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Da redação

09.11.2012

Tecnologia a serviço da transformação social

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Em entrevista, Jorge Streit, presidente da Fundação Banco do Brasil, fala sobre o conceito de tecnologia social e como ele se contrapõe à lógica da inovação empresarial

Colaboração de  Adriana Delorenzo

Foto de Taís Helena via Flickr

Foto de Taís Helena via Flickr

Estão abertas as inscrições para o 3º Concurso Aprender e Ensinar – Tecnologias Sociais. Trata-se de uma inciativa da revista Fórum em parceria com a Fundação Banco do Brasil. O objetivo é reconhecer o trabalho de professores que utilizam a tecnologia social em sala de aula e que levam esse conceito ao ambiente escolar.

A Fundação Banco do Brasil (FBB) há cerca de uma década vem atuando na disseminação das tecnologias sociais entre a sociedade brasileira. São soluções simples e de baixo custo que trazem benefícios sociais às comunidades, com melhor qualidade de vida e geração de trabalho e renda.

Na escola, são muitos os exemplos de práticas que seguem os princípios da tecnologia social, como mostraram os professores que participaram das edições anteriores do Concurso Aprender e Ensinar (2008 e 2010). Eles vão desde oficinas para o resgate da cultura local na Ilha de Marajó (PA) até a criação de uma moeda verde para incentivar a reciclagem no Rio de Janeiro (RJ).

A seguir, em entrevista à Fórum, o presidente da FBB, Jorge Streit, fala sobre a importância dessas iniciativas e como elas vêm sendo incorporadas às políticas públicas.

Qual é o conceito de tecnologia social?

O conceito que a Fundação trabalha não difere muito do que várias instituições aqui no Brasil adotam. São métodos e técnicas reaplicáveis, desenvolvendo a interação com a comunidade e o incentivo à transformação social. Esta questão da transformação social é que traz um diferencial, porque muitas instituições que trabalham com o tema não colocam a tecnologia social a serviço de alguma coisa.

O que diferencia a Fundação é essa ênfase, embora no conceito, aparentemente, não tenha muita diferença. Fazemos questão de enfatizar essa última parte: a efetiva transformação social. Até porque o debate da tecnologia coloca a questão sobre a serviço de quem está a tecnologia. A Fundação, até pela natureza da instituição de trabalhar a favor das populações mais excluídas, adota muito fortemente esse viés da transformação social. Hoje, a tecnologia é muito apropriada, com uma espécie de predomínio empresarial sobre a tecnologia, trazendo esse debate da inovação. Mas a inovação a serviço das empresas, a serviço do lucro.

Na tecnologia social, a grande diferença é estar a serviço da transformação social e apropriada pelas comunidades, tem que ser desenvolvida em interação com as comunidades, isso é muito forte para nós.

E qual a importância de se levar o conceito para a educação?

A Fundação apresentou um documento com pontos que são fundamentais para a plataforma de tecnologias sociais no Brasil. Inclusive nós o levamos recentemente à Rio+20 e também ao Fórum Social Temático deste ano, em Porto Alegre. Um dos pontos é como esse assunto entra nas escolas e começa a permear os currículos escolares, as discussões em sala de aula, e como fazer com que a juventude e as crianças comecem a tratar o tema da tecnologia de uma forma diferente. O Concurso Aprender e Ensinar reconhece o esforço de professores que colocam a tecnologia social no seu plano de aula. É um grande mobilizador para que o tema penetre de fato nesse ambiente.

Antes, estávamos um pouco mais restritos ao ensino fundamental, agora estamos fazendo um grande esforço para que os professores dos Institutos Federais se envolvam mais fortemente. Nas escolas onde a ênfase é o ensino técnico, o debate da tecnologia social é importante, pois há um potencial de disseminação muito maior.

Vamos trabalhar com populações jovens, com pessoas que vão poder ao longo da vida ter uma outra visão a respeito da tecnologia, da importância da tecnologia para o desenvolvimento do País e mais especificamente de uma tecnologia que não seja proprietária, que seja de domínio público, das comunidades, de populações pobres, uma tecnologia a serviço de quem realmente precisa.

Na Rio+20, as tecnologias sociais também foram apontadas como as mais apropriadas para o desenvolvimento sustentável. Por que?

Toda tecnologia social leva em conta economia de recursos naturais e tem o apelo de resolver problemas sem essa necessidade de estar o tempo todo levando as pessoas ao consumo irresponsável, como acontece com a tecnologia convencional.

