Pense você mesmo

No movimento handmade, que vai na mão oposta ao consumismo, o interessante é poder produzir por si só, de roupas a legumes. E, assim, reatar a conexão com o mundo real
Por Flavia Pardini
Foi no dia de Natal que percebi que alguma coisa talvez esteja mudando no templo mundial do consumo.  O padre de uma paróquia de classe média de Birmingham, Alabama, em vez do tradicional sermão sobre o nascimento do Menino Jesus, tocou na ferida.
Lembrou suas ovelhas do episódio ocorrido coisa de um mês antes, na Black Friday, a sexta-feira após o Dia de Ação de Graças, que abre a temporada de vendas de Natal nos EUA com barganhas irresistíveis nas lojas de departamentos.  Pois no ano da graça de 2008, em meio à pior crise econômica em décadas, a morte marcou a Black Friday: um funcionário da Wal-Mart foi pisoteado pela massa humana ansiosa por adentrar a loja em Long Island e comprar.  O padre exortou os fiéis a pensarem na sociedade que criamos e nos rumos que tomou.
Na nave repleta, cabeças baixas.  A ponta de lança do processo que pode mudar o estado de coisas tem uma cara lúdica e divertida nas ruas da Ukrainian Village, bairro de Chicago que ainda abriga imigrantes do Leste Europeu, mas aos poucos dá espaço a uma vibrante cultura jovem.  Lojas ao longo da Division Street – corredor comercial do bairro – dedicam-se a vender só objetos handmade, feitos por alguém como você e eu: peças de roupa e de cerâmica, brinquedos, bijuterias, quadros, móveis e o que mais vier.  Na mesma avenida, ocorre anualmente a Renegade Craft Fair, um dos pontos de encontro do movimento handmade ou do-it-yourself, que se espalha apoiado na ideia de que se não gostamos da cultura de consumismo em que estamos mergulhados, a saída é criar uma nova.
Atrás das vitrines na Division St. e dos estandes da Renegade está a promessa de que o consumidor pode se transformar em produtor e fazer, com as próprias mãos, parte dos objetos que compra em grandes magazines.  A noção atrai um bocado de gente para feiras, lojas e a internet.  O site Etsy (www.etsy.com), lançado em 2005, intitula-se “o seu lugar para comprar e vender todas as coisas handmade” e informa ter movimentado US$ 88 milhões em 2008.  Para vender no Etsy é preciso abrir uma loja virtual, listar os itens – ao custo de 20 centavos de dólar cada um – e, ao vendê-los, pagar 3,5% para o site.  Hoje são mais de 200 mil vendedores registrados, mas com certeza os compradores – com 3 milhões de itens à disposição – são mais numerosos, o que levanta críticas.
“Pode-se escapar do pecado do consumismo ao comprar handmade?”, questionou Jean Railla, fundadora do site Getcrafty.
A questão – comprar é sempre comprar, feito à mão ou não – é debatida calorosamente na web.  Uma representante do Etsy, em resposta à provocação de Jean Railla, disse: “As pessoas estão começando a prestar atenção na origem das coisas que compram, como elas são feitas, e nós somos parte disso”.  De certa forma, o handmade integra um movimento que chega a consumidores do mundo todo, em prol da responsabilidade e da consciência na hora de comprar.  Mas o germe interessante que reside no movimento é o que propaga a ideia de que é possível fazer por si só, desde a roupa que se veste até os legumes do jantar.
O jornalista Michael Pollan, autor de O Dilemma do Onívoro, considera que a melhor coisa que o indivíduo pode fazer em prol da sustentabilidade é plantar uma horta.  O resultado nutre não só em termos alimentícios, argumenta, mas também habilidades há muito esquecidas.
A divisão do trabalho e a especialização decorrente dela permitem que tantos de nós vivamos longe da terra, mas também “tornam difíceis de ver as linhas de conexão – e responsabilidade – que ligam nossas ações diárias às consequências que elas têm no mundo real”, escreve Pollan.  Ao produzir, além de consumir, reata-se a conexão.
O mesmo acontece com a tecnologia que, quando deixa de parecer “mágica” para o usuário comum – como funciona, por exemplo, o iPod?  -, ganha o poder de transformar.  Os editores da revista americana Make, por exemplo, dizem celebrar o direito do leitor de “distorcer, modificar e flexibilizar qualquer tecnologia” e ajudam-no a rebelarse contra o papel de consumidor passivo.
Ousar abrir a caixa-preta da tecnologia é um passo importante para mudar a concepção de que as soluções para os dilemmas do mundo contemporâneo serão encontradas na prateleira do supermercado.  Os cerca de 2 milhões de americanos que “mexem” em seus carros nos fins de semana, por exemplo, são um grande laboratório para o carro elétrico, acredita Saul Griffith, do Massachusetts Institute of Technology e fundador do site Instructables.
Mesmo que as investidas dos mecânicos de fim de semana não deem à luz o carro elétrico, fazer algo com as suas mãos significa comprar menos e, provavelmente, resgatar o prazer de criar e construir.  No meu quintal nasceu uma horta.  Qual o seu projeto?

