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	<title>Página 22 &#187; 31</title>
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		<title>As voltas que o mundo dá</title>
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		<pubDate>Tue, 30 Jun 2009 19:34:15 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Plástico, múltiplo e dinâmico, o sistema capitalista comportaria uma nova lógica de consumo e produção capaz de promover prosperidade nos limites que o ambiente impõe. Essa mudança, entretanto, precisa antes ser objeto de um desejo coletivo
 
Por Amália Safatle
Das expressões [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft size-medium wp-image-2594" title="Capitalismo_250x350" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2009/06/Capitalismo_250x350-141x198.jpg" alt="Capitalismo_250x350" width="141" height="198" /><em>Plástico, múltiplo e dinâmico, o sistema capitalista comportaria uma nova lógica de consumo e produção capaz de promover prosperidade nos limites que o ambiente impõe. Essa mudança, entretanto, precisa antes ser objeto de um desejo coletivo</em><br />
<strong> </strong></p>
<p><strong>Por Amália Safatle</strong></p>
<p>Das expressões que mais ouvia dos analistas financeiros, quando comecei a carreira jornalística cobrindo o mercado de capitais, estava a tal &#8220;taxa de crescimento em perpetuidade&#8221;. Combinada com a taxa de desconto, a Selic, constitui a fórmula básica para a chamada valuation, ou avaliação do valor das ações das companhias.  A meus botões perguntava que raio era essa tal de perpetuidade, e achava engraçado um conceito tão vago, de uma dimensão que soava até mesmo espiritual, guiar cálculos tão presumidamente objetivos.</p>
<p>Ainda que fosse uma expressão para não ser tomada ao pé da letra, pensava &#8220;como assim, perpetuidade?&#8221;, se a empresa em questão podia fechar as portas dali a poucos anos, ou o crescimento do lucro esbarrar em problemas como falta de matéria-prima, limitada pelos estoques finitos de recursos naturais.  Sustentabilidade para mim era uma noção meramente intuitiva e eu ainda não ousava formular esse tipo de questão nas entrevistas.</p>
<p>Hoje, mais que nunca, tal questionamento é proposto de forma clara e contundente, em especial pelos economistas ecológicos. A discussão torna-se ainda mais interessante, para não dizer fundamental, quando a eclosão de uma crise financeira e econômica coincide com a maior percepção de que algo vai mal, muito mal, no âmbito da natureza.  Quando o prêmio Nobel de Economia Paul Krugman, para citar exemplo de um economista influente e formador de opinião, começa a dizer de forma mais enfática que não adianta muito salvar a economia se não houver condições ambientais que a suportem, começa a se abrir a trilha que leva à revisão da forma como o sistema econômico vigente opera.</p>
<p>&#8220;Toda sociedade se agarra a mito para viver.  O nosso é o mito do crescimento econômico.&#8221;  Assim Tim Jackson, líder do grupo econômico da Comissão de Desenvolvimento Sustentável, inicia o prefácio do relatório Prosperidade sem Crescimento?  &#8211; A transição para uma economia sustentável. Esse mito, entretanto, nos traiu, diz Jackson.  Embora a economia global hoje seja cinco vezes maior que há cinco décadas- período em que o crescimento se tornou o principalobjeto de políticas ao redor do mundo -, deixou na mão tanto os 2 bilhões de pessoas que ainda vivem com menos de US$ 2 por dia como o frágil ecossistema do qual as pessoas dependem para sobreviver.  E ainda falhou em prover estabilidade e segurança econômica.</p>
<p>Se o crescimento for uma condição intrínseca do capitalismo, a discussão sobre a sustentabilidade seria capaz de colocar esse sistema econômico novamente sob análise, mais de um século depois da crítica marxista.</p>
<p>Alguns especialistas ouvidos nesta reportagem acreditam que não com a mesma profundidade do marxismo, desferido sobre o eixo fundamental da lógica capitalista, e que abriu caminho para a proposta política socialista. Mas, sim, na capacidade de remodelar o capitalismo, provavelmente alçando-o a um estágio evolutivo no qual se reduzem imperfeições como injustiça social, exploração do homem pelo homem e uso predatório de recursos naturais.</p>
<p>O risco de inocular a sustentabilidade no capitalismo é que, em vez de usar o sistema para &#8220;rodar&#8221; uma economia mais sustentável, este se aproprie da ideia, reempacote-a de acordo com os interesses dominantes e a use não para transformar, mas para manter o business as usual, sem mudanças fundamentais em paradigmas de consumo e produção. A reportagem O todo poderoso, por exemplo, expõe a dificuldade de desfazer o nó do consumo diante do desafio da sustentabilidade.</p>
<p>Maria Rita Loureiro Durand, chefe do departamento de Gestão Pública da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (Eaesp-FGV), não acredita que a sustentabilidade vá romper a lógica do capitalismo, que põe o homem a serviço da produção, em vez de a produção a serviço do homem &#8211; o que a torna essencialmente perversa -, mas é capaz de &#8220;suavizar a selvageria&#8221;.  Segundo ela, a única crítica de peso feita ao capitalismo após o marxismo surgiu pela via ambiental, tendo como alvo o consumismo exacerbado e o padrão produtivo predatório.  &#8220;Mas é uma crítica que atua nas bordas, e não no eixo do sistema, e o risco de ser apropriada é muito alto&#8221;, diz a professora.</p>
<p>É de questionar também se as mazelas do capitalismo devem-se ao sistema em si ou à forma como é aplicado pelo ser humano, com todas as suas fraquezas morais.  Em artigo publicado em março último no The New York Review of Books, Amartya Sen, prêmio Nobel de Economia em 1998, defende que a atual crise econômica não pede um &#8220;novo capitalismo&#8221; e, sim, o resgate e a nova compreensão de antigas ideias como as de Adam Smith e Arthur Cecil Pigou, economistas dos séculos XVIII e XX.</p>
<p>Em Teoria dos Sentimentos Morais, obra publicada em 1759, Smith afirma que a prudência é a mais útil virtude individual, enquanto humanidade, justiça, generosidade e espírito público são as maiores qualidades no trato com os outros.  Ele via os mercados e o capital funcionando bem dentro de sua própria esfera, mas, antes disso, seriam necessários ao sistema o apoio de outras instituições, como serviços públicos e escolas, o cultivo de valores além da busca do lucro, e mecanismos de regulação financeira e de assistência aos pobres que os prevenissem contra instabilidade, iniquidade e injustiças.  E quanto a Pigou, segundo Sen, foi pioneiro ao dimensionar a desigualdade como principal indicador para a política econômica.</p>
<p>O componente moral, que leva o indivíduo a considerar e respeitar o outro- seja a pessoa ao lado ou tudo o que compõe o ambiente à volta e até mesmo as gerações ainda por nascer -, ou a falta dele, moldaria fundamentalmente o capitalismo.</p>
<p>&#8220;O capitalismo fora de controle é como o indivíduo que não respeita o outro.  O que vale para o ser humano vale para as corporações e para o sistema&#8221;, diz Marcos Fernandes Gonçalves, coordenador do projeto pedagógico da Escola de Economia de São Paulo da FGV.</p>
<p>Aerton Paiva, sócio-diretor da Apel Pesquisa e Desenvolvimento de Projetos, empresa que presta consultoria em sustentabilidade para o universo corporativo, cita o antropólogo Maurice Godelier, estudioso das sociedades pré-capitalistas, para dizer que &#8220;o lucro é do ser humano&#8221;, pois mesmo essas sociedades buscavam um ganho valendo-se de suas trocas.  &#8220;Talvez dois questionamentos a fazer refiram-se ao tamanho do lucro e às formas de obtê-lo.</p>
<p>Desde Platão, por exemplo, discute-se a ganância&#8221;, afirma Paiva, que ainda cita frase do desenhista e humorista Millôr Fernandes: &#8220;Se 1 equivale a ter uma vida digna, ninguém deveria ter mais do que 10&#8243;.</p>
<p>Rapte-me, camaleoa<br />
Nesse debate aberto pela reporta- gem, os especialistas ouvidos partem da premissa de que não se pode falar em um só capitalismo, mas em vários, e que talvez esteja nessa plasticidade camaleônica a chave para redesenhar um capitalismo adaptado às novas demandas que a sociedade aspira e às condições que o ambiente impõe.  &#8220;É uma expressão que precisa ser definida no plural.</p>
<p>Os estudos contemporâneos sobre &#8216;os capitalismos&#8217; são muito expressivos&#8221;, aponta Ricardo Abramovay, professor titular do Departamento de Economia da FEA-USP e coordenador do Núcleo de Economia Socioambiental.</p>
<p>&#8220;Para o desespero de marxistas ou neomarxistas, não percebo uma crise sistêmica no capitalismo em si.  De todos os modos de produção experimentados, é o mais flexível e o que mostra maior facilidade de adaptação a mudanças&#8221;, diz Carlos Eduardo Frickmann Young, professor associado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).</p>
<p>Segundo ele, se o capitalismo já foicapaz de coexistir com a escravidão, convive com o Welfare State (o Estado do Bem-Estar Social nos países europeus), com os regimes democráticos e com os autoritários; e, se na China existe o capitalismo de Estado, por que esse tipo de sistema não seria capaz de se adaptar também à sustentabilidade, entendendo-a como a preocupação com as questões de longo prazo e a busca de maior equidade social?  &#8220;Se eu não acreditasse nisso, estaria pregando a Revolução&#8221;, afirma.</p>
<p>Um certo capitalismo, portanto, seria compatível com uma economia que opera dentro dos limites biofísicos, regulando a quantidade de recursos que são processados na economia e de resíduos que retornam para o ambiente com a capacidade regenerativa e assimilativa do ecossistema e criando &#8220;espaço&#8221; ecológico para que as nações pobres possam se desenvolver.</p>
<p>Mais que compatível, esse novo sistema econômico será inevitável, sustenta Philip Lawn, em entrevista nesta edição.</p>
<p>Especialistas como Lawn reforçam o pequeno exército disposto a repensar o funcionamento da economia.  Segundo José Eli da Veiga, professor titular do Departamento de Economia da USP, há importantes avanços ao menos no plano das ideias.  Exemplos disso estão na emergente discussão de novos indicadores de desenvolvimento, suplantando o PIB, na realização de um grande encontro científico no ano passado sobre a ideia de degrowth (decrescimento), e o próprio relatório de Jackson, enumera Veiga.</p>
<p>Trata-se de uma bela mudança no modelo mental, considerando-se que- afora o fato de bilhões de pessoas aspirarem o nível de afluência atingido pelas nações da OCDE &#8211; qualquer escola macroeconômica, seja ortodoxa, seja heterodoxa, pressupõe que é preciso fazer de tudo para aumentar o consumo.</p>
<p>&#8220;Tanto é que essa crise não mostra outra coisa: começa a crise, começa o apelo para que as pessoas consumam. A gente acaba percebendo que, quando o americano decide comprar menos, cria um problema global.  E o relatório indica que, se permanecer essa lógica, não há sustentabilidade&#8221;, diz Veiga.</p>
<p>Jackson entende que a recuperação econômica é vital, e que proteger os empregos e criar outros é absolutamente essencial, em especial nos países em desenvolvimento. Independente disso, urge revisar o sentido de prosperidade.</p>
<p>Para isso, Herman Daly, um dos expoentes da Economia Ecológica, usa a figura da biblioteca abarrotada.  Como uma biblioteca, na qual não cabem mais livros &#8211; tal qualo planeta com os seus limites -, pode tornar-se melhor e mais rica?  Não será pela aquisição de mais obras.  Mas pode ser pela substituição de um livro menos interessante por outro de melhor qualidade.</p>
<p>Da mesma forma, seria possível ter uma qualidade de vida melhor sem consumir mais bens.  Para países onde beber água e comer proteína ainda são questões fundamentais a resolver, tal discussão configuraria um despropósito. Mas seria aplicável, por exemplo, a nações já desenvolvidas.</p>
<p>Não que a fórmula esteja dada, longe disso.  O estudo de Jackson levanta uma série de dúvidas.  Um know -how que está por vir, pois jamais foi experimentado na história econômica.  Por exemplo, que tipos de atividade comporiam esse novo modelo econômico, digamos assim, me- nos materializado?  Talvez vender serviços de mobilidade, em vez de os carros em si, seja um exemplo.  Reciclar, reutilizar, usar leasing (mais na reportagem &#8220;Todos fora do quadrado&#8221;, à edição 26).  Mas aí surge outra pergunta: é possível &#8220;fazer&#8221; dinheiro o suficiente para manter a economia ativa por meio dessas atividades?</p>
