A febre do carbono neutro

A sociedade adere em peso à compensação de emissões, mas até que ponto está disposta a mudar comportamentos

O aquecimento global caiu na boca do povo.  Se devido à percepção de que o clima anda mais extremo ou graças a eventos politicamente importantes, como o Relatório Stern — que, assinado pelo economista britânico Nicholas Stern, estima prejuízos da ordem de 20% do PIB global em conseqüência das mudanças climáticas —, é difícil apontar.  Mas o resultado é que cada vez mais empresas e indivíduos começam a se mexer para compensar sua participação nas emissões de gases causadores do efeito estufa.  Está criada a nova febre: a do carbono neutro.

Em termos de popularidade, o carbono neutro é nota 10, tanto que a expressão foi eleita a palavra do ano de 2006 pelo tradicional Dicionário Oxford.  Mas, quanto à efi cácia para aliviar o aquecimento global, é preciso lembrar que nem todas as empresas e pessoas terão incentivos econômicos para neutralizar suas emissões.  E que, em um mundo que aspira ao crescimento econômico, é importante mudar comportamentos, os padrões de produção e consumo — principalmente o de combustíveis fósseis.

O mantra, de A a Z
Nos últimos dois anos o tema do aquecimento global tornou-se cada vez mais freqüente na mídia mundial.  Pipocam notícias sobre idosos e crianças morrendo de calor na outrora fria Europa, ursos polares perecendo em meio ao gelo que derrete velozmente.  Os brasileiros aprenderam a relacionar a questão à seca na Amazônia, às enchentes no Sudeste e até mesmo a um inusitado furacão no Sul — o primeiro da história deste País abençoado por Deus, como dizia Jorge Ben nos idos dos anos 70, tempo em que poluição era sinônimo de progresso.  No século XXI não há mais espaço para dúvidas, alerta a imprensa escrita e televisada, o clima está mudando e é preciso fazer algo a respeito.

A busca por uma solução salvadora já elegeu a neutralização de emissões como mantra.  Os programas de neutralização voluntária de emissões de gases de efeito estufa se disseminam rapidamente pelo mundo, oferecendo, em sua maioria, o plantio de árvores para o seqüestro de gases em quantidade sufi ciente para compensar o volume emitido por determinada atividade.

Desde iniciativas de grupos de músicos para zerar as emissões geradas em suas apresentações até as da Copa do Mundo da Alemanha, em 2006, e a previsão de neutralização de gases nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, vários eventos ajudam a popularizar o chamado carbono neutro.  As empresas não deixam por menos.

A lista de companhias que declaram esforços para compensar suas emissões é crescente e conta com Honda, Toyota, Ricoh, o jornal The Guardian, Avis, British Petroleum, entre outras.  Em 2005, o banco HSBC comprou créditos correspondentes a 170 mil toneladas de carbono equivalente para neutralizar as emissões de suas unidades em todo o planeta, inclusive no Brasil.

A montadora japonesa Mazda se comprometeu a plantar cinco árvores por unidade vendida de seu modelo Demio e, desde 1998, neutraliza as emissões geradas com sua participação em feiras de automóveis.  A British Airways oferece aos passageiros a possibilidade de neutralizar a viagem, o que signifi ca um adicional no custo da passagem.  A Tesco, principal cadeia britânica de supermercados, em uma atitude pioneira no mundo, incluiu em cerca de 70 mil produtos informações sobre a quantidade de carbono emitida na produção.

A profusão de exemplos inclui empresas brasileiras como os bancos Bradesco e ABN Amro, a concessionária de veículos paulista Primo Rossi, a Volkswagen Caminhões, o portal de internet iG, as rádios Alpha FM e 89 FM.  A moda pegou até no mundo da moda: a São Paulo Fashion Week, principal evento do setor realizado em São Paulo no fim de janeiro, anunciou ter neutralizado as emissões por meio do plantio de 4.290 árvores de mais de 80 espécies nativas em uma área degradada da Mata Atlântica.

O mal pela metade
Novos casos não param de aparecer na mídia.  Quem lê tanta notícia e tenta avaliar o tamanho da febre tem a impressão de que foi descoberta a “cura” para o mal que aflige o planeta.  Basta cada um neutralizar suas emissões e o problema do aquecimento global estará resolvido.  Simples assim?  Nem tanto.

