Em busca da vocação natural

“É uma terra de suaves colinas e montanhas de contorno arredondado, com os flancos e os topos cobertos de pastagens (…). Os panoramas que se desdobram ao observador aéreo se parecem a imensos mapas em relevo, onde todos os pormenores da paisagem se destacam com absoluta nitidez.” Padre Balduíno Rambo, Fundamentos da Cultura Rio-Grandense
Por Aldem Bourscheit – Fotos: Edelweiss Bassis
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Na sua porção mais meridional, o Brasil perde as características tropicais e se espraia em verdejantes campos ondulados, onde o horizonte mergulha no chão e corre livre o gelado vento minuano.  Reconhecido como bioma em 2004, o Pampa cobre boa parte do Rio Grande do Sul e guarda enorme diversidade de animais, plantas e ecossistemas.  É uma pastagem natural das mais ricas do planeta, paisagem formadora de parcela da cultura e esteio histórico da economia gaúcha.
Moldado ao longo dos séculos pela mão da natureza e, mais tarde, pela pata do boi, o Pampa vê hoje na pecuária extensiva bem manejada e na criação urgente de novas áreas protegidas as suas chances de sobrevivência.
Assim como em outras regiões do País, o passado explica o presente e pode indicar caminhos para a conservação de riquezas naturais e culturais.
O gado chegou ao território gaúcho por meio das missões jesuíticas espanholas, destruídas por disputas territoriais entre Portugal e Espanha desde o século XVII. Com isso, o boi procurou as pastagens nativas, então mais altas e arbustivas.
Ao selecionar os pastos que mais lhe agradavam, a boiada não firmou apenas o churrasco e o pastoreio nas tradições locais: foi decisiva para consolidar a paisagem hoje dominada por campos.
Outra marca do Pampa, as grandes propriedades e suas estâncias, tem origem na distribuição de terras pela Coroa Portuguesa a famílias abastadas e militares.
“Antes caçado pela carne e couro, o gado foi aprisionado nas cercas dessas primeiras fazendas”, conta Pedro Bandeira, professor de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Com o surgimento dos rebanhos e a agricultura, as pastagens deixaram de ser vistas como uma região pobre e o Pampa atraiu colonos espanhóis, portugueses e europeus, além de indígenas e negros descendentes de escravos.  Desse caldo cultural surgiu o gaúcho.
Mas, apesar de enraizada na consolidação do estado e da cultura sulista, a agropecuária vem perdendo importância e hoje responde por apenas 10% do PIB estadual.  Os quase 15 milhões de bois têm gerado nos últimos anos menos de R$ 4 milhões.  São menos de R$ 0,30 por cabeça.
Com isso, o gado perde espaço para atividades mais intensivas, que trazem maior degradação às pastagens naturais e podem colocar em xeque a cultura pampeana.
Segundo o economista Sérgio Fischer, da Fundação Estadual de Economia e Estatística, as lavouras hoje ocupam mais espaço porque ganharam em tecnologia e produtividade.  “Isso é natural em economias desenvolvidas.  E também há migração da pecuária para o Centro-Oeste e Norte”, diz.  Nessas regiões, as terras são mais baratas na comparação com o Centro- Sul.  Está aí uma pista para a multiplicação dos bois na Amazônia.
Quando os primeiros colonos não indígenas chegaram ao território onde está hoje o Rio Grande do Sul, no século XVII, o Pampa cobria 63% ou 178 mil quilômetros quadrados do estado.  Os mapas oficiais limitam o bioma como era no passado, mas, nas últimas quatro décadas, 25% dos campos nativos gaúchos, ou 40 mil quilômetros quadrados, desapareceram, principalmente para dar lugar a lavouras de arroz e de soja.  A agricultura, o avanço de gramíneas exóticas introduzidas para alimentar os rebanhos e a ocupação de terras com largos plantios de eucalipto compõem um quadro preocupante.
“Se tal destruição ocorresse em qualquer outro lugar, seria escândalo internacional. O Greenpeace deveria estar ‘acorrentado’ por aqui também”, diz o pesquisador de ecossistemas pastoris Carlos Nabinger, da UFRGS.
O avanço da agropecuária deixou marcas diferentes no Sudoeste gaúcho.
Em municípios como Alegrete, Itaqui, Maçambará e Unistalda, areais e terrenos erodidos cobrem quase 40 quilômetros quadrados.  O fenômeno é natural, mas potencializado pela agricultura mecanizada, pela concentração de rebanhos e pelo uso de agrotóxicos.  A situação é tão grave que a região faz parte da lista nacional de locais suscetíveis à desertificação, mesmo que receba chuva em boa quantidade.