<p>Outra questão que ele aponta é quanto a denominada economia verde pode ser efetiva em termos ecológicos. É o que ele chama de mito do descasamento. Pelo descasamento, o contínuo crescimento econômico reduziria a quantidade de recursos injetados na economia, em função do ganho de eficiência promovido por avanços e inovações tecnológicas, com produtos que gastam menos energia e empregam recursos renováveis ou menos matéria-prima.  De fato, a quantidade de energia primária necessária para cada unidade produzida tem caído nos últimos 50 anos. Hoje, a intensidade energética global é 33% menor que em 1970.</p>
<p>O problema é que se trata de um descasamento relativo, não necessariamente absoluto, pois a poupança obtida com a redução é empregada no aumento de consumo de outros produtos ou atividades &#8211; um efeito apelidado de ricochete (rebound effect).</p>
<p>E um terceiro ponto em aberto é nada menos que a necessidade de criar um novo modelo macroeconômico.  Isso porque ainda não há um modelo para saber como se comportam os &#8220;agregados&#8221; macroeconômicos &#8211; produção, consumo, emprego, gastos públicos, comércio, entre outros &#8211; quando não há acumulação de capital.  E nem é capaz de incluir variáveis como emissões de carbono, uso de recursos naturais e manutenção da integridade ecológica.</p>
<p>Como diz Cadu Young, da UFRJ, vale recorrer ao economista Celso Furtado, &#8220;no belíssimo início de seu livro A Fantasia Organizada: precisamos organizar uma nova fantasia.  Na quarta-feira, ela já se acabou.  Mas aí a gente inicia o projeto do próximo Carnaval&#8221;.  Isso para dizer que o futuro é, em parte, o que a sociedade quer ele seja, mas isso depende de se ter um sonho.  Com o que a sociedade sonha hoje?</p>
<p>Evolução e harmonia<br />
O sonho implique ou não a prosperidade, a realidade é de um mundo no qual, embora haja crescente informação e transparência, as incertezas são também crescentes.  &#8220;Talvez nunca antes na história do capitalismo tenha havido tanto conhecimento sobre riscos de mercado, nem tanta transparência por parte das empresas&#8221;, afirma Abramovay.  Ainda assim, deu no que deu.  Prova de que a economia é muito mais dinâmica e imprevisível do que se pode supor e controlar, resultado de uma intricada rede de construções sociais e inovações &#8211; o que abre argumentos tanto para quem defende maior regulação do Estado como para quem acredita que a regulação não resolve.</p>
<p>É como se a sociedade moderna e o sistema financeiro tivessem atingido o grau de vapor d&#8217;água, no qual as moléculas se agitam de forma intensa e volátil, em comparação com estágios como o do gelo, com movimento controlável e tangível, e como o da água em estado líquido, expõe Ricardo Guimarães, presidente da empresa de branding Thymus, durante recente seminário internacional da Fundação Nacional da Qualidade.</p>
<p>Em outra figura de linguagem, Guimarães diz que diante de crises financeiras e ambientais somos surpreendidos e ficamos desapontados, como crianças que, entusiasmadas com o brinquedo novo, não leem seu manual, usam mal seus recursos, danificam peças e comprometem o funcionamento da brincadeira.</p>
<p>Assim como o brinquedo quebrado, as crises são oportunidades de dar uma olhada no manual para saber como ele funciona e onde erramos.  &#8220;A tese é que nosso erro foi não perceber que o alto grau de interdependência e complexidade das relações entre os membros do sistema mudou a sua natureza e portanto as leis que regem o seu bom funcionamento&#8221;, diz.</p>
<p>Segundo ele, nenhum gestor estaria preparado para lidar com o aumento da complexidade, da velocidade e com a noção de interdependência. &#8220;Assim&#8221;, afirma Marcos Gonçalves, da FGV, &#8220;as empresas podem e devem ser mais atentas, a fim de transformar os riscos sistêmicos em oportunidade de criação de valor&#8221;.  Tudo isso em um ambiente de maior controle, seja da lei, com a evolução dos arcabouços legais, seja da sociedade, vigilante ao jeito de como as empresas operam e fazem seus produtos.</p>
<p>A shareholder view, a visão do acionista simplesmente em busca de sua remuneração, dá espaço à stakeholder view, a visão dos diversificados públicos com os quais as empresas interagem.  Isso permite uma combinação de relacionamentos antes inimaginável, diz Abramovay.  Tal qual as moléculas do vapor d&#8217;água.  Como exemplifica o professor, vê-se uma organização de tradição combativa, como a Rainforest Alliance, passando a certificar grandes produtores do agronegócio.  Companhias elaborando novos padrões de medida de riqueza e reportando o balanço de água, de carbono, de energia, de materiais.  O crescimento da noção de cadeia produtiva.</p>
<p>Os movimentos sociais voltando-se mais para os mercados que para o Estado, ingressando em searas que antes não lhe pertenciam e inserindo a política no seu funcionamento. &#8220;Agora, como tudo isso se dá no campo social, é conflito, é pau.  São as mesas-redondas, por exemplo&#8221;, afirma Abramovay.  &#8220;O processo não é feito por uma entidade demiúrgica, e, sim, com base nas disputas.&#8221;  Em vez de abolir os mercados, esse movimento os transforma e reconstrói.  A qualidade dessa evolução vai depender da qualidade das pressões que a sociedade fizer (reportagem sobre ativismo nesta edição).</p>
<p>&#8220;São rupturas de paradigma que se dão de forma ainda localizada e vão pavimentar o caminho do futuro&#8221;, diz Decio Zylbersztajn, presidente do Conselho de Orientação do Centro de Conhecimento em Agronegócios (Pensa).  &#8220;Mas não há dúvidas de que o velho paradigma ainda está crescendo, como se pode ver pela expansão da China.&#8221;</p>
<p>Para mudar a lógica, diz ele, um primeiro incentivo seria dado pelo mercado, disposto a remunerar o serviço ambiental. O segundo seria institucional, que pode ser formal, via regras, ou informal, pela mudança de costumes sociais.  O terceiro, mais demorado, ocorreria no nível individual, que pressupõe educação e formação de valores.</p>
<p>Aerton Paiva, da Apel, considera que, nesse campo social, está faltando um jogador importante: o cidadão.  Aquele que pode ser consumidor, funcionário ou acionista, não importa o boné que use, mas antes é o sujeito capaz de se indignar e protestar.  &#8220;Na Grécia, o cidadão estava na praça, manifestando suas opiniões.  Não era a democracia perfeita, pois, enquanto isso, havia os escravos para fazer o trabalho pesado.  Ocorre que hoje falta gente na rua, pois todos são escravos correndo atrás de &#8216;ganhar o seu&#8217;.&#8221;</p>
<p>Redes sociais pela internet e o cyberativismo fariam as vezes dessa participação cidadã &#8211; ou parte dela.  Basta lembrar a importância da web na eleição de Obama.  Mas Paiva ressalta o efeito mais poderoso de uma manifestação real.  &#8220;Quando o Greenpeace despejou na porta da Philips milhares de lâmpadas fluorescentes (poupam energia, mas contêm mercúrio), para as quais a empresa não havia resolvido o problema do descarte, o risco de perda de reputação era tão grande, que a empresa tomou medidas em 72 horas&#8221;, diz.</p>
<p>Enquanto a sustentabilidade provoca esse tipo de luta em busca de uma &#8220;paz verde&#8221;, na tradução literal, estudiosos como José Eli da Veiga levantam com preocupação o risco de um resultado muito menos feliz para a equação econômica global.  Como se sabe, quem cobre o déficit americano é a economia chinesa, o que leva a crer que esteja havendo uma mudança do eixo da acumulação para o Oriente &#8211; China, Japão, Coreia do Sul.</p>
<p>&#8220;Então, se houver uma polarização, resta saber até que ponto essa transição será pacífica, pois a História mostra que todas as anteriores não foram.  Na hora H, tem guerra.  Aí, toda essa discussão de sustentabilidade vira sonho de uma noite de verão.  A superação do capitalismo por causa da sustentabilidade seria o cenário mais otimista&#8221;, diz.</p>
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		<title>O todo poderoso</title>
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		<pubDate>Sun, 28 Jun 2009 18:59:29 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[O consumidor firma-se como novo ator social, mas sua capacidade é limitada. O risco de manter o foco na ação individual é perder de vista a urgência de mudanças em larga escala
Recentemente, a rede britânica de supermercados Tesco se embananou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em><img class="alignleft size-medium wp-image-2599" title="Consumo_250x350" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2009/06/Consumo_250x350-300x192.jpg" alt="Consumo_250x350" width="300" height="192" />O consumidor firma-se como novo ator social, mas sua capacidade é limitada. O risco de manter o foco na ação individual é perder de vista a urgência de mudanças em larga escala</em></p>
<p>Recentemente, a rede britânica de supermercados Tesco se embananou na tentativa de enveredar seus clientes pelo caminho do consumo ambientalmente responsável.  Lançou a campanha Lights for Flights: na compra de lâmpadas fluorescentes, mais econômicas em energia se comparadas às tradicionais incandescentes, o cliente levava como prêmio milhas para gastar em passagens aéreas.</p>
<p>Não demorou muito para que a gafe se transformasse em mais um registro clássico da chamada maquiagem verde, expondo a marca ao escrutínio público e ao ridículo.  Pouco depois, claramente mais bem assessorada, a Tesco procurou se redimir.  Lançou uma linha de cem produtos dotados de transparência climática.  Um selo informa ao consumidor quanto carbono foi necessário emitir na produção de cada mercadoria, uma medida bastante afinada com a demanda dos movimentos pelo consumo consciente por mais transparência e informação.</p>
<p>Mas o jornalista Ed Gillespie, do jornal The Guardian, não se deu por satisfeito.  Diante da informação de que cada folha de papel higiênico demanda 1,1 grama de carbono para ser fabricada, Gillespie decidiu provocar os seus leitores: &#8220;Você escolheria usar menos papel para reduzir a sua pegada de carbono, mesmo sabendo o quão infinitesimal seria essa redução?&#8221; Para ele, o apelo por escolhas individuais responsáveis, centradas nas pequenas atitudes, transformou-se em um estado de negação diante de uma crise ambiental global que demanda grandes guinadas.  E rápido.  &#8220;Eu ficaria muito mais impressionado se a Tesco se comprometesse a banir de suas prateleiras qualquer produto que não atingisse os mais altos padrões de integridade ambiental&#8221;, diz o jornalista.  &#8220;É isso o que &#8216;cada pequena atitude que conta&#8217; deveria significar.&#8221;</p>
<p>Do Reino Unido para o Brasil, o desabafo permanece pertinente e polêmico. Em um tempo em que o indivíduo passou a ser o foco tanto de estratégias para perpetuar o consumo exacerbado quanto daquelas que visam contestá-lo, a confusão é inevitável: afinal, onde termina a responsabilidade de consumidores e começa a de empresas e governos? Comprar ou não comprar é realmente um indutor de mudanças na atitude corporativa?  Um movimento coletivo de fôlego se resume ao somatório de ações individuais?</p>
<p>Há debate, mas não há respostas prontas.  Nenhum dos estudiosos consultados por esta reportagem menospreza este novo ator social, ao contrário. Mas, para quem deseja ser realmente um consumidor responsável, é bom que se tenha consciência também dos limites dessa capacidade e das armadilhas simplificadoras que se possam encontrar pelo caminho.</p>
<p><strong>Nosso herói, o superconsumidor</strong></p>
<p>Com o livro <em>Sustentabilidade Ambiental, Consumo e Cidadania</em>, lançado em 2005, a socióloga Fátima Portilho criou um marco da literatura especializada brasileira ao levantar as possibilidades e os limites da ideia de consumo sustentável.  Ela analisa, por exemplo, a desigualdade de acesso às alternativas.  Algumas são econômicas, como reduzir o uso de água ou de energia.Outras são voltadas para públicos mais sofisticados, como os de produtos certificados e orgânicos.</p>
<p>Outra limitação importante é a velocidade de inserção de novos produtos no mercado e a inovação ambiental que acompanha muitos deles.  Alguns, como os alimentos transgênicos, são objeto de controvérsia, inclusive entre os cientistas, e a escolha entre inúmeros tipos de produtos muitas vezes requer conhecimento altamente especializado.</p>
<p>A era da informação, combinada com a ascensão da proposta de consumo consciente, serviu para derrubar o preceito da teoria econômica neoclássica, segundo a qual o consumidor é sempre racional e busca maximizar as suas escolhas.  Ainda que dispuséssemos de todas as informações necessárias, há um limite bastante estreito para a nossa capacidade cognitiva.</p>
