Informação para o novo século

Edição 37

10.12.2009

Saber agir

Comentários por Amália Safatle # em 37, Revista

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entrevistaNão basta uma somatória de conhecimentos, habilidades e atitudes, o que vale é um “saber agir”, conforme o tipo de organização em que se estiver atuando. 

Essa aplicação específica do saber deve ser antecedida por uma preocupação primeira, de ordem socioambiental e que envolve questões relativas à disparidade de renda e à diversidade, acredita Maria Tereza Leme Fleury, diretora da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (Eaesp-FGV). 

A seu ver, as instituições de ensino cuja finalidade é formar profissionais para organizações de ponta têm se preparado cada vez mais para lidar com os temas da sustentabilidade, embora ainda não estejam prontas. 

Cientista social de formação, Maria Tereza ressalta que os problemas da educação no País, que reduzem seu poder de transformação da sociedade, vêm desde o Ensino Básico.  Mas observa que a maior abertura e estabilidade econômicas desde a década de 1990, com a consequente demanda por melhores profissionais, fizeram com que a sociedade pressionasse por mais qualidade na educação, e não só quantidade.  Hoje, as demandas se sofisticaram e pedem profissionais com uma visão mais global e integradora.

Uma das linhas de pesquisa que a senhora desenvolveu refere-se à gestão de competências – individuais e nas organizações.  A seu ver, quais são as competências necessárias para lidar com os novos desafios do século XXI, que são muito complexos nas áreas social e ambiental?É muito difícil fazer uma lista de competências, que sirva para qualquer profissional.  Acabamos listando aquelas competências muito genéricas ou ficamos com uma lista tão extensa que parece “lista de lavanderia”.  As competências do profissional têm de estar relacionadas à organização em que essa pessoa trabalha.  Há uma lista de competências que já são praticamente taken for granted, ou seja, espera-se do profissional uma postura ética, responsável, de preocupação com questões econômicas, sociais, ambientais.  Mas é importante ressaltar que, quando se fala em competências, estamos nos referindo a um “saber agir”, e não a uma coletânea, uma somatória de conhecimentos, habilidades e de atitudes.  E esse “saber agir” vai variar conforme o tipo de organização em que se estiver atuando.

Essas competências mudaram significativamente de um tempo pra cá, com a consciência maior das questões socioambientais? Hoje existe toda uma pressão para as empresas, e não apenas para um certo tipo de organização, de não olhar apenas o lado do acionista, do shareholder, mas para todos os stakeholders (partes interessadas).  Existe assim uma demanda por esse tipo de profissional preocupado com questões socioambientais.  Ou seja, se no passado havia um grupo de jovens muito envolvidos com essas questões, muito preocupados em atuar sobre elas, hoje isso se generalizou.  Principalmente nas escolas de Administração, que estão formando um pessoal com uma cabeça mais aberta, com um tipo de formação mais global, porque essa questão se tornou muito relevante.  Um rapaz ou uma moça formados numa escola como a Eaesp, se forem trabalhar numa ONG com a questão de certificação de madeira na Amazônia, terão de ter uma série de competências ligadas àquela ONG e ao tipo de trabalho que vai fazer.  Se forem trabalhar em uma empresa no setor de serviços ou numa indústria, as competências vão ser diferentes.  Com isso, é muito importante ter uma base primeira, haver a preocupação com a questão socioambiental, com as questões relativas às disparidades de renda, com a questão da diversidade.  Mas o saber agir, o colocar no dia a dia essas competências, serão específicas de cada situação.

Na sua opinião, as escolas de negócios estão prontas para ajudar a desenvolver essas competências? Acho que elas estão cada vez mais se preparando.  Não posso dizer que estão prontas.  Hoje, em uma cidade como São Paulo, as escolas que estão formando os profissionais para atuar em determinados segmentos empresariais, organizações e organismos internacionais mais de ponta, são as que têm essa preocupação.

Essa preocupação parte das próprias diretorias das escolas, dos alunos, dos professores, ou do mercado? É um conjunto.  Há uma pressão que vem da sociedade.  E há por parte dos alunos uma preocupação nesse sentido, cada vez mais evidente.  Você tem entidades estudantis batalhando por essas questões.  Mas precisa ter uma liderança da direção da escola e do corpo docente, porque são eles que modelam o curriculum, que trabalham as diferentes disciplinas, a integração de certos projetos, nessa direção.

