chegou ao setor de pescados. Em julho, o Carrefour firmou uma parceria com o programa Seafood Watch, pertencente à ONG Monterey Bay Aquarium, sediada na Califórnia, nos Estados Unidos. O programa tem como objetivo mapear, a partir deste ano, a cadeia de fornecimento de pescado e identificar oportunidades para garantir a sustentabilidade de todo o processo de criação e pesca. O mapeamento começará com tambaqui e tilápia na água doce e atum e crustáceos no mar. A empresa não informou os valores do investimento e nem quanto isso representa do total de pescados comercializados pela rede (leia no fim da entrevista as perguntas não respondidas).

Diretor de Sustentabilidade e Responsabilidade Social do Carrefour Brazil Group, Paulo Pianez é graduado em Economia pela Unicamp. Possui pós-graduação em Qualidade e Estatística pela mesma universidade e em Gestão de Varejo pela Youngstown University (EUA). Foi diretor de qualidade do BankBoston e superintendente de relacionamento com o cliente do Banco Santander.

Por que a escolha do setor de pescados? 

Esta parceria contribuirá para direcionar a política de compras do Grupo Carrefour no País, promovendo profundas mudanças junto aos nossos diversos fornecedores, além de ser um importante passo para garantir as boas práticas de manejo e preservação da cadeia de pescados, que é uma das mais críticas no Brasil. Além disso, já atuamos em outras cadeias também consideradas críticas, como a da carne, da soja, de ovos e têxtil, sendo o pescado o próximo passo dentro desta política de gestão sustentável da nossa cadeia de abastecimento.

A parceria inclui carcinicultura?

Inicialmente, vamos selecionar determinadas cadeias de pescados na qual aplicaremos a metodologia, escolhendo as cadeias de maior participação. Mapearemos, por exemplo, o tambaqui e a tilápia, que são peixes de água doce. Além disso, vamos estender esse processo para a cadeia de exportação. Nas cadeias de água salgada, vamos começar com atum e alguns crustáceos.

A busca de reputação e da boa imagem gerada por práticas responsáveis são fatores levados em consideração pelo grupo ao firmar essa parceria?

Os nossos investimentos em políticas socioambientais atendem compromissos brasileiros e globais da companhia, além de estarem diretamente relaciona a sustentabilidade do nosso negócio. O cuidado com as nossas cadeias e com a comunicação com o consumidor é fator essencial para nossa gestão, garantindo atividade no futuro. Além disso, esse modelo de gestão reflete positivamente na reputação da companhia.

Existe uma pressão por parte do consumidor e da opinião pública? O que mais pesa nessa decisão?

Cada vez mais a população deseja consumir de forma mais saudável e mais sustentável. Porém, diferentemente de outras cadeias, os consumidores em geral desconhecem a situação crítica da cadeia de pescado, que envolve a pesca ou cultivo de espécies ameaçadas ou cujas práticas de manejo não adotam critérios socioambientais. Diante disso, o projeto tem como uma etapa a comunicação ao consumidor deste cenário ou de eventuais alterações na política de compra da companhia e, consequentemente, na oferta de pescado pela rede.

Como o consumidor será informado e estimulado pelo Carrefour a comprar produtos mais sustentáveis? Existe alguma estratégia de publicidade?

O projeto contempla comunicação para conscientização do consumidor sobre as espécies, processos de criação e manejo. Pretendemos mostrar ao consumidor que ele pode encontrar em nossas lojas diversas espécies de pescado de origem responsável, estimulando-o a experimentar peixes diferentes, além de apresentar receitas e formas de aproveitar melhor os alimentos e a evitar desperdícios. Essas iniciativas serão realizadas assim que o estudo ficar pronto.

Que estudo é exatamente esse e quando ficará pronto?

A partir deste ano, o projeto mapeará a cadeia de fornecimento de pescado do Carrefour a fim de identificar oportunidades para garantir a sustentabilidade de todo o processo de criação e pesca. Quando concluído, o mapeamento direcionará a política de compras da companhia no País. Parte do relatório será aberta ao público para contribuir na identificação dos potenciais de sustentabilidade das espécies mais consumidas e dos manejos que demandam maior atenção por parte dos agentes públicos e privados.

Qual a atuação do Carrefour nas demais cadeias de alimentos? 

O Grupo Carrefour Brasil apoia iniciativas setoriais para garantir o desenvolvimento e produção socioambiental de outras cadeias. Entre essas iniciativas, destacam-se o Grupo de Trabalho da Soja (GTS), o Grupo de Trabalho do Cerrado (GTC), o Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável (GTPS).

Em 2013 a companhia foi pioneira no lançamento da carne bovina com certificação Rainforest Alliance, selo atesta que a carne é proveniente de fazendas que seguem rigorosas normas internacionais de conservação ambiental. Em 2016, lançamos a Plataforma de Pecuária Sustentável, a partir de uma política nacional específica para a compra de carne bovina in natura, adotando um sistema para monitorar os processos produtivos e práticas socioambientais de todos nossos fornecedores no País.

E, em julho, a companhia anunciou o investimento no projeto Produção Sustentável de Bezerros, por meio do qual vai fomentar a criação sustentável de gado em centenas de pequenas propriedades situadas no bioma Amazônico do Mato Grosso.

Por que essa iniciativa não foi realizada antes?

O nosso plano de monitoramento da cadeia de pescados começou há alguns anos. Na França, o Grupo Carrefour mapeia toda sua cadeia de pescados há mais de três anos. No Brasil, há mais de um ano, iniciamos conversas com potenciais ONGs parceiras para implementar o projeto. Inclusive, no ano passado, realizamos o nosso primeiro fórum com fornecedores sobre a importância do mapeamento da cadeia de pescados.

Quais são os maiores desafios que o setor apresenta em termos socioambientais, de informalidade etc., e como o Carrefour tem lidado com eles?

O ineditismo no Brasil é um dos maiores desafios. Esta é a primeira vez que a ONG Monterey Bay Aquarium realiza parceria com o varejo brasileiro. O Grupo Carrefour será a primeira varejista no País a realizar esse diagnóstico com impactos diretos e significativos na sua cadeia de fornecimento, sobretudo devido ao grande volume de pescado que é comercializado pela companhia todos os anos.

Outro grande desafio está diretamente relacionado às peculiaridades de cada pescado. Não existe uma única cadeia de pescados, para cada peixe há uma específica, com características e desafios próprios.

Que aprendizados são tirados dessa experiência que podem servir para inspirar outros players a seguir esse tipo de iniciativa?

Acreditamos que o varejo tem um importante papel como agente de transformação e conscientização sobre a importância da alimentação saudável, sustentável e sem desperdício. Especificamente em relação à cadeia de pescado, como varejista temos a oportunidade de promover profundas mudanças na cadeia do pescado, incentivando a adoção de boas práticas de aquicultura e manejo, selecionando de forma consciente o sortimento de pescados ofertado ao consumidor e, consequentemente, auxiliando na recuperação e a preservação de espécies.

O Grupo Carrefour não respondeu às seguintes questões enviadas por email, alegando que não abre essas informações:

Qual o investimento do Carrefour nessa iniciativa?
Qual o volume de pescado total comercializado pelo Carrefour anualmente?
Deste total, a parceria representará quantos por cento? Há metas para ampliar os percentuais? Quais?