Em relação às gramíneas, aproximadamente 500 mil hectares, ou cerca de 3% do bioma, estão cobertos por capins africanos, como o anonni e a braquiária.  As espécies foram introduzidas no Rio Grande do Sul a partir dos anos 1960 para compor pastagens, mas sufocam os campos nativos e prejudicam a alimentação dos rebanhos.
Além disso, a partir de 2006, empresas do ramo de celulose “lotearam” o Pampa em três grandes regiões, para plantar, em cada uma, 100 mil hectares de eucaliptos – monocultura tida como a mais recente ameaça ao bioma.  Na visão de ambientalistas e do Ministério Público Federal, o zoneamento ecológico-econômico para cultivo dessas lavouras, feito com base no que resta de vegetação e nos locais mais ricos em biodiversidade, é desrespeitado pelo governo gaúcho.
“O governo federal manifestou ao Ministério Público que monoculturas não devem avançar em regiões conservadas do Pampa.  Em outras áreas do bioma, é precipreciso licenciamento dos órgãos ambientais”, diz o diretor de Mata Atlântica e Pampa do Ministério do Meio Ambiente Wigold Schäffer.  Mas a implantação dos eucaliptais tem apoio estatal e é vista como uma resposta rápida governista à necessidade de “desenvolvimento”, pois os municípios do Pampa gaúcho têm PIBs menores que a média do estado.  “A silvicultura precisa respeitar o zoneamento, não pode invadir o que resta do Pampa.
Está apostando- se em soluções mágicas e de curto prazo”, diz Nabinger, da UFRGS.
Os efeitos dos eucaliptos nos Campos Sulinos são uma incógnita, pois faltam estudos sobre os impactos dessas árvores no ambiente nativo.  Pesquisas conduzidas por Carlos Arrarte, do Centro Interdisciplinar de Estudos sobre o Desenvolvimento do Uruguai, revelam que a circulação natural das águas do país foi alterada pelos eucaliptos e pínus.  Essas monoculturas já cobrem 1 milhão de hectares ou 6% do território uruguaio, antes dominado por campos naturais.
A questão é relevante, considerando-se que o Pampa cobre boa parcela do Aqüífero Guarani, reserva de água estratégica do Mercosul.  Dele também nascem os rios Pelotas, Santa Maria e Ibicuí, importantes para a economia e o abastecimento humano.
Descampado e desprotegido
Apesar das perdas de vegetação, o Pampa ainda guarda riquezas de fazer inveja a muitas florestas.  Segundo dados federais, restam 41% da vegetação original do bioma – 23% de campos, 5% de florestas e 13% de mosaicos de campos, arbustos e matas.
A idéia de biodiversidade é mais associada às matas, mas os poucos estudos feitos nos campos sulistas revelaram entre 3 mil e 4 mil plantas distintas.  Só de gramíneas são 450 tipos.  Também há quase 100 espécies de mamíferos e mais de 400 aves, atraídas pela fartura de insetos.  Pode parecer pouco se comparado às 10 mil espécies de plantas estimadas no Cerrado, entretanto, este tem área 11 vezes maior que a do Pampa.
“Ainda se vê o bioma apenas como um grande pasto, mas ele tem uma biodiversidade tão única quanto a das florestas”, explica o biólogo Pedro Develey, diretor de Conservação da ONG BirdLife/Save Brasil.  Ao abranger 2% do Brasil e parte da Argentina, do Paraguai e de todo o Uruguai, as pastagens naturais do Cone Sul se estendem por aproximadamente 1 milhão de quilômetros quadrados.  Dessa área, apenas 2% está dentro de unidades de conservação, o que pode pôr em risco o futuro do Pampa, de espécies animais e vegetais e de muitas economias.  A situação é especialmente grave no Brasil, onde apenas 0,04%, ou 7 mil hectares, de Pampa nativo está em áreas estaduais de proteção integral, onde não se permitem atividades econômicas.
O Rio Grande do Sul possui 32 unidades de conservação estaduais e 11 áreas protegidas federais, que somam menos de 0,5% do bioma.  Além disso, a maioria delas foicriada nos anos 1970 e 1980 e não protegem áreas exatamente de Pampa.
A maioria é carente de infra-estrutura e de regularização fundiária.
Diante dessa realidade, as alternativas para a sobrevivência do Pampa são a criação urgente de mais áreas protegidas e o aproveitamento das possibilidades naturais das pastagens, quase todas dentro de fazendas particulares.  “O ideal é criar e implementar mais áreas protegidas e atuar em conjunto com os proprietários rurais”, diz Develey.