<p>No livro <em>Nudge &#8211; O empurrão para a escolha certa</em>, os economistas comportamentais Richard Thaler e Cass Sunstine foram mais longe e demonstraram que o ser humano típico não gosta de tomar decisões, frequentemente se deixando levar pela lei do mínimo esforço.  Nos EUA, todo empregado, ao ser contratado, preenche um formulário em que escolhe o tipo de plano de pensão.  A primeira opção da lista, que garante uma contribuição regular com aposentadoria modesta, foi sempre a mais escolhida.</p>
<p>Thaler e Sunstine propuseram inverter a ordem das opções em doze estados americanos, colocando em primeiro lugar aquela que garante um aumento de contribuição a cada aumento de salário e, consequentemente, uma aposentadoria mais gorda.  A tendência se inverteu e os americanos passaram para uma escolha sem vantagem imediata, com vistas ao longo prazo. Quando se fala em consumo consciente, é inevitável questionar se não estaríamos depositando excessiva fé em um perfil que a psicologia econômica já demonstrou ser altamente improvável.</p>
<p>A psicanalista Vera Rita Ferreira, especializada nessa área, quer trazer o elemento da arquitetura de escolha, proposta pelos autores de Nudge, para a discussão da sustentabilidade. &#8220;Cada vez mais se observa que só medidas educacionais ou de empoderamento muitas vezes não se mostram suficientes.  É preciso medidas que encorajem o comportamento desejável e desestimulem o comportamento não desejável&#8221;, diz a psicanalista.  Não significa que essa é uma missão apenas para os especialistas, de cima para baixo.  A contribuição coletiva de consumidores comuns, com sua experiência cotidiana, seria útil para formular um modelo de estímulos.  &#8220;Não dá para desistir de investir num amadurecimento do consumidor.  Pelo menos, para tornar a briga um pouquinho menos desigual&#8221;, diz Vera Rita.</p>
<p>Lisa Gunn, coordenadora-executiva do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), faz um contraponto.  Para ela, disponibilizar informações não significa necessariamente que o consumidor terá de processá-las sozinho.  &#8220;Nenhuma empresa vai dizer &#8216;eu tenho trabalho infantil mesmo e você que faça a sua escolha&#8217;.  Só a transparência do processo produtivo já força uma mudança.&#8221;</p>
<p><strong>Forças conjugadas</strong><br />
Em seu livro, fruto de tese de doutorado, Fátima Portilho revela que &#8220;ainda não foi possível comprovar nem infirmar, através de pesquisas empíricas, o papel do consumidor verde como mecanismo de pressão das indústrias para a adoção de medidas de gestão ambiental&#8221;.</p>
<p>Em entrevista a Página22, ela diz que esse <em>gap </em>de pesquisas de campo ainda permanece.  Não se sabe ao certo quem é o verdadeiro fator decisivo: se o consumidor final, com suas escolhas de compra, ou se acionistas, seguradoras, concorrentes, grandes consumidores institucionais e governos.  São agentes que, a despeito de serem movidos por boas ou más intenções, estão expostos a riscos jurídicos e financeiros imediatos quando se trata de meio ambiente.</p>
<p>&#8220;É muito difícil medir isso.  É sempre um conjunto de fatores que faz uma empresa mudar&#8221;, diz Fátima.  Em 2002, um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) procurou compreender essa realidade, ainda que de forma preliminar.  Os economistas Ronaldo Seroa da Motta e Claudio Ferraz concluíram que a variável &#8220;pressão da comunidade&#8221; não é decisiva para os investimentos ambientais de uma empresa brasileira, que se submete mais claramente aos demais atores do mercado e à regulação formal.</p>
<p>Mas os pesquisadores fazem uma ressalva: a pressão social tem um papel complementar na medida em que exerce influência sobre os órgãos reguladores. Também é o que identifica Leonardo Sakamoto, coordenador da ONG Repórter Brasil, uma das mais atuantes pela erradicação do trabalho escravo no País.  Ele diz que os avanços mais visíveis nessa área são fruto de um jogo de cobrança entre empresas e bancos.</p>
<p>&#8220;Mas é fundamental que a empresa tenha medo do boicote do consumidor, ainda que não aconteça.  Até porque as empresas não deixam que se chegue a esse ponto, elas se antecipam.&#8221;</p>
<p>Parece imprescindível ter em mente essa correlação de forças quando se trata de dimensionar o impacto das ações individuais. &#8220;O movimento de certa forma se despolitiza quando se pensa &#8216;estou fazendo a minha coletinha aqui e a minha parte já está feita&#8217;&#8221;, diz Antônio Almeida, professor da Esalq-USP e pesquisador da área de mídia e meio ambiente.</p>
<p>Ele identifica essa proposta de educação ambiental individualizante na grande mídia, &#8220;porque, politicamente, essa é uma proposta sem grandes consequências. Joga a responsabilidade para o indivíduo e não para o governo e as grandes corporações&#8221;, diz.  &#8220;Não acho que seja desprezível (a conduta individual), mas não é o centro da questão.&#8221;</p>
<p><strong>Apropriação</strong><br />
É importante observar que o discurso do poder do consumidor não é mais apenas dos movimentos socioambientais, mas também do mundo corporativo, diz o publicitário Hélio Silva, autor do livro <em>Marketing: Uma visão crítica</em>.  &#8220;Para a empresa interessa muito esse discurso.  A sensação de ser poderoso me agrada, então a empresa embute essa sensação no seu produto: &#8216;Nós estamos fazendo certo, mas tudo depende de você, você é o rei&#8217;.&#8221;</p>
<p>A psicóloga Isleide Fontenelle, professora de pós-graduação da Fundação Getulio Vargas de São Paulo, e autora do livro <em>O Nome da Marca: McDonald&#8217;s, fetichismo e cultura descartável</em>, tem um projeto de pesquisa chamado provisoriamente &#8220;Redenção como Mercadoria&#8221;.</p>
<p>Sua tese é de que o próprio mercado contribui para a geração de culpa, para depois vender a solução. &#8220;O consumidor está esgotado de escolhas, de informação e de responsabilidades. Esse esgotamento tem levado a uma necessidade psíquica de autoridades que lhe digam o que fazer.  E aí entram as grandes marcas que lhe dizem.  Quem é o grande ausente?  É o Estado, que sai de cena deixando o puro mercado.&#8221;</p>
<p>Nada disso seria problemático se as mudanças em curso dessem conta da questão global do consumo.  &#8220;A responsabilidade social empresarial apenas arranha a superfície de um problema que é muito mais profundo&#8221;, diz Isleide.</p>
<p>&#8220;Responsável&#8221;, &#8220;ético&#8221;, &#8220;consciente&#8221; são denominações muito similares de um ideal de conduta, mas o chamado &#8220;consumo verde&#8221; designa algo mais específico e que se mostra como opção mais bem-sucedida até agora: é a escolha por produtos de tecnologia menos poluente que não implica de imediato uma redução do nível de consumo, mas uma mudança no padrão de qualidade.</p>
<p>Embora a incorporação de tecnologias limpas seja um tema vital para a busca da sustentabilidade, a inserção do tema do consumo na agenda ambiental partiu, nos anos 90, de uma proposta muito mais ampla: não apenas substituir objetos de consumo, mas reduzir, readaptar a vida cotidiana a um ritmo menos frenético de novidade, compra e descarte.</p>
<p>Para essa grande questão ainda não há propostas.  Há de se reconhecer a complexidade do cenário: uma sociedade construída sobre a premissa das liberdades individuais é capaz de considerar limites?  No livro <em>A Felicidade Paradoxal</em>, o filósofo francês Gilles Lipovetsky descreve como o marketing de massa foi gradualmente substituído por estratégias de segmentação, ampliando sem parar a gama de escolhas e opções.  Não mais a tônica racional e funcionalista do início do século XX, mas o caminho emocional e sinuoso da construção de identidade e experiências individuais.</p>
<p>&#8220;O supérfluo, a moda, os lazeres, as férias tornaram-se desejos e aspirações legítimos em todos os grupos sociais (&#8230;). Exercer uma dominação sobre o mundo e sobre si aloja-se no coração do hiperconsumidor.  A busca é menos por distinção social que por responder à atemporal pergunta: quem sou eu?&#8221;</p>
<p>Para Fátima Portilho, há ainda o desafio conceitual de apontar o que é essencial e o que é supérfluo: &#8220;Qualquer sociedade usa os objetos disponíveis na sua cultura material para se relacionar. Quem vai dizer se o que eu comprei é consumo ou é consumismo?  É altamente subjetivo e, mais do que isso, é cultural&#8221;.</p>
<p>Quando escreveu <em>Sustentabilidade Ambiental, Consumo e Cidadania</em>, Fátima diz que se sentia imbuída de um espírito de contestação para desmascarar o consumo verde.  De lá pra cá, sua percepção mudou.  O que aprendeu é que esse fenômeno é herdeiro de uma decepção com os movimentos sociais dos anos 60 e 70, que pregavam uma utopia única por uma via única: coletiva e institucional.</p>
<p>Hoje, as possibilidades políticas estariam pulverizadas pela necessidade de fazer algo agora, hoje, na mesa da cozinha, sem esperar pelo mercado ou pelos governos. &#8220;Independentemente do que a gente acha, as pessoas estão usando o consumo como ação política.  É antes de tudo uma autoatribuição de responsabilidade.  Se a gente transferisse o papel de mudar o mundo para esse único ator, seria o mesmo erro do passado que atribuiu essa função aos operários&#8221;, diz a socióloga.  &#8220;Mas o mundo está diferente e aponta para um conjunto de caminhos. É uma mudança da cultura política e uma expansão da ideia de cidadania&#8221;, conclui.</p>
<p><strong>A dança dos discursos</strong> &#8211; <em>A inclusão do consumo como peça-chave da crise ambiental é fruto de um longo embate entre nações ricas e pobres</em></p>
<p>Fase 1 &#8211; Profetas do apocalipse</p>
<p>Os ativistas ecológicos dos anos 60, alinhados ao movimento da contracultura, já denunciavam os exageros da sociedade de consumo como parte da crise ambiental.  Mas o discurso hegemônico permaneceu voltado para o problema populacional, cujos defensores eram chamados de &#8220;neomalthusianos&#8221; ou &#8220;profetas do apocalipse&#8221;. Para alguns autores, as nações ricas evitaram analisar os impactos de seus processos produtivos, ao manter o foco no crescimento da população em países em desenvolvimento.</p>
<p>Fase 2 &#8211; Fábricas e chaminés</p>
<p>A partir dos anos 70, os embates entre países ricos e pobres nos fóruns internacionais começam a dividir as atenções entre a explosão demográfica e a poluição causada por processos industriais e tecnológicos.  O relatório <em>Os Limites do Crescimento</em> (Clube de Roma, 1972) é um dos marcos dessa transição, apontando principalmente para os países do Norte.  O relatório <em>Nosso Futuro Comum</em> (ONU, 1987), que inaugura o conceito de desenvolvimento sustentável, enfatiza a &#8220;poluição da pobreza&#8221; e a necessidade de acelerar o crescimento econômico, desde que amparado por inovações tecnológicas na esfera produtiva.</p>
<p>Fase 3 &#8211; O consumo no <em>mainstream</em></p>
<p>A Conferência Rio-92 compreende, pela primeira vez, a participação direta de movimentos da sociedade organizada.  As ONGs globais e os países do Sul foram decisivos ao transferir a responsabilidade para o estilo de vida e o uso intensivo dos recursos naturais pelas populações mais ricas.  Apesar da resistência dos países desenvolvidos, os documentos aprovados na conferência (Agenda 21, Declaração do Rio, Tratado das ONGs etc.) refletem o segundo deslocamento discursivo, da produção para o consumo.</p>
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		<title>Design, e não desastre</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Jun 2009 20:01:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>P22</dc:creator>
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É possível criar uma nova economia dentro do sistema capitalista democrático para que as sociedades humanas vivam de acordo com os limites biofísicos, afirma o economista ecológico australiano Philip Lawn, professor da Flinders University, em Adelaide. Trata-se de uma economia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><img class="alignleft size-medium wp-image-2604" title="Entrevista_250x350" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2009/06/Entrevista_250x350-141x198.jpg" alt="Entrevista_250x350" width="141" height="198" /></strong></p>