“Teoricamente, se todas as empresas e pessoas neutralizassem suas emissões, isso seria a cura; o problema prático é que nem todos tentarão, por questões econômicas e políticas”, diz o astrofísico Luiz Gylvan Meira Filho, do Instituto de Estudos Avançados da USP.  “O fato é que o planeta precisa cortar suas emissões em 50% até 2050. A questão é como fazê-lo em um mundo em que a China cresce 10% ao ano e que boa parte dos países aspira crescer, ter acesso a comodidades modernas.”

Apenas um dado, o do consumo global de energia, permite vislumbrar a disposição do mundo, especialmente da Ásia, em continuar buscando o crescimento movido a combustível fóssil.

Em seu Panorama Energético Mundial, de 2006, divulgado em novembro, a Agência Internacional de Energia prevê que o uso do carvão, considerado o combustível mais “sujo” do planeta, aumentará em 32% até 2015 e 59% até 2030 — e 86% da demanda vêm da Ásia.  Um desastre anunciado, considerando-se as necessidades de redução e o poder poluidor desse combustível.

Para o professor Meira Filho, o desafio é encontrar um sistema que englobe todos os países de forma coordenada.  “Pode ser com incentivo, com penalidade, uma junção das duas coisas, mas não tenho dúvidas de que virá uma regulamentação mais rigorosa relativa à questão climática e que alcançará todas as regiões do mundo”, afirma.

Uma nova realidade
Não se podem ignorar as pressões para que o combate ao aquecimento global inclua— por meio de metas nacionais para redução das emissões no segundo período de compromisso do Protocolo de Kyoto, após 2012 — não só os Estados Unidos, mas economias emergentes como China, Índia, Brasil, México e África do Sul, diz Fernando Giachini Lopes, diretor da Key Associados, uma consultoria da área ambiental que oferece serviços de neutralização no Brasil.  “Nada impede que o que acontece com as empresas européias venha a ocorrer com as brasileiras em um futuro não muito distante”, alerta.

Hoje, cerca de 12 mil companhias do continente europeu têm metas de redução de emissões e, destas, cerca de 70% são do setor de energia.  No balanço financeiro dessas companhias existe uma linha dedicada à despesa com a compra de créditos de carbono ou a receita com a venda de seus excedentes, o que pode acabar ajudando na própria gestão da empresa.  “A neutralização tem sido buscada como uma estratégia de marketing, porém, se bem-feito, o inventário das emissões é uma importante ferramenta de análise de risco e planejamento para as empresas”, afirma Giachini.

Foi justamente como estratégia de marketing empresarial que a onda da neutralização de carbono chegou ao Brasil, pela mão das consultorias especializadas em soluções ambientais.  A idéia acabou caindo no gosto dos indivíduos, em um caminho inverso ao que ocorreu na Europa, por exemplo.

“Empresas começaram a desenvolver programas de neutralização de carbono para atender a demanda do cidadão médio, em geral alguém com certa reserva de capital e consciência ambiental suficiente para aderir”, conta o consultor Francisco Maciel, referindo-se à Europa.  As neutralizações ganharam força após as cerca de 20 mil mortes ocorridas devido ao excesso de calor em alguns países do continente no verão de 2003.

Maciel faz parte da Iniciativa Verde, organização não governamental que trabalha exclusivamente com projetos de neutralização por meio do plantio de árvores nativas.  Um de seus primeiros trabalhos foi a neutralização da Oitava Conferência das Partes da Convenção da Diversidade Biológica, realizada em março de 2006, em Curitiba.

Além de calcular a quantidade de gases de efeito estufa emitida por pessoas ou empresas, a Iniciativa Verde garante que consegue neutralizar todo o ciclo de vida de produtos consumidos.  Ao final do processo, emite um selo para que o cliente possa mostrar ao mundo sua neutralização.  O processo da Iniciativa Verde não prevê auditoria, etapa desnecessária na visão de Maciel, porque a metodologia está disponível no site da ONG, para ser conferida e, até mesmo, copiada.