Meta monumental
De olho no cumprimento de metas globais para conservação de ecossistemas, o governo federal projeta ao menos 10% do bioma dentro de áreas de proteção integral e de uso sustentável, até 2010.
No Rio Grande do Sul, isso representaria mais de um milhão de hectares em novas reservas.  Mas a empreitada pode esbarrar na falta de apoio político estadual e na carência de terras públicas.  Ao contrário do que ocorre na Amazônia, por exemplo, o estado é loteado em terras particulares e são escassos os recursos para desapropriações.
“A meta é monumental”, diz Wigold Schäffer, diretor de Mata Atlântica e Pampa do Ministério do Meio Ambiente.
Segundo ele, a idéia é fechar, ainda este ano, um pacote com propostas de áreas protegidas.  Para tanto, o MMA está reunindo estudos e vistoriando as principais áreas contínuas.  Levantamentos federais mostram 105 locais indicados para proteção prioritária na região.  Desses, 19 já integram uma lista prévia de Ucs.
A criação dessas reservas, explica Schäffer, funcionará como espécie de zoneamento, mostrando claramente em quais áreas pode haver atividades econômicas.
O governo não quer conflitos e por isso evita locais urbanizados ou ocupados pela agropecuária.  “Mas em alguns casos haverá mais restrição ao uso do Pampa e também desapropriações”, avisa.  “A criação extensiva de gado, sem substituição da vegetação do bioma, será atividade bemvinda”.
É nessa “vocação natural” do Pampa que apostam quase 60 pecuaristas de 13 municípios.  Enquanto em regiões do Cerrado há quase cinco bois por hectare, esses produtores mantêm menos de um animal no mesmo espaço.  A criação é feita com respeito à legislação ambiental, sobre pastagens naturais, livres do desmatamento e das queimadas comuns no Cerrado e na Amazônia.  “Há um apelo conservacionista e cultural nesse tipo de criação”, diz Ronaldo Cantão, presidente da Associação dos Produtores do Pampa (Apropampa).
A grande novidade é que, com certificado de origem da produção, espera-se que a carne pampeana deixe de ser vista como commodity e ascenda ao posto de iguaria, assim como o champanhe e o queijo roquefort franceses.  “Nossa carne é mais saborosa e tem melhor aspecto”, garante Cantão.
E quanto às emissões de metano pela digestão dos rebanhos?  Um estudo das Nações Unidas, de 2006, estima que mundialmente o gado reponde por 18% das emissões de gases de efeito estufa, porcentagem maior que a do setor de transportes.  Para Develey, da BirdLife/ Save Brasil, é preciso comparar a pecuária do Pampa com atividades “piores”.
“As queimadas de cana-de-açúcar e na Amazônia contribuem bem mais para o aquecimento global”, ressalta.
O trabalho da Apropampa é influenciado por uma iniciativa da aliança de ONGs BirdLife International, que atua na conservação de aves associada ao uso econômico sustentável do Pampa no Brasil, na Argentina, no Uruguai e no Paraguai.
Pelo menos 15 aves ameaçadas de extinção freqüentam os campos transfronteiriços, e o que resta do bioma está nas mãos de proprietários particulares.  Por isso, locais ricos em biodiversidade são identificados nas fazendas e os produtores, incentivados a preservar os campos naturais, manejando os rebanhos de forma sustentável.  “Assim se evita a degradação de solos e do Pampa pelo pisoteio excessivo do gado”, explica o biólogo Develey.
Uma experiência com mais de 20 anos, realizada pela UFRGS em Eldorado do Sul, mostra que é possível elevar o ganho de peso bovino anual em até quatro vezes por hectare, sem custos adicionais e sem destruir o Pampa.  Para isso, basta ajustar a quantidade de gado por hectare, de acordo com o tipo de pastagem e as estações do ano.  “A maioria dos pecuaristas trabalha mal, não mudou seu modo de produzir ao longo do tempo, enquanto as possibilidades do Pampa são fantásticas”, ressalta Carlos Nabinger, da UFRGS.
Criar e efetivar áreas protegidas e conciliar técnicas modernas de produção com a vocação natural do Pampa parecem ser os caminhos mais seguros para garantir a perpetuação de um bioma único.  São também estímulos para preservação das culturas que lá floresceram e compõem a diversidade humana do País.