Falta muito para as escolas ficarem prontas? Em uma escola como a Eaesp, a gente já está muito adiantado.  Em termos da questão da sustentabilidade, nós avançamos não apenas na formação, mas também nas pesquisas que estão sendo realizadas.  Naquelas de cunho mais acadêmico e naquelas mais aplicadas.  Temos vários centros de estudos realizando pesquisas, projetos na área de sustentabilidade social e ambiental, de microcrédito, de gestão pública, e na própria área de empreendedorismo.  Isso gera um conhecimento que também é trabalhado no nível das disciplinas, na graduação e na pós-graduação.

Mesmo que ainda não haja uma disciplina específica?  Em breve será lançada a FIS (Formação Integrada para Sustentabilidade)… Hoje já tem um track, ou seja, uma linha de disciplinas lecionadas na graduação, cerca de sete, que estão ligadas à sustentabilidade.  E está-se modelando uma disciplina integradora (mais sobre a FIS em reportagens às págs.  16 e 22).  Existe, assim, um conjunto de disciplinas que são oferecidas aos alunos em que se trabalha esse tema.  Idem na pós-graduação.

A FGV-Eaesp aderiu à iniciativa da ONU, a Principles for Responsible Management Education (PRME, para envolver as escolas de negócios na formação para sustentabilidade).  Que resultados a senhora espera dessa adesão? A adesão não pode ser simplesmente uma certificação formal.  Estamos fazendo todo um trabalho de definir quais são os nossos objetivos estratégicos, quais são essas ações e os indicadores para monitorar o que está sendo feito.  É o walk the talk no nosso cotidiano.  A nossa adesão foi muito consciente e discutida, no nível dos alunos, dos professores e, principalmente, no nível de coordenação dos cursos.

Como se deu essa iniciativa?  A Eaesp procurou ou foi procurada? Foi uma iniciativa da escola.  Pelo fato de já termos as iniciativas mencionadas em pesquisa e de ensino, quando apareceu essa oportunidade, pensamos: “Como é que nós vamos fazer e o que isso vai repercutir para a Eaesp?” A escola tem certificações internacionais das grandes associações que acreditam as escolas de administração.  E quando dizemos que vamos aderir também ao PRME, isso tem a ver com a nossa estratégia e práticas aqui na escola.

Por que é estratégico? Porque temos como um dos objetivos estratégicos desta gestão formar um tipo de profissional que tenha justamente essa preocupação com a sustentabilidade, econômica, ambiental, social, que saiba trabalhar num mundo extremamente complexo e que tenha uma visão mais global.  Assim, o conjunto de nossas ações, em termos de cursos, em termos de formação desses alunos e de pesquisas, é consistente com isso.

A sustentabilidade é um assunto inescapável às escolas de negócios? É um assunto extremamente importante.  Inescapável, eu não diria, porque inescapável é o curriculum que o MEC (Ministério da Educação) define.  Mas acho que é um assunto extremamente importante em termos da formação de um jovem para esse mundo complexo.

Sustentabilidade não está no curriculum que o MEC define? Está muito no nível das disciplinas eletivas.  É uma possibilidade de a escola direcionar para isso.

A seu ver, como a sustentabilidade pode ser incorporada, tratada, dentro da instituição?  De maneira transversal? Essa é uma questão extremamente relevante.  Você deve ter um track de disciplinas sobre o assunto.  E essas disciplinas podem ser provavelmente eletivas, ou até uma obrigatória.  Ou você pode ter uma transversalidade.  Na questão da transversalidade, que às vezes parece que é a coisa mais interessante, há um risco muito grande.  Cada professor coloca algum assunto, alguma coisa que acha importante, mas aquilo não necessariamente conversa e se integra.  O importante é ter algumas disciplinas de caráter mais integrador, em que essas questões sejam trabalhadas.  Novamente, estou falando da nossa experiência, não gostaria de generalizar isso para qualquer escola de Administração no Brasil.

Muitas pessoas acham que há uma visão instrumentalista e utilitarista da sustentabilidade, como se ela pudesse ser empacotada e transformada em um programa para rodar em um laptop.  A senhora acha que isso tem acontecido?  Como as escolas poderiam evitar que a discussão muito rica da sustentabilidade não fosse reduzida a um mero instrumento? Vai ter de mudar a cultura.  E toda mudança de cultura precisa mexer em alguns pressupostos básicos da organização.  É preciso ter realmente a organização comprometida com o tema.  Isso estou dizendo desde a alta direção até o conjunto de professores, os alunos.  E a gente também não pode transformar isso naquelas bandeiras “quem está conosco ou quem não está conosco”.  Precisa fazer sentido para as pessoas, para a formação delas e para a inserção delas no mercado profissional.  Aí realmente se mexe nas práticas.  É um processo.