<p>É possível criar uma nova economia dentro do sistema capitalista democrático para que as sociedades humanas vivam de acordo com os limites biofísicos, afirma o economista ecológico australiano Philip Lawn, professor da Flinders University, em Adelaide. Trata-se de uma economia em steady-state que não só limita a quantidade de recursos que consome e a de resíduos que libera no meio ambiente, mas busca melhorar em qualidade ao longo do tempo. Ou seja, produzir melhor em vez de produzir mais.  Na opinião de Lawn, é preciso adotar esquemas de cap-and-trade para todos os recursos e resíduos, além de reformular o capitalismo para que beneficie a sociedade e os indivíduos.  Os países ricos, onde o crescimento já é &#8220;deseconômico&#8221;, deveriam parar de crescer imediatamente e permitir às nações mais pobres que tenham o &#8220;espaço ecológico&#8221; para elevar seu bem-estar.Crescer continuamente é ecologicamente insustentável e torna inevitável a transição para a economia em steady-state, garante Lawn.  Melhor pôr mãos e mentes à obra e começar a desenhar.</p>
<p>Parece haver consenso ao redor do mundo quanto à necessidade de &#8220;estimular&#8221; a economia, criar empregos e infraestrutura &#8220;verdes&#8221;. Se o objetivo é voltar a crescer, quão &#8220;verde&#8221; é esse New Deal?</p>
<p>Primeiro, a ideia de criar empregos e investir em infraestrutura verdes é boa.  Ao mesmo tempo, se vem embutida em uma política baseada no crescimento, isso não é bom.  A transição para empregos e infraestrutura verdes, por si só, não permite que as economias continuem a crescer de uma forma que não danifique o meio ambiente.  A principal razão é o chamado efeito de Jevons.  Para um determinado nível de atividade econômica, se você cria empregos e infraestrutura verdes, o impacto ambiental diminui.  Entretanto, se o volume total de atividade econômica aumenta &#8211; e é provável que aconteça se o tal New Deal se baseia na noção de economias em crescimento -, então há a possibilidade de que o efeito de escala supere os benefícios em eficiência decorrentes da transição para empregos e infraestrutura verdes.  Neste caso, o impacto ambiental geral é maior.</p>
<p>A única maneira em que mais eficiência reduz o impacto ambiental total é se o aumento percentual em eficiência for maior do que o aumento percentual no volume total de atividade econômica.  A infraestrutura tem que ser substituída, temos que assegurar que ela e os novos empregos sejam verdes, mas temos que fazer isso no contexto de uma transição para uma economia em steady-state (SSE na sigla em inglês), que não cresce fisicamente, mas melhora em qualidade ao longo do tempo.</p>
<p>Como os países ricos deveriam agir diante da recessão?</p>
<p>Uma vez que a transição para a SSE levará tempo, os governos precisam, enquanto isso, fazer o possível para reduzir o sofrimento, focando em equidade distributiva.  Defendo o mecanismo Garantia de Emprego, simplesmente porque o desemprego é indefensável moralmente.  É desenhado para garantir que qualquer pessoa desempregada seja empregada pelo governo e receba um salário mínimo suficiente para viver; garante pleno emprego mesmo durante uma recessão.  Nas circunstâncias atuais, torna-se mais importante, porque é uma forma lógica de racionar trabalho no momento em que o PIB está caindo.  Na Austrália, o governo gastou 42 bilhões de dólares australianos (A$) em dois pacotes de estímulo, mas o desemprego continua a subir.  O Centre of Full Employment and Equity da Universidade de Newcastle estimou que o mecanismo traria pleno emprego ao custo de A$ 9 bilhões.</p>
<p>Como funciona uma economia em steady-state?</p>
<p>É basicamente uma economia que não cresce, mas não quer dizer que estagna ou definha. Nela, bens e serviços são consumidos, o capital se desgasta e precisa ser substituído. Apenas o estoque de riqueza na economia não cresce fisicamente.  A SSE busca a melhora qualitativa desse estoque ao longo do tempo &#8211; a mesma quantidade de riqueza, mas de mais qualidade. E, se o estoque de riqueza melhora, melhora nosso bem-estar.  Aumentar o estoque de riqueza &#8211; que é o que tentamos fazer com políticas baseadas no crescimento &#8211; não eleva o bem-estar, porque os benefícios adicionais que se extraem desse processo têm rendimentos decrescentes.</p>
<p>E há custos crescentes, pois, ao aumentar o estoque de riqueza, você começa a consumir o meio ambiente, porque precisa de mais recursos.  Há também pressões crescentes, mais crime, tensões familiares, porque a sociedade se esforça para produzir mais em vez de melhor. Para produzir mais, temos de trabalhar mais.  Produzir melhor significa ter gente pensando sobre como fazer isso.  É errado sugerir que há uma escolha entre a economia do crescimento e a SSE.  Porque crescimento contínuo é insustentável ecologicamente, a SSE é inevitável &#8211; queiramos ou não, ela virá.</p>
<p>A escolha que temos é fazer uma transição suave, desejável, para a SSE agora, ou esperar que a natureza a imponha sobre nós.  Ou seja, a escolha é adotar a SSE por desenho ou por desastre.  Temos que fazer por desenho e agir urgentemente para evitar o desastre.</p>
<p>Todos devem adotar a SSE ou alguns países ainda se beneficiam do crescimento?</p>
<p>Na minha opinião, os países ricos precisam se mover em direção à SSE já.  As nações pobres ainda precisam de um pouco mais de crescimento, mas tem que ser o mais limpo, eficiente e equitativo possível, de forma que extraiam o máximo desse crescimento que ainda podem ter antes que, elas também, tenham de caminhar para a SSE.  Um dos problemas que os países pobres enfrentam é que o crescimento não produz os benefícios que gerou quando as nações ricas estavam no mesmo estágio.  Isso porque o mundo agora tem muito mais gente, muito mais bens e serviços, e porque as nações ricas usaram os melhores recursos, aqueles facilmente acessáveis.  Significa que o crescimento para as nações pobres agora é muito custoso se comparado a quando os países ricos se desenvolveram.</p>
<p>Os EUA, quando se desenvolveram, tinham petróleo de alta qualidade no Texas, enquanto para países como a China boa parte do petróleo vem do Oriente Médio.  A distância e a baixa qualidade do óleo significam que o custo de crescer é muito maior e que os chineses não obtêm o mesmo aumento de bemestar com o mesmo nível de crescimento no mesmo estágio de desenvolvimento que os EUA obtiveram.</p>
<p>Do ponto de vista global, é possível limitar o crescimento sem limitar a população?</p>
<p>A resposta curta é não. Podemos limitar o crescimento do PIB, adotar a SSE e aumentar a população por algum tempo ainda, mas isso significa reduzir o bem-estar per capita, e isso não é desejável.  Não me oponho à ideia de mais pessoas, mas, se não fizermos nada em relação ao crescimento da população, podemos ter mais pessoas vivendo agora &#8211; e uma grande proporção delas miseravelmente &#8211; e poucas pessoas vivendo no futuro, caso danifiquemos a base biofísica de toda a vida.  Se fizermos algo para conter o crescimento da população, teremos menos pessoas vivendo agora &#8211; e uma proporção menor delas na miséria &#8211; e, desde que adotemos a SSE e preservemos a base biofísica da vida, muitas gerações por vir.  Portanto, ao controlar o crescimento da população agora, vamos maximizar o número total de pessoas que vão viver.  Se não, haverá menos pessoas experimentando a alegria de viver.</p>
<p>Como se daria a transição para a SSE? Que tipo de política é necessário? Bastam políticas macroeconômicas?</p>
<p>As políticas macroeconômicas são importantes, porque frequentemente envolvem gastos do governo, e isso afeta o nível da demanda por recursos e a quantidade de bens produzidos.  Ou seja, afeta a escala da economia e o fato de a economia crescer ou não.  Haveria ajustes nas políticas macroeconômicas, mas não acho que elas sejam tão importantes quanto outras políticas.  A mais importante, na minha opinião, é a autoimposição, pelo país como um todo, de restrições quantitativas na taxa de throughput dos recursos, ou seja, a quantidade de recursos que entra na economia e a quantidade de materiais que volta para o meio ambiente.  É preciso se certificar de que a taxa de throughput é ecologicamente sustentável e para isso há três regras básicas.</p>
<p>A primeira é que a taxa de uso dos recursos renováveis não deve exceder a taxa em que eles se regeneram.  Segundo, é preciso assegurar que a exploração dos recursos não renováveis não supere a taxa em que podem ser substituídos por recursos renováveis.  Terceiro, temos de garantir que a taxa com que geramos resíduos não exceda a capacidade do meio ambiente de assimilá-los.  Este ponto é muito importante &#8211; nos anos 70, quando o Clube de Roma lançou o relatório Limites do Crescimento, a ênfase estava nos recursos que entram na economia.  Isso ainda é importante, mas os problemas ambientais que enfrentamos hoje, como a destruição da camada de ozônio e o aquecimento global, surgiram porque a taxa de geração de resíduos excede a capacidade do meio ambiente de assimilá-los.  O lado dos resíduos da equação da sustentabilidade é tão importante quanto o dos recursos.</p>
<p>Como impor limites e adotar a SSE no sistema capitalista-democrático que existe em boa parte do mundo?</p>
<p>A melhor maneira, na minha opinião, é impor esquemas de cap-and-trade.  O cap determina o limite, o trade permite que as pessoas negociem o acesso aos recursos e aos sistemas que assimilam resíduos.</p>
<p>O senhor propõe cap-and-trade para todos os recursos e sistemas de absorção de resíduos?  Sim, desta maneira é possível limitar as taxas de consumo de recursos e de geração de resíduos, sempre observando as três regras.  A chave em relação aos esquemas de cap-and-trade é que o preço dos recursos refletiria sua escassez não em relação a outros recursos &#8211; quão escasso é o petróleo em relação ao carvão -, mas quão escassos são todos os recursos. Os recursos se tornariam mais caros, mas isso incentivaria as empresas a buscar formas de economizá-los ou de reduzir a poluição. Também incentivaria o desenvolvimento de infraestrutura verde e, por consequência, haveria mais empregos verdes.  Apenas a transição para a SSE não é suficiente, é preciso garantir que ela melhore qualitativamente, ou seja, que a qualidade daquele determinado estoque de riqueza melhore ao longo do tempo.  O cap garantiria que se trata de uma SSE, enquanto o trade daria incentivo para o tipo de tecnologia que eleva o nível de eficiência e facilita o aumento da qualidade da riqueza.</p>
<p>O resultado é uma economia que não apenas não cresce, mas em que a qualidade aumenta, o que significa que todos se beneficiariam, pois não teríamos de trabalhar tanto e disporíamos de mais tempo para o lazer.</p>
<p>É difícil é estabelecer um sistema de cap-and-trade apenas para o CO2.  Quão realista é a ideia de esquemas para todos os recursos?</p>
<p>A Europa tem um sistema de cap-and-trade, mas não há exemplos de países que o tenham aplicado para todos os recursos e resíduos. Por algumas razões.  Primeiro, os políticos estão obcecados com o crescimento, e o público em geral pensa que a economia precisa crescer.  Em uma sociedade democrática, se este é o pensamento do eleitorado, mesmo se houvesse um candidato que defenda a SSE, as pessoas não votariam nele.  Se seu interesse é ser eleito, você defende as políticas que as pessoas querem, e elas querem crescimento, então as políticas são baseadas no crescimento.  Outro fator importante é a globalização.  Eu vejo a globalização como o desaparecimento das fronteiras nacionais por meio do livre comércio e da mobilidade do capital.  Por exemplo, a Austrália poderia ter padrões ambientais mais duros do que tem, mas em um ambiente em que o capital se move facilmente, há a possibilidade de que empresas transnacionais que operam no país se mudem para outro lugar e o desemprego aumente.</p>
<p>A pressão sobre os governos para que não introduzam padrões ambientais é enorme.  É o que acontece com o sistema de cap-and-trade australiano, cujo início foi adiado (para 2011) &#8211; um dos principais argumentos do setor privado é que vamos exportar empregos.  Muitos pensam que a realocação da produção para países pobres com padrões baixos é boa para estes países, pois tira muita gente da pobreza. A maioria das pessoas a que se referem deixou de ganhar menos de US$ 1 por dia para ganhar US$ 2.  Embora US$ 2 seja melhor que US$ 1, o aumento ocorreu à custa de degradação ambiental, deslocamento social e mais horas de trabalho &#8211; perdas de bem estar que não aparecem no discurso dos defensores da globalização.</p>