“É uma terra de suaves colinas e montanhas de contorno arredondado, com os flancos e os topos cobertos de pastagens (…). Os panoramas que se desdobram ao observador aéreo se parecem a imensos mapas em relevo, onde todos os pormenores da paisagem se destacam com absoluta nitidez.” Padre Balduíno Rambo, Fundamentos da Cultura Rio-Grandense

Por Aldem Bourscheit – Fotos: Edelweiss Bassis

Na sua porção mais meridional, o Brasil perde as características tropicais e se espraia em verdejantes campos ondulados, onde o horizonte mergulha no chão e corre livre o gelado vento minuano.  Reconhecido como bioma em 2004, o Pampa cobre boa parte do Rio Grande do Sul e guarda enorme diversidade de animais, plantas e ecossistemas.  É uma pastagem natural das mais ricas do planeta, paisagem formadora de parcela da cultura e esteio histórico da economia gaúcha.

Moldado ao longo dos séculos pela mão da natureza e, mais tarde, pela pata do boi, o Pampa vê hoje na pecuária extensiva bem manejada e na criação urgente de novas áreas protegidas as suas chances de sobrevivência.

Assim como em outras regiões do País, o passado explica o presente e pode indicar caminhos para a conservação de riquezas naturais e culturais.

O gado chegou ao território gaúcho por meio das missões jesuíticas espanholas, destruídas por disputas territoriais entre Portugal e Espanha desde o século XVII. Com isso, o boi procurou as pastagens nativas, então mais altas e arbustivas.

Ao selecionar os pastos que mais lhe agradavam, a boiada não firmou apenas o churrasco e o pastoreio nas tradições locais: foi decisiva para consolidar a paisagem hoje dominada por campos.

Outra marca do Pampa, as grandes propriedades e suas estâncias, tem origem na distribuição de terras pela Coroa Portuguesa a famílias abastadas e militares.

“Antes caçado pela carne e couro, o gado foi aprisionado nas cercas dessas primeiras fazendas”, conta Pedro Bandeira, professor de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Com o surgimento dos rebanhos e a agricultura, as pastagens deixaram de ser vistas como uma região pobre e o Pampa atraiu colonos espanhóis, portugueses e europeus, além de indígenas e negros descendentes de escravos.  Desse caldo cultural surgiu o gaúcho.

Mas, apesar de enraizada na consolidação do estado e da cultura sulista, a agropecuária vem perdendo importância e hoje responde por apenas 10% do PIB estadual.  Os quase 15 milhões de bois têm gerado nos últimos anos menos de R$ 4 milhões.  São menos de R$ 0,30 por cabeça.

Com isso, o gado perde espaço para atividades mais intensivas, que trazem maior degradação às pastagens naturais e podem colocar em xeque a cultura pampeana.

Segundo o economista Sérgio Fischer, da Fundação Estadual de Economia e Estatística, as lavouras hoje ocupam mais espaço porque ganharam em tecnologia e produtividade.  “Isso é natural em economias desenvolvidas.  E também há migração da pecuária para o Centro-Oeste e Norte”, diz.  Nessas regiões, as terras são mais baratas na comparação com o Centro- Sul.  Está aí uma pista para a multiplicação dos bois na Amazônia.

Quando os primeiros colonos não indígenas chegaram ao território onde está hoje o Rio Grande do Sul, no século XVII, o Pampa cobria 63% ou 178 mil quilômetros quadrados do estado.  Os mapas oficiais limitam o bioma como era no passado, mas, nas últimas quatro décadas, 25% dos campos nativos gaúchos, ou 40 mil quilômetros quadrados, desapareceram, principalmente para dar lugar a lavouras de arroz e de soja.  A agricultura, o avanço de gramíneas exóticas introduzidas para alimentar os rebanhos e a ocupação de terras com largos plantios de eucalipto compõem um quadro preocupante.

“Se tal destruição ocorresse em qualquer outro lugar, seria escândalo internacional. O Greenpeace deveria estar ‘acorrentado’ por aqui também”, diz o pesquisador de ecossistemas pastoris Carlos Nabinger, da UFRGS.

O avanço da agropecuária deixou marcas diferentes no Sudoeste gaúcho.

Em municípios como Alegrete, Itaqui, Maçambará e Unistalda, areais e terrenos erodidos cobrem quase 40 quilômetros quadrados.  O fenômeno é natural, mas potencializado pela agricultura mecanizada, pela concentração de rebanhos e pelo uso de agrotóxicos.  A situação é tão grave que a região faz parte da lista nacional de locais suscetíveis à desertificação, mesmo que receba chuva em boa quantidade.

