Um plano para o etanol

Por Flavio Lobo
PÁGINA 22: O que o Brasil deve fazer de mais urgente na área de biocombustíveis?
Roberto Rodrigues: Em primeiro lugar, há oito ministérios cuidando de agroenergia no Brasil.  Por isso, pedi ao presidente que tivéssemos um comitê de agroenergia: para definir uma linha para o País.  Porque cada ministro diz uma coisa.  Falam para vendermos etanol, e nós não temos etanol para vender.  Oitenta e cinco por cento dos carros feitos no Brasil são flexfuel.  O Brasil consome hoje praticamente 15 bilhões de litros de etanol por ano, e estamos crescendo.  Vamos precisar de mais 12 bilhões de litros só para o mercado interno, quase outro projeto como o que temos hoje.  Então não adianta falar muito em exportar álcool agora.  Precisamos mandar fazer um projeto com zoneamento ecológico, agrícola, e definir regras.  A partir daí, investir para valer, definir o que é para o mercado interno, o que é para o externo, como vai ser a logística etc. Curiosamente, o projeto brasileiro de agroenergia está mais claro em relação ao biodiesel, que ainda tem um potencial menor.
22: E em relação à corrida tecnológica, corremos o risco de ficar para trás?
RR: Este ano os americanos vão gastar 1,6 bilhão de dólares só em pesquisa de matérias-primas para o etanol.  E vão avançar, não só em relação à celulose.  Temos aqui a melhor indústria de etanol do mundo e a melhor matéria-prima, a cana-de-açúcar.  Só que tecnologia é uma coisa dinâmica, se você não investe, e tem outro que investe, daqui a pouco você não é mais o melhor.  Sem tecnologia, vamos perder o trem da história na questão da agroenergia.  Acho uma pena que fiquemos pra trás, tendo o menor custo de produção do planeta, disparado, com uma grandeza territorial agricultável incomparável, com sol o ano inteiro, com água, e, sobretudo, com gente competente para fazer.  Quando ministro, fiz dois esforços grandes, que funcionaram.  O primeiro foi a montagem de um Pólo de Biocombustível, na Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), que está funcionando e tem como objetivo principal mapear o cenário do biocombustível no Brasil.  O segundo foi criar um Centro de Agroenergia na Embrapa, que demorou, por causa da burocracia, mas foi instalado agora, no fim do ano.
22: A expansão da área da cultura de cana é polêmica.  Como o senhor vê essa discussão?
RR: É preciso esclarecer alguns aspectos fundamentais.  Por exemplo: qual o melhor lugar pra plantar cana?  No Agreste pernambucano não dá cana.  Cana é um canudo cheio d’água doce.  Tem que ter água no solo para aquele canudo crescer.  Chega uma hora em que ele pára de crescer, fica maduro, você corta e produz açúcar ou álcool.  A questão essencial não é mais só qualidade do solo, mas o clima.  Dizem que o Brasil vai plantar cana na Amazônia.  Não há tolice maior do que essa, porque na Amazônia chove todos os dias.  A cana tem um período de crescimento.  E um de amadurecimento, em que não pode chover.
22: A Inglaterra, por exemplo, tem uma regulamentação que não permite que se compre álcool do Brasil porque a cultura de cana produziria desmatamento da Amazônia.
RR: É de uma estupidez bárbara, que pode acontecer por má-fé ou até por ignorância bem-intencionada.  Mas, voltando ao que Brasil deveria fazer para aproveitar o seu potencial, outro ponto fundamental é ter gente preparada.  Sobretudo porque há uma explosão de demanda.  Temos hoje cerca de 300 usinas no Brasil e 150 projetadas ou sendo instaladas.  Mas não há gente suficiente sendo bem formada para trabalhar nisso.  Razão pela qual estamos criando, aqui na FGV, um MBA em agroenergia, composto com a escola de Piracicaba (Esalq) e a Embrapa, no qual vamos entrar com a tecnologia de gestão, a escola de Piracicaba, com o viés agronômico e a Embrapa, com o tecnológico.  É um MBA que pretendo transformar em um MIT de agroenergia.  Porque precisamos não só vender álcool para o resto do mundo, mas vender usinas, carro flexfuel, inteligência, tecnologia, valor agregado.  Temos de formar gente pra ir lá fora ensinar a plantar cana, fazer usina de álcool… Só assim nós vamos “commoditizar” o produto.
22: Como se transforma o etanol ou outro biocombustível em commodity?