A tecnologia social sempre olha para técnicas e métodos mais sustentáveis, para aprendizados de populações que até hoje detêm determinados domínios de conhecimento, por exemplo, como cultivar determinado produto sem uso de agrotóxico, como produzir com maior economia de água, como aproveitar determinado resíduo para fazer uma outra técnica ou para resolver um outro tipo de problema. A tecnologia social tem essa premissa e por isso que nós dizemos que é a tecnologia que responde a essa questão da sustentabilidade, por ela adotar técnicas ecológicas e por jamais ter como premissa o consumo exacerbado.

Essas duas têm mais escala. Já estamos com mais de 10 mil PAIS pelo Brasil afora, e agora estamos instalando mais 60 mil cisternas. Mas estamos trabalhando outras, por exemplo, o Balde Cheio, que é uma tecnologia social utilizada na produção de leite na área rural, há também a fossa séptica biodigestora, que é uma boa solução para a questão sanitária, as Barraginhas que também têm tido um papel importante na diminuição da erosão.

Na área urbana, estamos, principalmente, trabalhando no setor de reciclagem, inclusive com os resíduos da construção civil. Temos até um centro de referência em resíduos da construção civil, que funciona em Osasco (SP). E agora estamos difundindo em várias regiões metropolitanas no Brasil. Também trabalhamos com inclusão digital, através de estações de metarreciclagem, onde utilizamos computadores que são descartados pelas empresas, pelas instituições, pelos órgãos públicos, recuperamos e damos uma destinação social para estes equipamentos. Embora continuemos com mais ênfase em tecnologias sociais na área rural, também estamos com algumas atuações importantes na área urbana.

As cisternas e o Produção Agroecológica Integrada Sustentável (PAIS ) estão entre as tecnologias sociais mais disseminadas pela Fundação, poderia dar outros exemplos?

Essas duas têm mais escala. Já estamos com mais de 10 mil PAIS pelo Brasil afora, e agora estamos instalando mais 60 mil cisternas. Mas estamos trabalhando outras, por exemplo, o Balde Cheio, que é uma tecnologia social utilizada na produção de leite na área rural, há também a fossa séptica biodigestora, que é uma boa solução para a questão sanitária, as Barraginhas que também têm tido um papel importante na diminuição da erosão.

Na área urbana, estamos, principalmente, trabalhando no setor de reciclagem, inclusive com os resíduos da construção civil. Temos até um centro de referência em resíduos da construção civil, que funciona em Osasco (SP). E agora estamos difundindo em várias regiões metropolitanas no Brasil. Também trabalhamos com inclusão digital, através de estações de metarreciclagem, onde utilizamos computadores que são descartados pelas empresas, pelas instituições, pelos órgãos públicos, recuperamos e damos uma destinação social para estes equipamentos. Embora continuemos com mais ênfase em tecnologias sociais na área rural, também estamos com algumas atuações importantes na área urbana.

Jorge Streit, presidente da Fundação Banco do Brasil - Foto de Divulgação

Jorge Streit, presidente da Fundação Banco do Brasil - Foto de Divulgação

As tecnologias sociais estão sendo incorporadas nas políticas públicas pelos governos?

Está acontecendo isso, gradualmente. Por exemplo, o governo do estado de Goiás está reaplicando a fossa séptica biodigestora [o programa pretende implantar 100 mil unidades em propriedades rurais] no entorno dos reservatórios de água. É uma tentativa de diminuir a contaminação da água de abastecimento da cidade. Caratinga, em Minas Gerais, adotou também a fossa séptica biodigestora inclusive desenvolveu uma técnica até mais econômica para fazê-la.

Vários governos estaduais estão investindo em assistência técnica para o PAIS, como é o caso do Rio Grande do Sul, que está adotando essa tecnologia social como uma estratégia de combater a miséria na área rural. O governo do Ceará também tem incentivos para quem adotar o PAIS. Há uma série de movimentos no âmbito de governos municipais, estaduais e também do governo federal que começam a colocar as tecnologias sociais dentro das suas prioridades. Inclusive, criamos no Prêmio FBB uma categoria para reconhecer o esforço de gestores que tem procurado colocar a tecnologia social nas políticas públicas.

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Revista Página 22 - Centro de Estudos em Sustentabilidade da EAESP - FGV
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