O verde valorizou o muro

Por Ana Cristina D’Angelo

Uma experiência surgida em Lyon, na França, chega ao Brasil este ano com promessa de fornecer isolamento acústico e térmico, absorção de gases poluentes no entorno em até 50% e melhora na qualidade de vida nas grandes cidades. A tecnologia do muro vegetal foi desenvolvida pelo ambientalista e empresário francês Pascal Peleszezak e aplicada em diversos países europeus, em lojas, espaços públicos e edifícios. Peleszezak foi convidado pelo secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo, Eduardo Jorge, para implantar um muro despoluentel em um corredor de alta passagem da capital paulista, possivelmente a avenida Radial Leste. O primeiro contrato para um muro vegetal brasileiro, no entanto, foi firmado em Belo Horizonte, encomenda de um centro cultural privado.

O maior segredo que Peleszezak ainda esconde é a água. O muro é instalado em módulos na fachada de prédios, áreas internas ou em corredores urbanos e sua vegetação deve ser podada uma vez ao ano, mas não requer um sistema de irrigação.

O que ele revela é que as raízes das plantas cuidam do trabalho sujo: absorver os gases poluentes e oferecer um ambiente mais saudável.  Veja a seguir trechos da entrevista concedida pelo ambientalista em São Paulo.

Um muro vegetal substitui árvores?  Acho que eles se complementam. Mas o muro tem qualidades que uma árvore não tem.  Ele proporciona isolamento acústico e térmico, além de ser despoluente.  Protege tanto o imóvel em que está instalado quanto melhora a qualidade do ar da rua.

O senhor diz que também pode haver economia de energia.  Graças à proteção térmica, vamos consumir bem menos energia no interior do edifício (com ar condicionado).  Aqui no Brasil vocês consomem 500 kilowatts por metro quadrado ao ano.  Com o muro e outras iniciativas do poder público, como praças e plantio de árvores, pode-se chegar a 80 kilowatts por metro quadrado.  A ideia é fazer corredores de muros vegetais, avenidas cobertas de verde.

Como foi desenvolvida a tecnologia?  Eu desenvolvi o conceito do muro vegetal, mas o produto é uma mistura de muitas ideias.  Nos anos 70 e 80, um cientista americano começou a trabalhar a despoluição por meio das plantas, porque queria melhorar a qualidade do ar nos submarinos.

Ele estudou as espécies que “restauravam” o ar, as que mais contribuíam para a sua despoluição.  Minha tecnologia consiste em despoluir pela raiz das plantas, pela terra.  Existe, portanto, uma dupla despoluição com o muro: a da terra e a da planta.  A planta fixa o CO2 e a raiz tem bactérias que capturam o ar poluído.  As bactérias morrem e as raízes vão absorver o resíduo da poluição.  Existem vários tipos de poluição e também cerca de mil bactérias diferentes para se estudar.

Qual o custo de implantação e manutenção dos muros vegetais?  Eu faço um produto durável, quero criar muitos empregos e vou estabelecer um preço de acordo com a mão de obra brasileira.  Não é a exportação de um modelo de fora.  Eu trabalho com as plantas locais.  Um paisagista é chamado para fazer a adequação do projeto em cada lugar.  Existem vários tipos de muros, de 800 euros o metro quadrado, caso em que o muro vegetal é quase uma obra de arte, até outros mais baratos.  A manutenção é feita uma vez por ano, quando um jardineiro poda as plantas.

E quanto à irrigação?  A água é a minha tecnologia, o segredo do muro vegetal.

Os seus projetos estão todos aplicados na Europa.  Agora é a vez da América Latina? Sim. O primeiro muro deverá ser implantado em Belo Horizonte, em um espaço cultural privado. A ideia é criar uma filial aqui no Brasil em parceria com um sócio local e desenvolver projetos em outras cidades, como São Paulo.

O senhor já caminhou por São Paulo, observou o ambiente urbano para saber que tipo de muro vegetal seria adequado? Faltam 5 metros quadrados de verde por habitante em São Paulo. Eu quero esfriar e purificar a cidade por meio de corredores, grandes eixos de muros, fachadas e telhados.

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