Todo cuidado é pouco
Mas há quem não abra mão das auditorias para verificar se a aplicação dos recursos de um cliente que contratou a neutralização está sendo feita conforme o contrato.  Um dos riscos nesse mercado — novo e não regulamentado — é pagar pelo plantio de árvores que jamais serão semeadas.  O prejuízo, nesse caso, é duplo: do cliente e do esforço global para equilibrar a quantidade de carbono na atmosfera.

Giachini, da Key Associados, diz que o cuidado “deve começar com o levantamento do inventário de emissões” e o ideal é seguir normas como a ISO 14064, que padroniza os procedimentos de contabilidade de gases de efeito estufa para fins de redução de emissões ou negociação com créditos de carbono.

Outra pergunta que ronda os envolvidos nesse mercado nascente é se haverá espaço para tanta árvore.  Francisco Maciel cita dados da Secretaria do Meio Ambiente de São Paulo, segundo a qual existem no Estado cerca de 1 milhão de hectares de Áreas de Preservação Permanente a ser recuperados, o suficiente para acolher mais de 1,5 bilhão de mudas.

Para Adauto Basílio, diretor de captação de recursos da SOS Mata Atlântica, as áreas para plantio existem, precisam de recuperação, mas não estão disponíveis em razão da falta de consciência dos proprietários rurais.  “A maioria ignora a lei que exige a manutenção de uma reserva legal de 20% e a criação de áreas de proteção permanente para preservar matas ciliares e encostas.  Temos fotografias com cenas impressionantes, como o cultivo de cana de açúcar ou soja no barranco dos rios”.

A batalha hoje é pela ampliação das áreas disponíveis a fim de que todos os projetos tenham lugar.  “Estamos iniciando um movimento para que o Estado fiscalize com maior rigor e faça a lei ser cumprida”, diz Basílio.

A febre da neutralização trouxe um reforço ao projeto Florestas do Futuro, iniciado em 2003 pela SOS Mata Atlântica para a recuperação das matas ciliares.  “Nossa principal preocupação é com a água, mas a floresta nos presta outro serviço ambiental, o seqüestro de carbono”, afirma.  “Assim, surgiu a oportunidade de ligar o assunto água com a questão do aquecimento global.”

Já a dúvida de Maciel diz respeito à continuidade da disposição das empresas em despender recursos com projetos de neutralização.  Em geral, elas adotam esse tipo de programa por um destes três motivos: querem associar sua marca a um selo; porque o concorrente aderiu; ou têm consciência de que a atitude é necessária.

No último caso, a verba é a mesma destinada a programas assistencialistas e normalmente é pequena.  Nas duas primeiras hipóteses, depende do valor agregado pelo selo ao produto de cada empresa.  “Torna-se uma questão comercial, aí a verba é definida pelo departamento de marketing”, conta Maciel.

Ainda assim, a demanda de empresas interessadas em neutralizar suas emissões por meio de projetos de reflorestamento de mata nativa é grande e inverteu a relação com as ONGs, na visão de Basílio.  “Há cinco anos, éramos chamados de ecochatos e atendidos com má vontade.  Hoje é muito fácil falar com as companhias; na verdade, são elas que nos procuram”, afirma.  “A preocupação com a responsabilidade social e a questão de imagem avançou muito nas empresas, o que facilita a captação de recursos para esses projetos”.

E o paradigma?
A impressionante adesão à neutralização de carbono por meio do plantio de árvores por empresas e indivíduos aponta um caminho possível para lidar com as mudanças climáticas, mas não pode ser o único, pois não altera os paradigmas de produção, consumo e principalmente o comportamento de cada um.

Formas voluntárias de compensar as emissões de gases de efeito estufa devidas a atividades humanas, ainda que com intenções de marketing, são sementes para mudanças mais efetivas, acredita Paulo Braga, da Max Ambiental.  “Quando uma empresa ou pessoa faz uma mudança como esta por uma motivação econômica, acaba desenvolvendo uma nova consciência.” Ele cita a reciclagem.  “Há 15 anos no Brasil não se falava em reciclagem e hoje muita gente separa o lixo.”

O professor Gylvan Meira Filho afirma que o desenvolvimento econômico sem destruir o planeta é plenamente possível.  “Um mundo com restrição de emissões não é necessariamente um mundo ruim para todos.”

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