RR: Devemos ter parâmetros de caracterização do etanol.  Já estamos perdendo o trem do biodiesel, porque a Alemanha está fazendo a parametrização técnica do biodiesel de canola deles e, se o mundo adotar o padrão da Alemanha, também teremos de fazer biodiesel nesse padrão.  Por isso, temos de fazer logo o padrão do etanol, antes que uma África do Sul, por exemplo, faça.  Teremos a liderança do processo tendo clareza de que não podemos ser o único produtor de etanol do mundo, o único a exportar.  Se não houver vários produtores que garantam concorrência e estabilidade de oferta, também não haverá um grande mercado importador.
22: Quanto etanol o Brasil pode produzir de forma sustentável?
RR: Hoje temos 62 milhões de hectares agricultados, com todos os produtos agrícolas, sendo 6 milhões de cana, dos quais 3 produzem açúcar e 3 etanol.  Grosso modo, temos 3 milhões de hectares produzindo 15 bilhões de litros de etanol por ano.  E temos 200 milhões de hectares de pastagens dos quais 90 milhões são aptos para agricultura tropical, por terem clima e topografia adequados, relevo etc. Desses, 22 milhões são aptos para cana.  Usando esse potencial, podemos multiplicar por oito a produção de cana para etanol e produzir 120 bilhões de litros de etanol por ano.  Mas, na verdade, podemos produzir muito mais, porque em dez anos dobraremos a produção de etanol por hectare, por várias técnicas agrícolas, por variedades de cana transformada, novos mecanismos de adubação, produção rotacionada, uso da palha e do bagaço como matéria-prima, aperfeiçoamento do processo de extração do álcool, e assim por diante.  Se temos hoje 3 milhões de hectares produzindo 15 bilhões de litros, em dez anos faremos 30 bilhões de litros com a mesma área plantada.  Portanto, se cultivarmos mais 20 milhões de hectares, teremos 200 bilhões de litros.
22: Há quem diga que o aumento da área das lavouras de cana resultaria em escassez ou encarecimento dos alimentos.  O senhor identifica esse risco?
RR: Não há estupidez maior do que essa.  Temos 90 milhões de hectares agricultáveis e mais 62 milhões de hectares agricultados.  Uma vez e meia a área agricultável sobre a agricultada.  E temos uma produtividade baixa, ainda, para a maior parte dos produtos agrícolas.  Então nós podemos, ao mesmo tempo, aumentar muito a área da cana e triplicar a produção de alimentos.  É uma bobagem achar que a agroenergia vai atrapalhar a produção de alimentos.  Como dizer que vamos plantar álcool na Amazônia.  O picareta inventa uma coisa e o idealista pouco informado enxerga naquilo uma verdade.
22: E quanto à distribuição de renda e aos pequenos agricultores, uma indústria de etanol do porte que o senhor projeta atenderia a esses interesses?
RR: É importante e saudável que haja regras.  A cadeia produtiva da cana é afetada pelo fato de não haver efetivamente um mercado.  O produtor não tem como mandar o produto para longe, pois a cana é muito barata e o custo do transporte não compensa.  Portanto o produtor de cana é como um operário do dono da usina.  Ele recebe um salário, que é o preço da cana.  O dono da usina arbitra, resolve o quanto vai pagar.  É tão sério, que Barbosa Lima Sobrinho, nos anos 40, instituiu o estatuto da lavoura canavieira, o primeiro instrumento jurídico do planeta a usar o conceito de cadeia produtiva.  Sabendo que esse era um setor em que havia um desequilíbrio econômico a favor do lado industrial, ele estabeleceu regras.  A usina só poderia produzir 50% da sua cana, sendo os outros 50% produzidos por agricultores autônomos.  O estatuto estabeleceu também que toda tonelada de cana, ou de açúcar, teria desconto de 1% ou 1,5%, dependendo das circunstâncias, que seria obrigatoriamente investido em saúde e educação para o trabalhador.  Todas as usinas e cooperativas de produtores foram obrigadas a criar mecanismos de assistência a saúde e educação para seus funcionários.  Quem extinguiu o estatuto da cana e gerou caos no setor foi o Collor.
22: Que modelo de organização produtiva o senhor considera que atenderia às necessidades industriais e sociais?  RR: Vou dar um exemplo.  Outro dia recebi um investidor que queria comprar 50 mil hectares para produzir cana.  Propus que comprasse apenas 500 hectares para montar uma usina, em volta do qual existirá 50 mil ou 60 mil hectares de terras de pequenos proprietários.  Eu me propus a conversar com essas pessoas para montar um programa de produção de cana, em que o dono da usina não pagaria um preço arbitrado pela tonelada de cana, mas sim pelo preço do etanol.  Então, suponhamos que a cana vale 65% do custo do etanol.  O produtor vai receber 60% do preço do etanol.  De maneira que quem planta é parceiro não do empreendimento do investidor, mas do resultado dele.  Então, é um contrato de risco por, digamos, 20 anos, que é muito mais equilibrado.  Se alguém perder, perdem todos, e, se ganhar, ganham todos.
