O paradoxo do ambientalismo

Foto de Lon&Queta via Flickr
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Se os ecossistemas são essenciais para o homem, como explicar o fato de que o bem-estar humano continua aumentando mesmo com a degradação de boa parte dos ecossistemas ao nosso redor? É o paradoxo do ambientalismo, segundo um time de pesquisadores oriundos da McGill University, no Canadá, que se dispôs a investigar a questão. Os resultados foram publicados em setembro na revista BioScience.

O mote surgiu a partir da Avaliação Ecossistêmica do Milênio (AEM), concluída em 2005, e que analisou quatro categorias de serviços prestados por ecossistemas: os “fornecedores”, como alimentação, água e produtos florestais; os “reguladores”, que regulam mudanças no clima, enchentes, doenças e a qualidade da água, os “culturais”, que geram benefícios recreacionais, estéticos ou espirituais; e os “de suporte”, como a formação do solo, fotossíntese e o ciclo de nutrientes. A AEM concluiu que 60% dos ecossistemas avaliados estavam em declínio, a maioria deles provedores de serviços reguladores e de suporte. Aqueles em expansão eram, em grande parte, serviços fornecedores, como a produção de safras, gado de corte e aquacultura. A AEM também detectou aumento no consumo dos serviços de 80% dos ecossistemas analisados.

Ao mesmo tempo, o bem-estar geral da humanidade aumentou ao longo dos últimos 50 anos, em boa parte devido à rápida conversão de ecossistemas para a produção de alimentos, fibras e combustível. A análise da AEM levou em conta o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), não por ser um ótimo indicador do bem-estar humano, mas por falta de dados alternativos. O IDH agrega dados sobre a expectativa de vida, alfabetização, sucesso escolar e PIB per capita para chegar a uma medida do bem-estar das populações.

O primeiro passo dos cientistas canadenses para desatar o nó do paradoxo do ambientalismo foi investigar se estamos medindo o bem-estar humano incorretamente, o que sugeriria que, em vez de aumentar, ele estaria declinando com a degradação dos ecossistemas. Mas depois de avaliar dados e a literatura, os pesquisadores rejeitaram tal hipótese. Apesar das conhecidas críticas ao IDH, eles não conseguiram identificar medidas alternativas que indiquem queda do bem-estar em escala global. A maioria dos demais indicadores são correlacionados ao IDH e mostram que, na média, as condições globais para os seres humanos estão em alta.

Outras três hipóteses foram investigadas. A primeira propõe que nosso bem-estar dependeria de serviços ecossistêmicos ligados apenas à alimentação e, portanto, não seria afetado pela perda de outros serviços. A segunda hipótese explora a possibilidade de que, com a tecnologia, o bem-estar humano teria deixado de depender do estado dos ecossistemas. E a terceira questiona se seria uma questão de tempo e os efeitos da degradação ambiental apareceriam no futuro.

A avaliação dessas hipóteses produziu resultados mistos. Globalmente, está claro que a agricultura oferece benefícios para a humanidade, mas em escala local tais benefícios podem ser diminuídos pela perda de outros serviços ecossistêmicos, escrevem os autores. Eles também concluem que a eficiência com que somos capazes de extrair benefícios da natureza aumentou, mas a tecnologia não separou a sociedade da biosfera. Por fim, os pesquisadores identificam importantes lacunas de tempo nos sistemas da Terra, mas apontam que as conseqüências disso para o bem-estar humano ainda não estão claras.

Como toda boa pesquisa científica, a investigação gerou mais perguntas do que conclusões sólidas. “Tentar destrinchar por que as medidas de bem-estar humano estão aumentando enquanto as condições ecossistêmicas estão em declínio é crítico para melhorar o manejo dos ecossistemas”, afirmam os autores. “Essa conclusão sublinha a distinção importante, mas frequentemente esquecida, entre os impactos humanos na biosfera e o impacto da biosfera no bem-estar humano”. Embora tenhamos uma boa ideia dos efeitos negativos da maior parte das ações humanas sobre a biodiversidade, o capital natural e a biosfera, compreendemos muito pouco o que essas mudanças significam para a nossa qualidade de vida.

Para isso, é preciso integrar as pesquisas sobre bem-estar humano, agricultura, tecnologia e o tempo de resposta dos ecossistemas, defendem os cientistas. Quem sabe assim caminharemos para que só um dos lados do paradoxo – o da perda de serviços ambientais – seja revertido e que os homens continuem a viver bem sobre a Terra.

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