<p>Eles dizem que não há outra forma para as nações pobres progredirem.  Isso é bobagem e reflete a mentalidade de &#8220;você está conosco ou contra nós&#8221;.  A renda das pessoas nas nações pobres poderia ter sido elevada sem os efeitos degenerativos da globalização.  Não sou contra o comércio internacional &#8211; onde ele é eficiente e pode genuinamente aumentar o bem-estar das pessoas, sou totalmente a favor.  Mas o nível de comércio que temos não apenas encoraja o movimento de capital para produzir em lugares onde os padrões ambientais são baixos &#8211; o que leva a desmatamento, degradação e poluição -, mas pressiona os governos a não adotar as medidas necessárias para a transição à SSE.</p>
<p>O problema é a mobilidade do capital.</p>
<p>Exatamente, significa que o comércio é governado pelo princípio da vantagem absoluta.  Um governo bem-intencionado terá dificuldades de fazer a transição para a SSE, mesmo que o eleitorado queira, principalmente por causa das forças da globalização.</p>
<p>Seria preciso mudar o sistema todo, o que atualmente parece quase impossível.</p>
<p>Vai ser difícil.  Acho que os seres humanos se tornaram viciados em crescimento.  As pessoas dizem: &#8220;Você defende a transição para a SSE, mas estamos em uma recessão global, não estamos crescendo, e o resultado é enorme sofrimento.  O que está dizendo é que quer que todo mundo sofra&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8230;qual a sua resposta?</p>
<p>As economias do mundo estão equipadas para crescer, é como um carro movido a diesel, se você puser gasolina, não funciona.  As economias são desenhadas para crescer, se não crescem há sofrimento.  Mas isso não significa que as economias devam crescer.  Para muitos países ricos, o Indicador de Progresso Genuíno (mais sobre o IPG na página ao lado) está estagnado ou caindo, apesar de que as economias crescem &#8211; há sofrimento associado ao crescimento tanto quanto à falta dele.</p>
<p>Em uma recessão, o sofrimento é maior do que quando a economia cresce, mas isso não significa que crescimento seja bom. Uma SSE é desenhada para não crescer, como um carro movido a petróleo, não a diesel.  Quando há cap-and-trade, incentivos e sinais corretos de mercado, caminha-se para a infraestrutura verde, melhora da qualidade em vez de aumento da quantidade.</p>
<p>É uma economia totalmente diferente, redesenhada, não há sofrimento decorrente da falta de crescimento, porque a economia está melhorando ao longo do tempo.  (O economista americano) Herman Daly faz uma ótima distinção: a economia de crescimento é como o avião, não pode voar a menos que esteja se movendo para a frente.  Quando há recessão e o avião para, ele cai.  A SSE é como um helicóptero, não precisa se mover para voar.  Não se pode compará-lo a um helicóptero, porque o helicóptero ainda pode voar, é desenhado para voar sem se mover para a frente.</p>
<p>O problema é que temos que, de alguma forma, converter a economia de avião para helicóptero em pleno voo.</p>
<p>Implica mudar o sistema capitalista?</p>
<p>O capitalismo não é o problema.  As economias socialistas têm os mesmos problemas. A forma de capitalismo que temos no mundo hoje não é apropriada, temos que buscar uma forma diferente, que reconheça a importância da sociedade e dos indivíduos, não somente da economia.  Muita gente diz que o capitalismo colapsa se não há crescimento porque não há lucro suficiente sendo gerado dentro da economia.  Leciono em uma escola de negócios e costumo perguntar a meus alunos o que uma empresa pode fazer para aumentar os lucros.</p>
<p>Eles respondem com muitas ideias que cabem basicamente em três categorias.  Uma é que se pode produzir mais e vender mais &#8211; um exemplo de crescimento.  Outra é produzir bens de mais qualidade, que em geral recebem preços mais altos &#8211; um exemplo de desenvolvimento.</p>
<p>A terceira é que se pode produzir mais eficientemente de forma a cortar os custos de produção &#8211; exemplo de desenvolvimento.  Em uma SSE haveria limites quantitativos, o que quer dizer que seria difícil para as empresas elevar a produção, mas há duas outras formas de aumentar os lucros: qualidade e eficiência.  Não acredito que a SSE secaria os lucros e, por isso, haveria incentivo para investir.  Com os limites de uma SSE, a geração de lucros estaria limitada à produção de bens de mais qualidade e mais eficientes, o que reduziria os impactos ambientais e todo o lucro refletiria coisas que nos fazem melhorar.</p>
<p>No sistema atual, o lucro provém de produzir mais bens, o que melhora a nossa situação apenas parcialmente.  Nosso bemestar aumenta, mas a taxas decrescentes, e para produzir mais é preciso mais recursos, o que aumenta o custo ambiental, e é preciso trabalhar.  Não acredito que a SSE seja uma ameaça ao capitalismo, mas o atual sistema capitalista não nos beneficia muito, temos de redesenhar o capitalismo que temos.</p>
<p>Que tipo de pacto social e político seria necessário para fazer isso e permitir uma SSE?</p>
<p>Temos que reconhecer que, para que nosso bem-estar seja sustentável a longo prazo, precisamos primeiro garantir que o que quer que façamos seja sustentável ecologicamente. Outra coisa importante é assegurar que a distribuição de renda e riqueza seja justa e equitativa. Uma vez que estes dois aspectos estejam cobertos, então podemos deixar que os mercados aloquem recursos eficientemente para que possamos usá-los para melhorar a qualidade do estoque de riqueza.  Os mercados são um mecanismo muito útil em termos de alocação eficiente de recursos.  O fato de que muita não gosta dos mercados não é culpa dos mercados em si, mas dos tomadores de decisão que permitiram que os mercados se intrometessem nestas duas dimensões &#8211; a quantidade de recursos, que deveria ser determinada por critérios ecológicos e não econômicos, e quem recebe o quê.</p>
<p>Em última instância, precisamos de um sistema de transferência capaz de eliminar qualquer tipo de desequilíbrio, o que não significa que todos terão o mesmo em termos de riqueza, mas que a distância entre ricos e pobres não é tão grande e que as pessoas na base da sociedade têm pelo menos uma existência decente.</p>
<p>Nos países pobres, desenvolvimento às vezes é descrito como alcançar o padrão de vida de americanos ou australianos.  Com a SSE, mudaria-se a noção de desenvolvimento?</p>
<p>Eu digo que sim. Sem dúvida mudaria nos EUA e na Austrália, que não podem continuar a consumir a quantidade de recursos que consomem. Mas isso não deveria preocupar as pessoas na Austrália, nos EUA, no Brasilou na China.  Eis porque: quando as pessoas falam em crescimento econômico, referem-se ao crescimento do PIB &#8211; quando o PIB aumenta, temos crescimento econômico.  Não vejo dessa maneira.  O crescimento do PIB pode ser tanto econômico como &#8220;deseconômico&#8221;, e só equivale a crescimento econômico quando aumenta os benefícios mais dos que os custos.  O que se vê em vários países ricos é que o PIB per capita atinge um determinado nível em que mais crescimento do PIB causa um aumento dos custos maior do que dos benefícios.</p>
<p>É um caso de crescimento deseconômico &#8211; o crescimento do PIB nas nações mais ricas do mundo leva o IPG a estagnar ou cair.  O IPG indica se o crescimento do PIB é econômico ou deseconômico.  Ele é composto de cerca de 20 itens, cerca de 10 são custos e outros 10, benefícios.  Se o IPG sobe, os benefícios agregados devem estar aumentando mais do que os custos agregados.  Quando o IPG começa a cair, significa que os custos passaram a subir mais que os benefícios.  Os estudos iniciais feitos nas nações ricas mostraram que, quando o PIB per capita atinge de US$ 15 mil a US$ 20 mil, o IPG começa a cair e mais crescimento do PIB não faz com que volte a subir.  Eu coeditei um livro que estudou o IPG na região da Ásia-Pacífico, com países ricos- Austrália, Nova Zelândia e Japão &#8211; e pobres &#8211; China, Índia, Tailândia e Vietnã.  Descobrimos que o IPG, em termos per capita, já está caindo na China e na Tailândia, apesar de o PIB per capita estar longe dos US$ 20 mil.</p>
<p>O que explica isso?</p>
<p>Quando os países de alta renda se desenvolveram, foram capazes de acessar recursos facilmente, emitir CO2 na atmosfera.  Agora é muito custoso para China, Índia, Tailândia e Vietnã, então o mesmo nível de PIB per capita envolve custos per capita muito mais altos.  Eles atingiram o ponto em que os custos suplantam os benefícios em um nível muito mais baixo do PIB: no caso da Tailândia, o IPG per capita começou a cair quando o PIB per capita alcançou US$ 7,5 mil; na China, US$ 5 mil.  Isso sugere que os países mais pobres jamais vão alcançar o nível de bem-estar sustentável dos países mais ricos do mundo.  O IPG per capita deles ainda pode subir, mas será preciso uma fase de crescimento limpo, eficiente e equitativo e que as nações mais ricas parem de crescer e adotem a SSE.  O IPG nas nações mais ricas não aumenta mais com o crescimento, e só deve subir no futuro se elas adotarem a SSE &#8211; seria benéfico para as nações ricas, mas tem de ser feito de forma a beneficiar as nações pobres, a dar a elas o espaço ecológico que precisam para poder aproveitar um aumento do bem-estar.  A menos que se permita que tenham este espaço, o IPG, e portanto o bem-estar sustentável das pessoas nestes países, não vai aumentar.</p>
<p>Os países ricos parecem convencidos de que perdem ao dar espaço ecológico aos países pobres.</p>
<p>Algumas pessoas se beneficiam à custa dos outros, mas o IPG per capita na Austrália, por exemplo, está em queda, o que sugere que já estamos pior por tentar fazer com que a economia cresça.  As pessoas sabem que há algo errado, porque têm menos tempo para suas crianças, a vida é estressante, elas trabalham mais.  Mas continuam ouvindo que tudo está bem, porque o PIB está crescendo.  Quando eu ensino o IPG para meus alunos, é como se uma lâmpada acendesse na cabeça deles.  Eles dizem: &#8220;Isso explica por que a vida parece piorar, quando deveria estar melhorando&#8221;.  Não é que o crescimento vai tornar a vida pior no futuro, ele já está fazendo isso.</p>
<p>Como é ser economista ecológico no mundo dominado pelo dogma do crescimento?  Como tornar a economia ecológica mais influente?</p>
<p>É uma experiência solitária. Ler e ouvir referências constantes aos benefícios do crescimento do PIB, e ao mesmo tempo ver pouca cobertura da mídia de visões alternativas como a SSE, é um lembrete constante de quão dominante é a ortodoxia econômica.</p>
<p>O fato de que a voz dos economistas ecológicos mal é ouvida diz mais sobre quão poucos somos do que sobre nossa falta de participação no debate público.  Por isso, a influência da economia ecológica vaicontinuar limitada por algum tempo.  Mas eventualmente teremos um lugar ao sol.  Acredito que acabaramse os dias de recursos baratos e as tentativas para continuar crescendo resultarão em inflação de custo.  Um dos gatilhos da atual recessão foi o impacto inflacionário dos altos preços do petróleo e das commodities, que caíram recentemente por causa da demanda reduzida.</p>
<p>Tenho certeza que vão escalar quando a economia global voltar a crescer fortemente e isso vai levar à inflação e a mais uma recessão.  Ao contrário da inflação de demanda, a inflação de custo não pode ser combatida com taxas de juro mais altas.  O crescimento econômico vai ser como passar um camelo pelo buraco da agulha e o público vai exigir soluções.  Quando este ponto chegar, a economia ecológica vai suplantar o senso econômico comum.  Até lá, os economistas ecológicos podem informar o máximo de pessoas possível sobre o quão indesejável é a continuidade do crescimento do PIB e refinar suas recomendações para que, quando forem chamados, tenham as melhores soluções à mão.</p>
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		<title>Faça humor, não faça guerra</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Jun 2009 19:36:51 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[A tecnologia e a globalização entram como aliados do fenômeno que combate o status quo por meio da arte, e no qual o processo de mobilização é tão importante quanto a manifestação em si

Por Ana Cristina D&#8217;Angelo
Quando o artista francês [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em><img class="alignleft size-medium wp-image-2615" title="Ativismo_250x350" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2009/06/Ativismo_250x350-141x198.jpg" alt="Ativismo_250x350" width="141" height="198" />A tecnologia e a globalização entram como aliados do fenômeno que combate o status quo por meio da arte, e no qual o processo de mobilização é tão importante quanto a manifestação em si<br />
</em></p>
<p><strong>Por Ana Cristina D&#8217;Angelo</strong></p>