Em relação às gramíneas, aproximadamente 500 mil hectares, ou cerca de 3% do bioma, estão cobertos por capins africanos, como o anonni e a braquiária.  As espécies foram introduzidas no Rio Grande do Sul a partir dos anos 1960 para compor pastagens, mas sufocam os campos nativos e prejudicam a alimentação dos rebanhos.

Além disso, a partir de 2006, empresas do ramo de celulose “lotearam” o Pampa em três grandes regiões, para plantar, em cada uma, 100 mil hectares de eucaliptos – monocultura tida como a mais recente ameaça ao bioma.  Na visão de ambientalistas e do Ministério Público Federal, o zoneamento ecológico-econômico para cultivo dessas lavouras, feito com base no que resta de vegetação e nos locais mais ricos em biodiversidade, é desrespeitado pelo governo gaúcho.

“O governo federal manifestou ao Ministério Público que monoculturas não devem avançar em regiões conservadas do Pampa.  Em outras áreas do bioma, é precipreciso licenciamento dos órgãos ambientais”, diz o diretor de Mata Atlântica e Pampa do Ministério do Meio Ambiente Wigold Schäffer.  Mas a implantação dos eucaliptais tem apoio estatal e é vista como uma resposta rápida governista à necessidade de “desenvolvimento”, pois os municípios do Pampa gaúcho têm PIBs menores que a média do estado.  “A silvicultura precisa respeitar o zoneamento, não pode invadir o que resta do Pampa.

Está apostando- se em soluções mágicas e de curto prazo”, diz Nabinger, da UFRGS.

Os efeitos dos eucaliptos nos Campos Sulinos são uma incógnita, pois faltam estudos sobre os impactos dessas árvores no ambiente nativo.  Pesquisas conduzidas por Carlos Arrarte, do Centro Interdisciplinar de Estudos sobre o Desenvolvimento do Uruguai, revelam que a circulação natural das águas do país foi alterada pelos eucaliptos e pínus.  Essas monoculturas já cobrem 1 milhão de hectares ou 6% do território uruguaio, antes dominado por campos naturais.

A questão é relevante, considerando-se que o Pampa cobre boa parcela do Aqüífero Guarani, reserva de água estratégica do Mercosul.  Dele também nascem os rios Pelotas, Santa Maria e Ibicuí, importantes para a economia e o abastecimento humano.

Descampado e desprotegido

Apesar das perdas de vegetação, o Pampa ainda guarda riquezas de fazer inveja a muitas florestas.  Segundo dados federais, restam 41% da vegetação original do bioma – 23% de campos, 5% de florestas e 13% de mosaicos de campos, arbustos e matas.

A idéia de biodiversidade é mais associada às matas, mas os poucos estudos feitos nos campos sulistas revelaram entre 3 mil e 4 mil plantas distintas.  Só de gramíneas são 450 tipos.  Também há quase 100 espécies de mamíferos e mais de 400 aves, atraídas pela fartura de insetos.  Pode parecer pouco se comparado às 10 mil espécies de plantas estimadas no Cerrado, entretanto, este tem área 11 vezes maior que a do Pampa.

“Ainda se vê o bioma apenas como um grande pasto, mas ele tem uma biodiversidade tão única quanto a das florestas”, explica o biólogo Pedro Develey, diretor de Conservação da ONG BirdLife/Save Brasil.  Ao abranger 2% do Brasil e parte da Argentina, do Paraguai e de todo o Uruguai, as pastagens naturais do Cone Sul se estendem por aproximadamente 1 milhão de quilômetros quadrados.  Dessa área, apenas 2% está dentro de unidades de conservação, o que pode pôr em risco o futuro do Pampa, de espécies animais e vegetais e de muitas economias.  A situação é especialmente grave no Brasil, onde apenas 0,04%, ou 7 mil hectares, de Pampa nativo está em áreas estaduais de proteção integral, onde não se permitem atividades econômicas.

O Rio Grande do Sul possui 32 unidades de conservação estaduais e 11 áreas protegidas federais, que somam menos de 0,5% do bioma.  Além disso, a maioria delas foicriada nos anos 1970 e 1980 e não protegem áreas exatamente de Pampa.

A maioria é carente de infra-estrutura e de regularização fundiária.