Por Flavio Lobo
PÁGINA 22: O que o Brasil deve fazer de mais urgente na área de biocombustíveis?
Roberto Rodrigues: Em primeiro lugar, há oito ministérios cuidando de agroenergia no Brasil.  Por isso, pedi ao presidente que tivéssemos um comitê de agroenergia: para definir uma linha para o País.  Porque cada ministro diz uma coisa.  Falam para vendermos etanol, e nós não temos etanol para vender.  Oitenta e cinco por cento dos carros feitos no Brasil são flexfuel.  O Brasil consome hoje praticamente 15 bilhões de litros de etanol por ano, e estamos crescendo.  Vamos precisar de mais 12 bilhões de litros só para o mercado interno, quase outro projeto como o que temos hoje.  Então não adianta falar muito em exportar álcool agora.  Precisamos mandar fazer um projeto com zoneamento ecológico, agrícola, e definir regras.  A partir daí, investir para valer, definir o que é para o mercado interno, o que é para o externo, como vai ser a logística etc. Curiosamente, o projeto brasileiro de agroenergia está mais claro em relação ao biodiesel, que ainda tem um potencial menor.
22: E em relação à corrida tecnológica, corremos o risco de ficar para trás?
RR: Este ano os americanos vão gastar 1,6 bilhão de dólares só em pesquisa de matérias-primas para o etanol.  E vão avançar, não só em relação à celulose.  Temos aqui a melhor indústria de etanol do mundo e a melhor matéria-prima, a cana-de-açúcar.  Só que tecnologia é uma coisa dinâmica, se você não investe, e tem outro que investe, daqui a pouco você não é mais o melhor.  Sem tecnologia, vamos perder o trem da história na questão da agroenergia.  Acho uma pena que fiquemos pra trás, tendo o menor custo de produção do planeta, disparado, com uma grandeza territorial agricultável incomparável, com sol o ano inteiro, com água, e, sobretudo, com gente competente para fazer.  Quando ministro, fiz dois esforços grandes, que funcionaram.  O primeiro foi a montagem de um Pólo de Biocombustível, na Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), que está funcionando e tem como objetivo principal mapear o cenário do biocombustível no Brasil.  O segundo foi criar um Centro de Agroenergia na Embrapa, que demorou, por causa da burocracia, mas foi instalado agora, no fim do ano.
22: A expansão da área da cultura de cana é polêmica.  Como o senhor vê essa discussão?
RR: É preciso esclarecer alguns aspectos fundamentais.  Por exemplo: qual o melhor lugar pra plantar cana?  No Agreste pernambucano não dá cana.  Cana é um canudo cheio d’água doce.  Tem que ter água no solo para aquele canudo crescer.  Chega uma hora em que ele pára de crescer, fica maduro, você corta e produz açúcar ou álcool.  A questão essencial não é mais só qualidade do solo, mas o clima.  Dizem que o Brasil vai plantar cana na Amazônia.  Não há tolice maior do que essa, porque na Amazônia chove todos os dias.  A cana tem um período de crescimento.  E um de amadurecimento, em que não pode chover.
22: A Inglaterra, por exemplo, tem uma regulamentação que não permite que se compre álcool do Brasil porque a cultura de cana produziria desmatamento da Amazônia.
RR: É de uma estupidez bárbara, que pode acontecer por má-fé ou até por ignorância bem-intencionada.  Mas, voltando ao que Brasil deveria fazer para aproveitar o seu potencial, outro ponto fundamental é ter gente preparada.  Sobretudo porque há uma explosão de demanda.  Temos hoje cerca de 300 usinas no Brasil e 150 projetadas ou sendo instaladas.  Mas não há gente suficiente sendo bem formada para trabalhar nisso.  Razão pela qual estamos criando, aqui na FGV, um MBA em agroenergia, composto com a escola de Piracicaba (Esalq) e a Embrapa, no qual vamos entrar com a tecnologia de gestão, a escola de Piracicaba, com o viés agronômico e a Embrapa, com o tecnológico.  É um MBA que pretendo transformar em um MIT de agroenergia.  Porque precisamos não só vender álcool para o resto do mundo, mas vender usinas, carro flexfuel, inteligência, tecnologia, valor agregado.  Temos de formar gente pra ir lá fora ensinar a plantar cana, fazer usina de álcool… Só assim nós vamos “commoditizar” o produto.
22: Como se transforma o etanol ou outro biocombustível em commodity?
RR: Devemos ter parâmetros de caracterização do etanol.  Já estamos perdendo o trem do biodiesel, porque a Alemanha está fazendo a parametrização técnica do biodiesel de canola deles e, se o mundo adotar o padrão da Alemanha, também teremos de fazer biodiesel nesse padrão.  Por isso, temos de fazer logo o padrão do etanol, antes que uma África do Sul, por exemplo, faça.  Teremos a liderança do processo tendo clareza de que não podemos ser o único produtor de etanol do mundo, o único a exportar.  Se não houver vários produtores que garantam concorrência e estabilidade de oferta, também não haverá um grande mercado importador.