<p>Quando o artista francês Philippe Petit atravessava de uma torre gêmea à outra do World Trade Center em um cabo de aço, numa manhã de 1974, só sabia que a cena se fixaria no imaginário das pessoas. Isso se a performance desse certo.  A correria de uma manhã no coração financeiro de Nova York foi interrompida pela imagem de um corpo frágil que se deitava no fio entre os prédios mais altos do mundo só para ver o céu ou que tirava um dos pés daquela linha fina, vista de tamanha distância, em um desafio-surpresa que levara meses para ser concretizado assim, como planejaram Petit e seus amigos: original, surpreendente e efêmero.  O artista não justificou a ação como fez inúmeras outras vezes, lançando performances por um fio na catedral de Notre-Dame e em monumentos antes intocados pelo mundo, tramando ações em segredo.</p>
<p>Sem o aparato tecnológico, as insurgências poéticas de Philippe Petit renderam-lhe prisões, rápidas, e repercussão nas cidades por onde passou.  A lembrança desse choque bem-humorado foi registrada no filme vencedor do Oscar de melhor documentário este ano, O Equilibrista.  Como enfrentar quem usa o humor e a poesia?  Petit não ambicionava mais do que aquele momento, não queria se eleger a cargo algum e, acima de tudo, era um boa-praça.  Ainda que suas ações tenham ocorrido em sua maioria na década de 70, ali se reuniam características do arte-ativismo que vemos hoje: uma mescla de movimentos artísticos anteriores, ocupação do espaço público, urbano, planos e ações coletivas organizados na surdina, em que o processo é tão importante quanto o ato.  Agora, o arte-ativismo conta com aliados fundamentais &#8211; a tecnologia e a globalização.  &#8220;Se vai dar certo, só saberemos fazendo&#8221; é uma máxima de coletivos artísticos em suas intervenções.</p>
<p>Ir contra o capitalismo ou questionar o atual estágio do modelo econômico e seus danos &#8211; consumismo exagerado, controle invisível de grandes organizações, degradação ambiental &#8211; sem ser absorvido por ele é possível?  Burlando o sistema de arte convencional e o aparato oficial da política, os arte-ativistas buscam essa brecha nos espaços públicos e onde haja interesse comum.</p>
<p>O termo surgiu pela primeira vez em artigo, de 1984, da teórica e ativista americana Lucy Lippard.  Nesse texto, ela tenta diferenciar arte política, que faz uma reflexão do momento, do arte-ativista, que põe a mão na massa e se envolve com o cotidiano.  Nesse sentido, o objeto de arte em si não tem tanta importância, explica o doutorando em Arte-Ativismo pela USP André Mesquita.  &#8220;O processo e a convivência com os outros, colocando a arte na vida, são o que importa.  Os coletivos têm esse espírito de fazer a coisa juntos e valorizar um campo de transversalidade, no qual a arte vaiconversar com a política, economia, arquitetura, com os movimentos sociais.&#8221;</p>
<p>Uma reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC), em 1999, em Seattle (EUA), pode ser considerada um marco no tipo de protesto que se alastrou pelo mundo. Pulverizados, com bastante uso de internet e mensagens de celular, os protestos de Seattle, além de tudo, ocorreram no centro do consumismo cool mundial, terra de nomes como Microsoft e Nintendo, onde ninguém suspeitava de uma insurgência de tamanha repercussão contra o sistema.  Jovens simplesmente sentavam ao longo de uma rua, impedindo o acesso dos participantes à reunião que debateria a rodada do milênio, articulando movimentos sincronizados no espaço público, com o uso de fantasias e ataques a pontos polêmicos das discussões que as nações ricas levavam em portas fechadas.</p>
<p>Em Gênova, em 2001, quando se reuniam os países integrantes do G-8, os manifestantes repetiram a saraivada de protestos organizados com táticas de guerrilha e deixaram a polícia e os políticos perplexos. &#8220;Os movimentos arte-ativistas usam táticas e estratégias, como na guerra.  A tática é usada pelo mais fraco &#8211; assim como na luta de boxe -, você está em território inimigo.  Então transforma aquilo em uma linguagem subversiva.  Os zapatistas usaram isso da melhor forma possível, conseguiram espaço na TV e no rádio, na selva se comunicavam pela internet, deram um viés radical para o uso da mídia&#8221;, analisa Mesquita.</p>
<p>Já o diretor editoral da Conrad (editora pioneira no lançamento de títulos ligados ao arte-ativismo com a coleção Baderna), Rogério Campos, avalia que o efeito-surpresa de Seattle tem relação com a crise das esquerdas pós-queda do Muro de Berlim.  &#8220;O pensamento daquela hora era de que os jovens estavam alienados, e depois dos grandes protestos não queriam saber de nada, muito menos de política.  Ali se percebeu que tinha gente pensando e articulando movimentos anticapitalismo da forma mais corrosiva possível: com humor&#8221;, sugere o diretor.</p>
<p>Um dos títulos da Conrad, considerado uma Bíblia por muitos, é o TAZ &#8211; Zona Autônoma Temporária, de Hakim Bey, que lançou a ideia de combater o poder criando espaços (virtuais ou não) de liberdade que surjam e desapareçam o tempo todo.  Discutia-se até mesmo a identidade do autor do livro.  No fim dos anos 80, o TAZ ficou circulando livremente na forma de panfleto e hoje é citado por teóricos que estudam as raves, o universo dos hackers, a ideia de organização fluida (mais sobre o TAZ na reportagem &#8220;A gente é o mundo que é a gente&#8221;, na edição 28 de Página22).</p>
<p>Acredita-se que o conceito de TAZ tenha inspirado muitas das táticas de rua dos manifestantes em Seattle.  Mais de uma autoridade policial constatou, aterrorizada, que era muito difícil acompanhar a estratégia dos manifestantes de formar grupos aleatoriamente, atacar e depois desmanchar aquelas formações para se juntar em outros grupos, com novos objetivos.</p>
<p>Ao mesmo tempo que esses manifestos e ensaios de Hakim Bey recebiam a atenção de ativistas e das autoridades, passaram também a ganhar elogios entusiasmados por sua qualidade literária.  &#8220;O TAZ instaurou isso do você-faz-e-sai-fora.  Consolidar posições é um erro.  Isso inspirou muita gente na questão da liderança de movimentos.  Eles hoje se questionam o tempo todo&#8221;, analisa Campos.</p>
<p>Em menor escala que os grandes protestos das décadas de 60 e 70, o arte-ativismo também caminha para focos mais direcionados e específicos de protesto.  Com o uso da tecnologia, o alcance é multiplicado e as fronteiras geográficas ficam menores. Esses protestos-contágio também passaram a ser adotados pelas causas da sustentabilidade, organizações ambientais criaram eventos como o Dia de Ação Global, a World Naked Ride Bike (Bicicletada Pelada) ou o Reclaim the Streets.</p>
<p>A cidade e a catraca<br />
Movimentos com foco local também proliferam em torno de causas nascidas, às vezes, em um bairro.  Em São Paulo, em 2004, um protesto ganhou proporções interessantes.  Um coletivo chamado Contra Filé fazia um projeto sobre regiões da cidade, apoiado pelo Sesc.  Elegeram a catraca como símbolo de separação e controle da cidade.  As pessoas não conhecem o lugar onde moram e estão isoladas, foi a conclusão do grupo.  A imagem também remetia a &#8220;catracas&#8221; na vida de cada um como controles invisíveis existentes no espaço urbano.  Colocaram uma catraca velha no Largo do Arouche e lançaram ali um programa de &#8220;descatracalização da vida&#8221;.</p>
<p>Prefeitura e mídia reagiram, criticando o mau uso do patrimônio público.  Mas o cartunista Laerte adorou a ideia e fez tirinhas com a catraca invisível, enquanto outros articulistas de jornais importantes absorveram a história, até que o vestibular da Fuvest elegeu a descatracalização da vida como tema de redação.</p>
<p>Em seguida, o símbolo foi usado por vários movimentos no País, pedindo transporte público gratuito. Outro caso emblemático teve como cenário o Edifício Prestes Maia, no centro da cidade.  Tomado por sem-teto, o prédio passou por seguidas tentativas de desocupação pela polícia e, em 2006, o poder público precisou enfrentar antes a intervenção artística.</p>
<p>Os artistas se juntaram aos moradores do prédio, fazendo parte da ocupação, arrecadando livros, comida e passando os dias com os moradores ameaçados de despejo.  &#8220;Um dia em que a polícia entrou e começou a dar tiros de bala de borracha, uma menina, disse que aí viu o que estava fazendo&#8221;, relata o pesquisador da USP André Mesquita, que entrevistou mais de 30 coletivos para a sua dissertação.  Há críticas de que os artistas surgem nas situações-limite e, depois, desaparecem.  No próprio blog dos artistas envolvidos com a ocupação do Prestes Maia, eles fazem um mea-culpa em charges e quadrinhos.  &#8220;Tem gente que só participou do movimento e depois sumiu, e só apareceu mais tarde em jornais.  A quem pertence o resultado final?&#8221;</p>
<p>As questões do espaço urbano tomam bastante a pauta dos movimentos.  O termo &#8220;gentrificação&#8221;, por exemplo, foicunhado para se referir a áreas degradadas que o poder público toma para fazer moradias para a classe média. Limpezas urbanas ocorreram em Nova York, Barcelona e Berlim.  Movimentos sociais de arte-ativismo organizaram uma publicação que narra episódios de gentrificação em diversas grandes metrópoles mundiais, na qualo episódio do Prestes Maia foi incluído.</p>
<p>Mas, diante do avanço e da desigualdade da produção capitalista e dos monopólios e oligopólios que controlam a vida das cidades, outro mundo é realmente possível através dessas insurgências poéticas?  Qualo efeito desses pequenos atos político-artísticos na vida coletiva?</p>
<p>&#8220;Acho que a todo momento as pessoas querem fazer alguma coisa, pode não virar política pública, mas pelo menos você foi lá e se manifestou.  Porque, no fundo, as pessoas acham que vão mudar algo.  Pode ser que nunca tenha uma tarifa zero para o transporte público em São Paulo, mas é bom brigar pelo impossível.  Não é utópico e romântico, é a questão da arte que penetra no cotidiano, e que faz as pessoas se mobilizarem&#8221;, responde Mesquita.</p>
<p>Famosos e anônimos<br />
Promover beleza ou espanto é com que lida Adriano Paulino, artista mineiro responsável por ilustrar as páginas desta reportagem usando a técnica do estêncil.  &#8220;O estêncil é muito rápido e relativamente barato. Você sai com os moldes pelo meio da rua e vai mandando.  Em geral, gosto de fazer um movimento inverso do que a gente vive. Corto estêncil de personalidades, celebridades e coloco na rua, olhando para os mortais.&#8221;</p>
<p>Quem passa pelos bairros de Floresta e Santa Tereza, em Belo Horizonte, pode dar de cara com uma Marilyn Monroe no muro, Johnny Depp passeando na parede ou Paulinho da Viola, Tarcísio Meira e Glória Menezes.  A rua é a galeria de arte.  A técnica é antiga, mas ganhou fôlego com a internet.  Adriano fotografa os locais onde aplicou seu trabalho e faz um intercâmbio das imagens com adeptos da técnica em vários países, além de interagir com quem passa pela rua.  &#8220;Existe uma sintonia com quem faz trabalhos na rua e hoje tem essa simultaneidade, acabou de mandar e já está na internet.&#8221;  Com influência de Andy Warhol, o artista mineiro especula: &#8220;Imagine se ele tivesse conhecido a web&#8221;.</p>
<p>A rede é ainda espaço para o cyberativismo de muitas organizações. Abaixo-assinados ganham escala mundial replicados em simples correios eletrônicos, caso do Avaaz, grupo que briga por temas tão amplos e distintos como o fim da guerra do Iraque, contra o aquecimento global e, recentemente, por investigações sobre a origem da gripe suína.</p>
<p>O texto &#8211; que só circula pela rede &#8211; sugere que está cada vez mais claro de onde veio a gripe: muito provavelmente de uma gigantesca fazenda industrial de criação de suínos mantida por uma corporação multinacional americana no estado de Veracruz, no México.  A proposta do Avaaz é um protesto em massa com assinaturas colhidas virtualmente, seguida de uma ação no plano bem real: &#8220;Se conseguirmos 200 mil assinaturas, entregaremos o abaixo-assinado à OMS, em Genebra, juntamente com um rebanho de porcos de papelão.  Para cada mil assinaturas, acrescentaremos um porco ao rebanho&#8221;.</p>
<p>De modo equivalente, o arte-ativismo pode provocar um inusitado grupo de transeuntes olhando para o céu numa segunda-feira cinzenta em Nova York para ver o malabarismo de Petit.  É a arte tirando coisas do lugar e sacudindo as pessoas. Se vai abalar ou não, só fazendo saberemos.</p>