Diante dessa realidade, as alternativas para a sobrevivência do Pampa são a criação urgente de mais áreas protegidas e o aproveitamento das possibilidades naturais das pastagens, quase todas dentro de fazendas particulares.  “O ideal é criar e implementar mais áreas protegidas e atuar em conjunto com os proprietários rurais”, diz Develey.

Meta monumental

De olho no cumprimento de metas globais para conservação de ecossistemas, o governo federal projeta ao menos 10% do bioma dentro de áreas de proteção integral e de uso sustentável, até 2010.

No Rio Grande do Sul, isso representaria mais de um milhão de hectares em novas reservas.  Mas a empreitada pode esbarrar na falta de apoio político estadual e na carência de terras públicas.  Ao contrário do que ocorre na Amazônia, por exemplo, o estado é loteado em terras particulares e são escassos os recursos para desapropriações.

“A meta é monumental”, diz Wigold Schäffer, diretor de Mata Atlântica e Pampa do Ministério do Meio Ambiente.

Segundo ele, a idéia é fechar, ainda este ano, um pacote com propostas de áreas protegidas.  Para tanto, o MMA está reunindo estudos e vistoriando as principais áreas contínuas.  Levantamentos federais mostram 105 locais indicados para proteção prioritária na região.  Desses, 19 já integram uma lista prévia de Ucs.

A criação dessas reservas, explica Schäffer, funcionará como espécie de zoneamento, mostrando claramente em quais áreas pode haver atividades econômicas.

O governo não quer conflitos e por isso evita locais urbanizados ou ocupados pela agropecuária.  “Mas em alguns casos haverá mais restrição ao uso do Pampa e também desapropriações”, avisa.  “A criação extensiva de gado, sem substituição da vegetação do bioma, será atividade bemvinda”.

É nessa “vocação natural” do Pampa que apostam quase 60 pecuaristas de 13 municípios.  Enquanto em regiões do Cerrado há quase cinco bois por hectare, esses produtores mantêm menos de um animal no mesmo espaço.  A criação é feita com respeito à legislação ambiental, sobre pastagens naturais, livres do desmatamento e das queimadas comuns no Cerrado e na Amazônia.  “Há um apelo conservacionista e cultural nesse tipo de criação”, diz Ronaldo Cantão, presidente da Associação dos Produtores do Pampa (Apropampa).

A grande novidade é que, com certificado de origem da produção, espera-se que a carne pampeana deixe de ser vista como commodity e ascenda ao posto de iguaria, assim como o champanhe e o queijo roquefort franceses.  “Nossa carne é mais saborosa e tem melhor aspecto”, garante Cantão.

E quanto às emissões de metano pela digestão dos rebanhos?  Um estudo das Nações Unidas, de 2006, estima que mundialmente o gado reponde por 18% das emissões de gases de efeito estufa, porcentagem maior que a do setor de transportes.  Para Develey, da BirdLife/ Save Brasil, é preciso comparar a pecuária do Pampa com atividades “piores”.

“As queimadas de cana-de-açúcar e na Amazônia contribuem bem mais para o aquecimento global”, ressalta.

O trabalho da Apropampa é influenciado por uma iniciativa da aliança de ONGs BirdLife International, que atua na conservação de aves associada ao uso econômico sustentável do Pampa no Brasil, na Argentina, no Uruguai e no Paraguai.

Pelo menos 15 aves ameaçadas de extinção freqüentam os campos transfronteiriços, e o que resta do bioma está nas mãos de proprietários particulares.  Por isso, locais ricos em biodiversidade são identificados nas fazendas e os produtores, incentivados a preservar os campos naturais, manejando os rebanhos de forma sustentável.  “Assim se evita a degradação de solos e do Pampa pelo pisoteio excessivo do gado”, explica o biólogo Develey.

Uma experiência com mais de 20 anos, realizada pela UFRGS em Eldorado do Sul, mostra que é possível elevar o ganho de peso bovino anual em até quatro vezes por hectare, sem custos adicionais e sem destruir o Pampa.  Para isso, basta ajustar a quantidade de gado por hectare, de acordo com o tipo de pastagem e as estações do ano.  “A maioria dos pecuaristas trabalha mal, não mudou seu modo de produzir ao longo do tempo, enquanto as possibilidades do Pampa são fantásticas”, ressalta Carlos Nabinger, da UFRGS.

Criar e efetivar áreas protegidas e conciliar técnicas modernas de produção com a vocação natural do Pampa parecem ser os caminhos mais seguros para garantir a perpetuação de um bioma único.  São também estímulos para preservação das culturas que lá floresceram e compõem a diversidade humana do País.

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