Nesta edição, estamos abordando a educação para a sustentabilidade.  E alguns dos pressupostos dessa educação, apontados por especialistas, são a diversidade e a inclusão.  Só que no Brasil justamente as melhores escolas são espaços muito elitizados, geralmente homogêneos, pouco porosos à realidade que os cerca, e pouco inclusivos, apesar das políticas do governo como o ProUni e o sistema de cotas.  A questão da diversidade para a senhora é um tema importante? É, sim.  E eu incluiria a diversidade socioeconômica, a diversidade regional e a diversidade de formações.  Isso traz alguma coisa muito rica para uma escola.  Ainda temos uma concentração dos nossos alunos na cidade e no estado de São Paulo e um percentual baixo de alunos estrangeiros.  Se a gente aumentar essa diversidade de origem, já muda alguma coisa.  Óbvio, gostaríamos de ter uma diversidade socioeconômica muito maior, e temos até um sistema de bolsas para atrair esses alunos, mas ainda é reduzido em relação ao que se poderia ter pela frente.

E como a escola poderia intervir nessa realidade, que ainda é muito homogênea?  Em uma escola como a nossa, eu acho que é mexer um pouco na forma como a gente faz o vestibular, para ele ter essa maior possibilidade de abrangência, no oferecimento de maior número de bolsas de estudos, atrair mais alunos estrangeiros e também poder mandar mais alunos nossos para o exterior.

Sem essa diversidade, a escola, em vez de transformar, reforça uma desigualdade? É bem mais complicado que isso.  Porque não é uma questão da educação superior e das escolas de elite, é uma questão da educação básica.  Há problemas de educação básica no País que têm de ser resolvidos.  E ela começou a ser prioritária quando a sociedade parou de demandar apenas escola e sala de aula, que é o que qualquer político gosta de inaugurar, e começou a demandar qualidade.  Essa demanda por qualidade foi consequência de todo um desenvolvimento econômico mais sustentável do País, principalmente a partir da década de 90, de estabilização do Real, de maior abertura, de maior competitividade das nossas empresas, que enfrentaram a necessidade de ter um tipo de trabalhador muito mais adaptado.  E aí toda a população começou a demandar por qualidade, e não só quantidade.  Hoje há um sistema educacional em que teoricamente todo mundo pode ser incluído, todo mundo poderia ser alfabetizado e cursar até a 8ª série.  A questão é: qual é a qualidade desse Ensino Básico?  Desse Ensino Secundário?  E aí, em consequência, o que acontece com o Ensino Superior?  Está refletindo um modelo de país.  O que se demanda hoje, em qualquer camada social, não é simplesmente uma sala de aula, é a qualidade do ensino, e aí você tem outro tipo de perspectiva.  Isso tudo é porque o País passou por mudanças muito grandes e aí você tem todo mundo muito mais consciente do que é essa necessidade.

Voltando à questão da diversidade, aproveito para perguntar sobre o fato de a senhora ser uma mulher em um cargo normalmente ocupado por homens.  A senhora consegue manter uma visão feminina no seu trabalho ou acaba tendo que se masculinizar? Claro que não.  Porque, se você assume um cargo de gestão, o olhar não tem de ser justamente um que traga novas perspectivas?  Fui gestora na FEA (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP) e tive toda uma experiência de gestão em ambientes masculinos, em que você traz e desenvolve competências que são comuns ao homem e à mulher.  Por exemplo, ter uma visão estratégica da organização é uma competência fundamental que independe do sexo.  Mas acho que existem algumas competências que, de um modo geral, são mais femininas.  A mulher consegue mobilizar mais, chamar mais as pessoas, tem formas de lidar com determinadas situações que são fruto de uma vivência feminina, de família, de criar filhos, de pensar o futuro.  São características que ajudam a trabalhar em qualquer organização, em cargos de gestão ou em outra posição.