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		<title>ONGs na pindaíba</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Jun 2009 20:03:01 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[A crise atingiu em cheio as organizações nos EUA, que apelam para cortes e fusões ou fecham as portas. Em compensação, podem atrair maior voluntariado
Por Regina Scharf*
A crise financeira está tirando o chão de muitas não governamentais. Devido à queda [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A crise atingiu em cheio as organizações nos EUA, que apelam para cortes e fusões ou fecham as portas. Em compensação, podem atrair maior voluntariado<br />
Por Regina Scharf*</p>
<p>A crise financeira está tirando o chão de muitas não governamentais. Devido à queda nos repasses de origem estatal e nas doações, muitas organizações nos Estados Unidos estão pedindo falência ou fechando as suas portas.  As mais ágeis apelam para cortes, fusões e mudança de foco, para não comprometer seus programas essenciais.</p>
<p>O Councilon Foundations registrou queda de US$ 200 bilhões no patrimônio conjunto de suas 2.100 associadas &#8211; organizações privadas americanas que financiam projetos sociais ou ambientais.  Agora, conta com US$ 307 bilhões.  A crise não perdoa nem as megadoadoras, como a Fundação Ford, que teve de fechar seus escritórios na Rússia e no Vietnã, após perder um terço dos seus recursos no último ano.</p>
<p>Em outros países, a situação não é melhor.  Dois dos maiores doadores da Inglaterra, o Wellcome Trust e a Esmée Fairbairn Foundation, também sofreram reveses.  O primeiro perdeu 9% do seu patrimônio, e a segunda teve de reduzir doações em 8%, devido à queda de 22,5% em seus investimentos.</p>
<p>Menor patrimônio, menores doações. Pesquisa realizada pelo mesmo Councilon Foundations, em março, verificou que 62% das 430 fundações ouvidas pretendiam diminuir seus repasses neste ano.  Quase a metade informou que o aperto será superior a 10%.  A enquete também indicou que essas organizações resolveram priorizar a promoção de necessidades básicas, com assistência a comunidades pobres e desempregados, combate à fome, oferta de abrigo emergencial e criação de empregos.</p>
<p>Por fim, 60% das fundações relataram que estavam cortando seus custos operacionais. Parte delas congelou salários e contratações e 6% começaram a demitir. O ânimo entre as ONGs que dependem desses doadores é igualmente sombrio.</p>
<p>Um estudo da Universidade de Indiana registra que a expectativa de arrecadação das organizações é a menor dos últimos dez anos.  Segundo análise publicada pelo The New York Times em março, a saúde financeira das não governamentais dos EUA deteriorase rapidamente.  O jornal cita pesquisa com dirigentes de 900 entidades.  Um terço delas dizia que não tinha recursos para cobrir mais que um mês de despesas.  Outro tanto afirmou que tinha cobertura por mais três meses apenas.</p>
<p>&#8220;Aqueles incapazes de se beneficiar da economia de escala podem ter dificuldades de sobreviver&#8221;, declarou, recentemente, Lois Lerner, diretora da área que monitora as filantrópicas no IRS, a Receita Federal americana.  &#8220;Por essa razão, temos ouvido cada vez mais organizações isentas de impostos considerarem fusões e aquisições com outras similares.&#8221; Já há casos de entidades sem fins lucrativos que declararam falência &#8211; como a Glass Youth and Family Services, de Los Angeles, que atende jovens gays e lésbicas, ou a Baltimore Opera Company.</p>
<p>Diante desse quadro, alguns doadores estão ajudando a reestruturar organizações em perigo.  É o caso da San Francisco Foundation, que destinou US$ 1 milhão para ajudar ONGs a manter serviços básicos e para pagar os serviços de advogados e administradores que ajudem a fundi-las ou fechá-las.  Uma das apoiadas por ela, a Project Open Hand distribui 2.600 refeições quentes diárias a idosos e portadores do HIV na cidade de San Francisco.  Com o encolhimento do orçamento, associou-se a três outras organizações similares.  Passaram então a comprar alimentos coletivamente, para poder negociar melhores preços, e a compartilhar cozinhas.</p>
<p>Como em toda crise, sempre há quem encontre formas de prosperar.  Para Daniel Ben- Horin, fundador da Tech-Soup, entidade que faz a ponte entre organizações filantrópicas e indústrias de computadores, esta fase será boa para as não governamentais.  &#8220;Este é um momento de reinvenção, de busca de oportunidades&#8221;, diz.  Para ele, muita gente talentosa poderá reavaliar sua carreira e buscar oportunidades no Terceiro Setor &#8211; como ocorreu quando a bolha das pontocom explodiu.  &#8220;Trabalhar em projetos sociais é uma forma de validar o seu papel num mundo que enfrenta turbulências financeiras.&#8221;</p>
<p>Pelo menos nos EUA, muitos desempregados recentes estão buscando trabalho voluntário como forma de ocupar suas horas ociosas.  Essa é a história de Lisa Traina, que perdeu seu glamouroso emprego como organizadora de festas na Rainbow Room, em Nova York, e passou a abordar mendigos para oferecer os préstimos de um abrigo de Nova York.  &#8220;Eu trabalhava no topo do mundo&#8221;, ela disse recentemente ao New York Times.  &#8220;Agora, ando pelas ruas dizendo: &#8216;Posso lhe mostrar onde conseguir um prato de sopa?&#8217;&#8221; O jornal diz que, graças ao interesse de recém-desempregados como Lisa Traina, a oferta de voluntários cresceu cerca de 30% em várias instituições.</p>
<p>Essa é a cara das ONGs pós-crise: pouco dinheiro, mas muita disposição para trabalhar.</p>
<p>*Jornalista especializada em meio ambiente</p>
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		<title>Pulo do gato?</title>
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		<pubDate>Sun, 14 Jun 2009 19:42:20 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Dez anos é o tempo mínimo para a produção comercial de bioenergia de terceira geração &#8211; prazo bem curto para se definir uma política estratégica sobre o tema

Por Ignacy Sachs*
A energia da controvérsia é o subtítulo de um livro sobre [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Dez anos é o tempo mínimo para a produção comercial de bioenergia de terceira geração &#8211; prazo bem curto para se definir uma política estratégica sobre o tema<br />
</em></p>
<p><strong>Por Ignacy Sachs*</strong></p>
<p>A energia da controvérsia é o subtítulo de um livro sobre os biocombustíveis, organizado pelo professor Ricardo Abramovay e lançado este ano pela Editora Senac. Partidários e adversários dos biocombustíveis continuam a travar uma renhida batalha sobre as consequências potenciais da competição entre bioenergia e alimentos por recursos escassos &#8211; terras agricultáveis e água.</p>
<p>A passagem à segunda e à terceira geração dos biocombustíveis &#8211; etanol celulósico e biocombustíveis produzidos à base de algas &#8211; acabaria com essa polêmica.</p>
<p>O etanol celulósico vai utilizar como matéria-prima resíduos agrícolas e florestais, além de gramíneas perenes e árvores de crescimento rápido, acentuando a complementaridade entre a produção de alimentos e de bioenergia.  Esta é a opção tomada pela China, que planeja para o ano 2020 a substituição de 31 milhões de toneladas de gasolina por etanol produzido com resíduos agrícolas.  Por sua vez, as algas e as plantas halófilas, suscetíveis de serem transformadas em bioenergia, crescem em água doce ou salgada e, portanto, não requerem nenhum hectare de terras cultiváveis.</p>
<p>Daí surge uma questão estratégica.Que importância atribuir a pesquisas sobre a segunda e a terceira geração dos biocombustíveis de maneira a acelerar o seu aproveitamento em escala industrial? Os primeiros a efetuar este pulo do gato (leapfrogging) desfrutarão de vantagens comparativas no mercado.</p>
<p>As numerosas espécies de algas &#8211; mais de 100 mil &#8211; diferem em tamanho e formas, desde micróbios unicelulares até sargaços longos de dezenas de metros, formando uma verdadeira floresta.  Várias espécies têm a capacidade de crescer rapidamente, dobrando de volume a cada 6 horas.  Algumas têm um conteúdo de óleo de 50%, o que faz com que tenham uma produtividade por hectare várias vezes superior à do dendezeiro ou da soja.</p>
<p>É possível cultivar algas no deserto em açudes ou nas usinas de tratamento de água. Um projeto na cidade de Saint Paul, no Estado de Minnesota, nos EUA, propõe-se a cultivar algas para remover o nitrogênio e o fósforo das águas usadas antes de jogá-las no Rio Mississippi.  Da mesma maneira, pensa-se em reciclar o gás carbônico emitido por usinas elétricas movidas a carvão.</p>
<p>A produção de biocombustíveis à base de algas atrai também a atenção da indústria aeronáutica.  A Sapphire Energy, a mais importante empresa americana do ramo, pretende colocar no mercado cerca de 4 milhões de litros de biocombustível de algas em 2011.  A sua produção deve alcançar cerca de 400 milhões de litros por ano em 2018 e 4bilhões de litros em 2025.</p>
<p>Não faltam estimativas mirabolantes do potencial de biocombustíveis à base de algas.  Salt Lake, no Estado de Utah, é um sério candidato para liderar a corrida com um potencial avaliado em US$ 250 bilhões por ano!  Segundo outro cálculo, uma área de 2 milhões de hectares seria suficiente para abastecer integralmente os Estados Unidos com diesel.  Na mesma ordem, há quem pense que a energia produzida de algas em uma parte do deserto de Saara, usando água do mar, daria para substituir o consumo mundial atual da energia fóssil.</p>
<p>Ainda não estamos lá.  A energia obtida de algas continua cara e os mais otimistas pensam que pelo menos dez anos serão necessários para viabilizar a sua produção comercial.  Mas, para definir uma estratégia de pulo do gato, dez anos representam um prazo muito curto.  Tanto mais que o Brasil dispõe de condições excepcionais para se lançar na produção de biocombustíveis de algas.</p>
<p>Ao falar da terceira geração dos biocombustíveis, convém mencionar também a fotossíntese artificial, tema de um importante projeto pilotado pela Universidade de Uppsala, na Suécia, contando com uma rede de pesquisadores europeus. Cientistas americanos estão empenhados num projeto similar no Brookhaven National Laboratory. O objetivo é conseguir a produção do hidrogênio com água e energia solar, valendo-se de uma abordagem biomimética (inspirada nas soluções que a natureza encontra).  Em paralelo, são estudadas cianobactérias e algas verdes que têm a capacidade de usar a energia solar para obter hidrogênio de água.</p>
<p>O progresso técnico não é uma panaceia que resolve todos os problemas da humanidade.  Um talotimismo epistemológico seria descabido. Tampouco convém subestimar o papel da pesquisa tecnológica, deixando-se ir a um pessimismo desmobilizador diante da ameaça de mudanças climáticas deletérias.  O importante é fazer com que o progresso técnico caminhe de mãos dadas com a organização social apropriada dos processos produtivos, de modo a enfrentar simultaneamente os desafios da mudança climática e das desigualdades abissais na distribuição da renda.</p>
<p>*Ecossocioeconomista da École des Houtes Études en Sciences Sociales</p>
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		<title>Labirintos urbanos</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Jun 2009 16:27:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A Polaroid SX-70 é um tipo de câmera em extinção.  Poucos aficionados tratam de perpetuar o uso desta técnica que revela a fotografia instantânea, sem interferências posteriores.  A antiga forma de registro foi a opção do fotógrafo Marcelo Pallotta para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A Polaroid SX-70 é um tipo de câmera em extinção.  Poucos aficionados tratam de perpetuar o uso desta técnica que revela a fotografia instantânea, sem interferências posteriores.  A antiga forma de registro foi a opção do fotógrafo Marcelo Pallotta para este ensaio.  As pessoas e suas dúvidas, situações e problemas, em labirintos pela cidade de São Paulo.  “Meu foco era a interação das pinturas e grafites com os transeuntes, e o que surpreende é que o material tenha uma carga dramática, mas também um espírito leve, de alguma esperança.  Acho que o confronto ilustra nosso momento, de dúvidas e busca de alternativas diante de uma crise econômica”.  A série com os sem-teto foi produzida durante dois anos, e as espirais e interrogações foram realizadas sem que o quadro fosse forjado.  A técnica arcaica que resulta em borrão e pouca precisão vai ao encontro do tema – interrogação, dúvida, a vida na rua.</p>
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		<title>Falso dilema</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Jun 2009 19:43:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>P22</dc:creator>