No movimento handmade, que vai na mão oposta ao consumismo, o interessante é poder produzir por si só, de roupas a legumes.  E, assim, reatar a conexão com o mundo real.

Foi no dia de Natal que percebi que alguma coisa talvez esteja mudando no templo mundial do consumo.  O padre de uma paróquia de classe média de Birmingham, Alabama, em vez do tradicional sermão sobre o nascimento do Menino Jesus, tocou na ferida.

Lembrou suas ovelhas do episódio ocorrido coisa de um mês antes, na Black Friday, a sexta-feira após o Dia de Ação de Graças, que abre a temporada de vendas de Natal nos EUA com barganhas irresistíveis nas lojas de departamentos.  Pois no ano da graça de 2008, em meio à pior crise econômica em décadas, a morte marcou a Black Friday: um funcionário da Wal-Mart foi pisoteado pela massa humana ansiosa por adentrar a loja em Long Island e comprar.  O padre exortou os fiéis a pensarem na sociedade que criamos e nos rumos que tomou.

Na nave repleta, cabeças baixas.  A ponta de lança do processo que pode mudar o estado de coisas tem uma cara lúdica e divertida nas ruas da Ukrainian Village, bairro de Chicago que ainda abriga imigrantes do Leste Europeu, mas aos poucos dá espaço a uma vibrante cultura jovem.  Lojas ao longo da Division Street – corredor comercial do bairro – dedicam-se a vender só objetos handmade, feitos por alguém como você e eu: peças de roupa e de cerâmica, brinquedos, bijuterias, quadros, móveis e o que mais vier.  Na mesma avenida, ocorre anualmente a Renegade Craft Fair, um dos pontos de encontro do movimento handmade ou do-it-yourself, que se espalha apoiado na ideia de que se não gostamos da cultura de consumismo em que estamos mergulhados, a saída é criar uma nova.

Atrás das vitrines na Division St. e dos estandes da Renegade está a promessa de que o consumidor pode se transformar em produtor e fazer, com as próprias mãos, parte dos objetos que compra em grandes magazines.  A noção atrai um bocado de gente para feiras, lojas e a internet.  O site Etsy, lançado em 2005, intitula-se “o seu lugar para comprar e vender todas as coisas handmade” e informa ter movimentado US$ 88 milhões em 2008.  Para vender no Etsy é preciso abrir uma loja virtual, listar os itens – ao custo de 20 centavos de dólar cada um – e, ao vendê-los, pagar 3,5% para o site.  Hoje são mais de 200 mil vendedores registrados, mas com certeza os compradores – com 3 milhões de itens à disposição – são mais numerosos, o que levanta críticas.

“Pode-se escapar do pecado do consumismo ao comprar handmade?”, questionou Jean Railla, fundadora do site Getcrafty.

A questão – comprar é sempre comprar, feito à mão ou não – é debatida calorosamente na web.  Uma representante do Etsy, em resposta à provocação de Jean Railla, disse: “As pessoas estão começando a prestar atenção na origem das coisas que compram, como elas são feitas, e nós somos parte disso”.  De certa forma, o handmade integra um movimento que chega a consumidores do mundo todo, em prol da responsabilidade e da consciência na hora de comprar.  Mas o germe interessante que reside no movimento é o que propaga a ideia de que é possível fazer por si só, desde a roupa que se veste até os legumes do jantar.

O jornalista Michael Pollan, autor de O dilema do Onívoro, considera que a melhor coisa que o indivíduo pode fazer em prol da sustentabilidade é plantar uma horta.  O resultado nutre não só em termos alimentícios, argumenta, mas também habilidades há muito esquecidas.

A divisão do trabalho e a especialização decorrente dela permitem que tantos de nós vivamos longe da terra, mas também “tornam difíceis de ver as linhas de conexão – e responsabilidade – que ligam nossas ações diárias às consequências que elas têm no mundo real”, escreve Pollan.  Ao produzir, além de consumir, reata-se a conexão.

O mesmo acontece com a tecnologia que, quando deixa de parecer “mágica” para o usuário comum – como funciona, por exemplo, o iPod?  -, ganha o poder de transformar.  Os editores da revista americana Make, por exemplo, dizem celebrar o direito do leitor de “distorcer, modificar e flexibilizar qualquer tecnologia” e ajudam-no a rebelar-se contra o papel de consumidor passivo.

Ousar abrir a caixa-preta da tecnologia é um passo importante para mudar a concepção de que as soluções para os dilemas do mundo contemporâneo serão encontradas na prateleira do supermercado.  Os cerca de 2 milhões de americanos que “mexem” em seus carros nos fins de semana, por exemplo, são um grande laboratório para o carro elétrico, acredita Saul Griffith, do Massachusetts Institute of Technology e fundador do site Instructables.

Mesmo que as investidas dos mecânicos de fim de semana não deem à luz o carro elétrico, fazer algo com as suas mãos significa comprar menos e, provavelmente, resgatar o prazer de criar e construir.  No meu quintal nasceu uma horta.  Qual o seu projeto?

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