Outro pressuposto da educação para a sustentabilidade seria o pensamento complexo, a construção do conhecimento em rede, a cooperação.  Só que a maioria das instituições de ensino estimula muito a competição, o uso da informação para se destacar no mercado de trabalho, e ainda funciona de uma forma hierarquizada e com métodos de ensino convencionais.  Se as instituições de ensino não mudarem, como a sociedade pode mudar para melhor? É uma questão de interação, não é um caminho de uma mão só.  É um caminho das instituições de ensino, que vão mudando a forma de criar oportunidades para o estudante integrar conhecimentos, discutir, ter uma visão crítica, analisar uma situação, responder a ela, pensar alternativas, ser criativo, inovador.  Agora, tem o lado também das organizações, de criarem o espaço para que isso seja valorizado.  E novamente nós dependemos muito de cada organização, cada uma vai ter de ver, dado o seu posicionamento estratégico, quais são as competências e o que espera desse profissional.

E esse diálogo entre as instituições e as organizações tem acontecido? Posso responder pela Eaesp.  Sim, com certeza.  A gente tem uma interação muito grande com as organizações, elas estão presentes aqui não apenas participando como nossas parceiras, mas também nos projetos diversos.  E ao mesmo tempo, no momento de colocação dos nossos alunos em estágios, no mercado de trabalho, essa interação também é muito intensa.

A gente pode dizer que no Brasiloambiente acadêmico é mais aberto ou mais resistente às inovações? Comparado com o quê?

Com a geração passada, por exemplo. Muito difícil fazer qualquer generalização.  Talvez, no passado, as outras gerações tivessem uma formação mais autoritária, mais fechada, sim, dependendo do grupo social.

Qual a sua expectativa em relação à FIS, que tem uma proposta muito inovadora? Pressupondo que você tenha a formação básica em uma série de áreas, em uma série de disciplinas, você terá essa disciplina de uma forma transversal e integradora.  Vai ser uma disciplina já para alunos do 5º ao 8º semestre, que tiveram determinadas formações básicas, que passaram por outras disciplinas integradoras, quer dizer, ela faz parte de toda uma sequência de momentos na vida do nosso aluno.

Mas o que se espera? A FIS tem sido trabalhada para que nós tenhamos indicadores de uma coisa chamada de “asseguramento de aprendizagem”, ou assurance of learning.  Quer dizer, quais são os nossos objetivos, como é que esses objetivos vão sendo desdobrados, quais são os indicadores e como é que a gente avalia que aquilo tudo foi alcançado?  E isso tem de estar integrado em todo o curriculum do curso de graduação e com todos os objetivos estratégicos da escola.  Então, o assurance of learning é um ponto bastante importante no curso de graduação, nos cursos de pós-graduação e nos cursos mais de educação executiva.

Ensinar valores, formar cidadãos é tarefa normalmente associada ao Ensino Fundamental e Médio.  É possível que a universidade participe dessa missão estruturante?  É desejável? Sim, porque eu acho que você tem valores que são formados na sua infância e a família é o elemento socializador primeiro de formação de valores.  As escolas, que vêm depois, são responsáveis por uma socialização secundária, e a universidade já em uma etapa posterior, quase na transição para o mundo do trabalho.  Mas acho que novos valores sempre são incorporados, trabalhados, transformados.  E essa exposição a uma situação diferente, a pessoas diferentes, a propostas diferentes, no momento em que o jovem é muito sensível, marca.  E o curso de graduação é um momento crucial para a gente trabalhar isso também com o jovem.  Então, sim, acho que a universidade tem esse papel e tem essa responsabilidade.  E a gente aqui na escola trabalha muito nessa perspectiva.

E esse jovem de hoje é de uma geração nova, chamada Geração Y, com outros perfis.  Isso pressupõe um novo método de ensino? Eu brinco que eles são muito mais olho na tela do que olho no olho do professor (mais sobre a Geração Y à pág.  46).  Quer dizer, são mobilizados por uma série de tecnologias e isso traz facilidades e dificuldades.  Eles têm um acesso à informação, um acesso ao conhecimento, uma capacidade de monitorar as diferentes fontes de informação simultaneamente, de integrar tudo isso e fazer as sínteses.  Ao mesmo tempo, existe um processo de fazer uma leitura, uma análise crítica e expor o seu pensamento, que muitas vezes são competências que precisam ser desenvolvidas dentro de uma escola.

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Revista Página 22 - Centro de Estudos em Sustentabilidade da EAESP - FGV
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