22: Quanto etanol o Brasil pode produzir de forma sustentável?
RR: Hoje temos 62 milhões de hectares agricultados, com todos os produtos agrícolas, sendo 6 milhões de cana, dos quais 3 produzem açúcar e 3 etanol.  Grosso modo, temos 3 milhões de hectares produzindo 15 bilhões de litros de etanol por ano.  E temos 200 milhões de hectares de pastagens dos quais 90 milhões são aptos para agricultura tropical, por terem clima e topografia adequados, relevo etc. Desses, 22 milhões são aptos para cana.  Usando esse potencial, podemos multiplicar por oito a produção de cana para etanol e produzir 120 bilhões de litros de etanol por ano.  Mas, na verdade, podemos produzir muito mais, porque em dez anos dobraremos a produção de etanol por hectare, por várias técnicas agrícolas, por variedades de cana transformada, novos mecanismos de adubação, produção rotacionada, uso da palha e do bagaço como matéria-prima, aperfeiçoamento do processo de extração do álcool, e assim por diante.  Se temos hoje 3 milhões de hectares produzindo 15 bilhões de litros, em dez anos faremos 30 bilhões de litros com a mesma área plantada.  Portanto, se cultivarmos mais 20 milhões de hectares, teremos 200 bilhões de litros.
22: Há quem diga que o aumento da área das lavouras de cana resultaria em escassez ou encarecimento dos alimentos.  O senhor identifica esse risco?
RR: Não há estupidez maior do que essa.  Temos 90 milhões de hectares agricultáveis e mais 62 milhões de hectares agricultados.  Uma vez e meia a área agricultável sobre a agricultada.  E temos uma produtividade baixa, ainda, para a maior parte dos produtos agrícolas.  Então nós podemos, ao mesmo tempo, aumentar muito a área da cana e triplicar a produção de alimentos.  É uma bobagem achar que a agroenergia vai atrapalhar a produção de alimentos.  Como dizer que vamos plantar álcool na Amazônia.  O picareta inventa uma coisa e o idealista pouco informado enxerga naquilo uma verdade.
22: E quanto à distribuição de renda e aos pequenos agricultores, uma indústria de etanol do porte que o senhor projeta atenderia a esses interesses?
RR: É importante e saudável que haja regras.  A cadeia produtiva da cana é afetada pelo fato de não haver efetivamente um mercado.  O produtor não tem como mandar o produto para longe, pois a cana é muito barata e o custo do transporte não compensa.  Portanto o produtor de cana é como um operário do dono da usina.  Ele recebe um salário, que é o preço da cana.  O dono da usina arbitra, resolve o quanto vai pagar.  É tão sério, que Barbosa Lima Sobrinho, nos anos 40, instituiu o estatuto da lavoura canavieira, o primeiro instrumento jurídico do planeta a usar o conceito de cadeia produtiva.  Sabendo que esse era um setor em que havia um desequilíbrio econômico a favor do lado industrial, ele estabeleceu regras.  A usina só poderia produzir 50% da sua cana, sendo os outros 50% produzidos por agricultores autônomos.  O estatuto estabeleceu também que toda tonelada de cana, ou de açúcar, teria desconto de 1% ou 1,5%, dependendo das circunstâncias, que seria obrigatoriamente investido em saúde e educação para o trabalhador.  Todas as usinas e cooperativas de produtores foram obrigadas a criar mecanismos de assistência a saúde e educação para seus funcionários.  Quem extinguiu o estatuto da cana e gerou caos no setor foi o Collor.
22: Que modelo de organização produtiva o senhor considera que atenderia às necessidades industriais e sociais?  RR: Vou dar um exemplo.  Outro dia recebi um investidor que queria comprar 50 mil hectares para produzir cana.  Propus que comprasse apenas 500 hectares para montar uma usina, em volta do qual existirá 50 mil ou 60 mil hectares de terras de pequenos proprietários.  Eu me propus a conversar com essas pessoas para montar um programa de produção de cana, em que o dono da usina não pagaria um preço arbitrado pela tonelada de cana, mas sim pelo preço do etanol.  Então, suponhamos que a cana vale 65% do custo do etanol.  O produtor vai receber 60% do preço do etanol.  De maneira que quem planta é parceiro não do empreendimento do investidor, mas do resultado dele.  Então, é um contrato de risco por, digamos, 20 anos, que é muito mais equilibrado.  Se alguém perder, perdem todos, e, se ganhar, ganham todos.

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