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		<description><![CDATA[No âmbito da Convenção do Clima, o Brasil deve defender uma posição por mecanismos de compensação para redução de emissões de desmatamento
Por Mario Monzoni*
Na edição de maio de Página22, apresentei um breve histórico da discussão sobre florestas e clima no [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>No âmbito da Convenção do Clima, o Brasil deve defender uma posição por mecanismos de compensação para redução de emissões de desmatamento</em></p>
<p>Por Mario Monzoni*</p>
<p>Na edição de maio de Página22, apresentei um breve histórico da discussão sobre florestas e clima no Brasil.  A notícia é que hoje não se discute mais &#8220;se&#8221; o tema desmatamento entrará nos mecanismos propostos pela Convenção do Clima, mas &#8220;como&#8221; eles se darão.  Neste artigo, gostaria de iniciar a discussão a respeito das alternativas do &#8220;como&#8221;.</p>
<p>O debate começa sobre a análise de cenários desenhados para as emissões globais e envolve a premissa de que o aumento médio da temperatura não pode passar de 2 graus Celsius, limite a partir do qualos modelos predizem implicações mais do que sérias para a qualidade de vida no planeta.</p>
<p>Segundo relatório produzido pela empresa de consultoria McKinsey [1], em 2005, foram emitidas cerca de 45 gigatoneladas (GT) de CO2e (dióxido de carbono equivalente).  Em cenário business as usual, a McKinsey estima que as emissões globais devem alcançar 61 GT de CO2e, em 2020.  Para um aumento de temperatura máximo desejável de 2 graus Celsius, no entanto, as emissões em 2020 não poderiam ser superiores a 44 GT de CO2e, ou seja, uma necessidade de redução da ordem de 17 GT de CO2.</p>
<p>Mesmo assumindo que os países se proponham, para um segundo período de comprometimento, a reduzir suas emissões em 40% em relação ao praticado em 1990 (compromisso bastante otimista, uma vez que o acordado em Kyoto foi de 5,2%), estima-se que ainda faltarão cerca de 8 GT de CO2e a ser reduzidas.</p>
<p>Aí é que entra a discussão sobre o papel das reduções de emissões de desmatamento tropical, no âmbito da Convenção e, em especial, perante a posição oficial brasileira.  O problema é que essa questão tem sido &#8220;vendida&#8221; como um dilema, ou um falso dilema, no meu entender: temos de escolher entre tratar florestas por meio de mecanismos voluntários ou de um mecanismo de compensação, por meio do qualos países desenvolvidos poderiam cumprir seus compromissos de redução de emissão.</p>
<p>Segundo versões oficiais, se optarmos pela compensação na Convenção do Clima, o valor do crédito para as florestas seria maior, mas comprometeríamos o regime climático do planeta, uma vez que não imporíamos aos países desenvolvidos obrigações de redução de emissão &#8211; os 8 GT que faltam &#8211; de combustíveis fósseis.</p>
<p>Por outro lado, se tratarmos reduções de desmatamento em um regime voluntário &#8211; portanto, fora da Convenção do Clima, o que parece ser a posição brasileira &#8211; &#8220;garantiríamos&#8221; a exigência de que países desenvolvidos cumprissem compromissos por meio de reduções de emissões de fósseis, ao mesmo tempo que evitaríamos o aumento superior a 2 graus Celsius. Como efeito colateral, essa alternativa reduziria a demanda de créditos provenientes de floresta e, por consequência, seu preço.</p>
<p>Em outras palavras, esse dilema é vendido assim: se não tratarmos floresta por meio de um regime voluntário, vamos comprometer o equilíbrio climático do planeta e as metas de 2 graus.</p>
<p>É um dilema de refém!  Em primeiro lugar, porque não será o tipo de mecanismo a ser adotado para florestas o grande responsável pela catástrofe climática.  Em segundo, uma pergunta: por que florestas entram por último nessa conta?  Por que não começamos os esforços de promoção do equilíbrio climático por redução de desmatamento?  Por que floresta continua discriminada?</p>
<p>O desmatamento tropical representa 20% das emissões globais de gases de efeito estufa.  Mais do que isso, com o aumento da temperatura, esse valor deve subir, uma vez que o processo de savanização comprometeria cada vez mais a função de sumidouro de carbono que as florestas exercem.  No Brasil, florestas- principalmente por meio do desmatamento amazônico &#8211; representam grande parte das emissões nacionais (dependendo da fonte de pesquisa, esse número varia de 55% a 75%).</p>
<p>Partindo da premissa de que, na margem, as emissões oriundas de fósseis devem crescer no Brasil, e o desmatamento amazônico desacelerar em acordo com as metas propostas pelo governo federal, esse percentual, segundo a McKinsey, pode cair para 43% em 2030.  Além disso, segundo a mesma fonte, a &#8220;eliminação do desmatamento até 2030 representa 72% das oportunidades brasileiras de abatimento&#8221;.</p>
<p>Não será por meio de mecanismos voluntários que vamos atingir essa meta e aproveitar a oportunidade de promover uma forte queda na taxa de desmatamento nos próximos 20 anos. É claro e evidente que a posição brasileira sobre emissões de desmatamento no âmbito da Convenção deve ser por um regime de compensação. Desmatar precisa ser muito caro!</p>
<p>E, se for necessário pagar caro para garantir que a elevação não ultrapasse 2 graus, que se busquem os meios. Quanto se gastou para resgatar a economia de uma crise cíclica do capitalismo?  Por que não se pode investir um décimo disso para evitar o maior problema ambiental da história da humanidade?</p>
<p>*Coordenador do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas</p>
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		<title>Fala, leitor</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Jun 2009 19:57:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>P22</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Histórias e ideias de quem lê Página 22
&#8220;Vamos fazer uma conversa circular, como se fosse num bar, e ver o que acontece?&#8221;, propôs Ana Carla Fonseca Reis, assim que se deparou com o roteiro de perguntas da repórter. Uma das [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Histórias e ideias de quem lê Página 22</p>
<p>&#8220;Vamos fazer uma conversa circular, como se fosse num bar, e ver o que acontece?&#8221;, propôs Ana Carla Fonseca Reis, assim que se deparou com o roteiro de perguntas da repórter. Uma das pioneiras no campo da economia criativa no Brasil, é fácil perceber que Ana Carla não gosta de categorias, limites e caixas separadas.</p>
<p>Quando iniciou sua formação nos cursos de Economia e Administração Pública (USP e FGV ), escolheu trabalhar na cinemateca de São Paulo, o que causava estranhamento tanto entre os colegas de trabalho quanto os de faculdade. Passou por agências de publicidade e grandes empresas, sempre buscando entender as maneiras de transformar os saberes e intenções culturais em ativos econômicos e como aproximar os mundos de artistas e empresários.</p>
<p>Professora de MBA em bens culturais da FGV , consultora da ONU para economia criativa, e dona da empresa de consultoria Garimpo de Soluções, Ana Carla está convencida de que a singularidade cultural dos povos, especialmente no Brasil, é uma das chaves para o desenvolvimento sustentável.</p>
<p>Seu livro Economia da Cultura e Desenvolvimento Sustentável amealhou o cobiçado Prêmio Jabuti em 2007.  &#8220;Tem os investimentos e as politicas de cultura e os de meio ambiente. Sempre separados. Não precisa ser assim&#8221;, diz Ana Carla.  Para ela, uma indústria da biodiversidade teria muito a ganhar se fosse incorporado o valor pelo modo de vida e de produção das comunidades tradicionais.</p>
<p>Para ilustrar a ideia, ela cita o exemplo do setor de moda, maior empregador de mão de obra feminina no Brasil, em comparação com o mesmo setor na Argentina, devastado pela concorrência chinesa.  &#8220;Um chinês pode perfeitamente fabricar uma camisa branca. Mas pode fazer um biquíni brasileiro?&#8221; Não há quem não duvide.</p>
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		<title>O verde valorizou o muro</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Jun 2009 19:54:09 +0000</pubDate>
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Uma experiência surgida em Lyon, na França, chega ao Brasil este ano com promessa de fornecer isolamento acústico e térmico, absorção de gases poluentes no entorno em até 50% e melhora na qualidade de vida nas grandes [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Por Ana Cristina D&#8217;Angelo</p>
<p>Uma experiência surgida em Lyon, na França, chega ao Brasil este ano com promessa de fornecer isolamento acústico e térmico, absorção de gases poluentes no entorno em até 50% e melhora na qualidade de vida nas grandes cidades. A tecnologia do muro vegetal foi desenvolvida pelo ambientalista e empresário francês Pascal Peleszezak e aplicada em diversos países europeus, em lojas, espaços públicos e edifícios. Peleszezak foi convidado pelo secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo, Eduardo Jorge, para implantar um muro despoluentel em um corredor de alta passagem da capital paulista, possivelmente a avenida Radial Leste. O primeiro contrato para um muro vegetal brasileiro, no entanto, foi firmado em Belo Horizonte, encomenda de um centro cultural privado.</p>
<p>O maior segredo que Peleszezak ainda esconde é a água. O muro é instalado em módulos na fachada de prédios, áreas internas ou em corredores urbanos e sua vegetação deve ser podada uma vez ao ano, mas não requer um sistema de irrigação.</p>
<p>O que ele revela é que as raízes das plantas cuidam do trabalho sujo: absorver os gases poluentes e oferecer um ambiente mais saudável.  Veja a seguir trechos da entrevista concedida pelo ambientalista em São Paulo.</p>
<p>Um muro vegetal substitui árvores?  Acho que eles se complementam. Mas o muro tem qualidades que uma árvore não tem.  Ele proporciona isolamento acústico e térmico, além de ser despoluente.  Protege tanto o imóvel em que está instalado quanto melhora a qualidade do ar da rua.</p>
<p>O senhor diz que também pode haver economia de energia.  Graças à proteção térmica, vamos consumir bem menos energia no interior do edifício (com ar condicionado).  Aqui no Brasil vocês consomem 500 kilowatts por metro quadrado ao ano.  Com o muro e outras iniciativas do poder público, como praças e plantio de árvores, pode-se chegar a 80 kilowatts por metro quadrado.  A ideia é fazer corredores de muros vegetais, avenidas cobertas de verde.</p>
<p>Como foi desenvolvida a tecnologia?  Eu desenvolvi o conceito do muro vegetal, mas o produto é uma mistura de muitas ideias.  Nos anos 70 e 80, um cientista americano começou a trabalhar a despoluição por meio das plantas, porque queria melhorar a qualidade do ar nos submarinos.</p>
<p>Ele estudou as espécies que &#8220;restauravam&#8221; o ar, as que mais contribuíam para a sua despoluição.  Minha tecnologia consiste em despoluir pela raiz das plantas, pela terra.  Existe, portanto, uma dupla despoluição com o muro: a da terra e a da planta.  A planta fixa o CO2 e a raiz tem bactérias que capturam o ar poluído.  As bactérias morrem e as raízes vão absorver o resíduo da poluição.  Existem vários tipos de poluição e também cerca de mil bactérias diferentes para se estudar.</p>
<p>Qual o custo de implantação e manutenção dos muros vegetais?  Eu faço um produto durável, quero criar muitos empregos e vou estabelecer um preço de acordo com a mão de obra brasileira.  Não é a exportação de um modelo de fora.  Eu trabalho com as plantas locais.  Um paisagista é chamado para fazer a adequação do projeto em cada lugar.  Existem vários tipos de muros, de 800 euros o metro quadrado, caso em que o muro vegetal é quase uma obra de arte, até outros mais baratos.  A manutenção é feita uma vez por ano, quando um jardineiro poda as plantas.</p>
<p>E quanto à irrigação?  A água é a minha tecnologia, o segredo do muro vegetal.</p>
<p>Os seus projetos estão todos aplicados na Europa.  Agora é a vez da América Latina? Sim. O primeiro muro deverá ser implantado em Belo Horizonte, em um espaço cultural privado. A ideia é criar uma filial aqui no Brasil em parceria com um sócio local e desenvolver projetos em outras cidades, como São Paulo.</p>
<p>O senhor já caminhou por São Paulo, observou o ambiente urbano para saber que tipo de muro vegetal seria adequado? Faltam 5 metros quadrados de verde por habitante em São Paulo. Eu quero esfriar e purificar a cidade por meio de corredores, grandes eixos de muros, fachadas e telhados.</p>
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