Samba, sol e sapiência

Graças a uma trajetória de intempéries desde os tempos coloniais, a familiaridade dos brasileiros com o fazer científico é muito recente, dizem historiadores.  Nos dias de hoje, falta afinar o aumento de pesquisas com os objetivos socioeconômicos

ciencia internoQuando o cineasta João Moreira Salles foi convidado a discursar sobre as humanidades em um encontro da Academia Brasileira de Ciências, no começo deste ano, abriu sua fala com um pedido de desculpas. 

Não estava ali para comemorar a criatividade das artes brasileiras ou as diversas possibilidades em torno das ciências sociais.  Em lugar disso, escolheu refletir sobre o fato de que o País forma mais bacharéis em moda que físicos ou matemáticos. (Em 2008, segundo o Inep, foram 1.114 físicos, 1.972 matemáticos e 2.066 modistas).

“Alimento o pesadelo de que, em alguns anos, os aviões não decolarão, mas todos nós seremos muito mais elegantes”, disse.  Ao longo de todo o seu discurso, Salles desfilou indicadores de que o Brasil ainda falha em conferir à Ciência & Tecnologia o papel estratégico que lhe é devido nos rumos do desenvolvimento.  Um exemplo cativante: em 2009, a soma de todas as patentes requeridas pelo País não chega à metade do que realizou apenas a montadora japonesa Toyota.

Nas trincheiras do vestibular, em que as diferentes áreas do conhecimento disputam jovens assombrados pela decisão definitiva de uma carreira, as artes e as humanidades estão ganhando.  Apenas um em cada cinco estudantes de graduação frequenta curso de exatas.

Entidades como o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) já alertam que, mantido o andar da carruagem, a falta de engenheiros deve se tornar crítica para o crescimento do País.  Enquanto a engenharia civil encerra 50 mil graduandos, a imprensa brasileira aguarda a enxurrada de 178 mil estudantes de jornalismo, em breve, no mercado.

Todo esse cenário inspira diferentes interpretações.  Pode ser consequência de fatores meramente econômicos, como defende o físico José Roberto Drugowich, recém-saído de um período de sete anos como diretor do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).  Para ele, a instabilidade econômica do Brasil até recentemente desmotivou a busca por carreiras mais ligadas à produção.  Retomado o crescimento, o jogo deve se inverter.

Outra interpretação possível é a de que a cultura nacional se estabeleceu ao longo da história com pouca ou nenhuma identificação com a ciência.  O feito do matemático indiano Brahmagupta, que já no ano de 628 criou o conceito do número zero, oferece alguma pista.  Com uma economia menos relevante e problemas sociais tão profundos quanto os nossos, a Índia goleia o Brasil em todos os indicadores de produção científica.

Para investigar essa hipótese, Página22 consultou um time de historiadores da ciência no Brasil, além de outros estudiosos.  O que encontrou foi uma trajetória de intempéries que, se não explicam a história toda, ao menos indicam heranças fundadoras cujos efeitos se fazem sentir até hoje.

A barreira lusitana
Talvez o leitor tenha a sensação de que já entendeu tudo apenas com o seguinte cenário inaugural: os primeiros 300 anos da história brasileira foram de cerceamento e perseguição à produção de conhecimento.  Até a mudança definitiva da família real para o Novo Mundo, em 1808, estavam proibidas as universidades, a imprensa e a maior parte dos livros.

“A Aduana, como se chamava a alfândega, fazia a triagem dos navios e jogava os livros no mar, ali mesmo na barra do porto.  Quando alguém caía em desgraça com o governo, a primeira medida era a devassa da biblioteca pessoal do sujeito.  Antes do século XIX, até a Bíblia em português estava proibida”, conta a professora Márcia Ferraz, coordenadora do Programa de Estudos Pós-Graduados em História da Ciência da PUC de São Paulo.

Quando, finalmente, o Brasil começou a buscar uma virada intelectual, contava com um império que também já estava no atraso.  A academia científica portuguesa foi fundada em 1779, mais de um século depois de outros centros da Europa.  Foram pedir socorro aos ingleses e aos franceses, como no caso da fundação da Escola de Minas, em Ouro Preto (MG), apenas para descobrir que as noções de matemática e física dos alunos brasileiros eram insuficientes para o ensino superior.

Para Márcia, não é correto admitir que o brasileiro se identificou mais com as humanas desde tempos remotos, considerando que as primeiras carreiras científicas por aqui foram as clássicas: direito, medicina, engenharia.  A explicação é mais circunstancial.  É possível formar um jurista apenas com professor, sala de aula e livros.  Já um engenheiro e um médico demandam infraestrutura, laboratórios, ambiente experimental.  E o mesmo vale para todas as core sciences.

A dificuldade histórica de instalar laboratórios altamente dispendiosos para estudos de tecnologia deu origem ao que a professora chama de “cultura livresca”, própria dos cursos a que os acadêmicos hoje se referem como “de cuspe e giz”.

Essa realidade se estendeu durante muito tempo.  “Os primeiros cientistas brasileiros com reputação internacional vão surgir apenas no século XX.  No entanto, Machado de Assis tem renome já no século XIX”, ecoa o matemático e historiador da Universidade de Brasília, Wilton Barroso.  Os primeiros laboratórios de nível internacional no Brasil só apareceram nos anos 80, enquanto as universidades foram inauguradas no começo do século XX.

“A cultura livresca se estabeleceu completamente apartada da científica.  Já está melhorando muito, mas não se muda uma cultura de séculos em apenas 60 anos”, diz a historiadora Ana Maria Goldfarb, também professora da PUC-SP.  O marco do nascimento de um sistema nacional de ciência e tecnologia é a fundação do CNPq, em 1951.

A carência de laboratórios não é página virada.  Um levantamento do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, mostra que a expansão da pós-graduação no Brasil é puxada pelas humanidades.  À Folha de S.Paulo o coordenador do estudo, Eduardo Viotti, justifica com base nos altos custos a baixa ampliação de doutorados em ciências exatas e da terra (aquelas voltadas para o estudo dos sistemas naturais do planeta Terra).

Márcia e Ana Maria acrescentam a essa explicação o aumento de vagas nas faculdades particulares, concentradas em carreiras de custo baixo.  A formação de caráter científico quase sempre requer dedicação integral, o que já elimina aqueles candidatos que precisam trabalhar.  A possibilidade de frequentar cursos noturnos aumenta o tempo da graduação e sofre concorrência das ofertas populares na linha “dois diplomas em dois anos”.

Mesmo assim, apenas 16% dos jovens entre 18 e 24 anos estão fazendo curso superior.  Para Barroso, da UnB, antes de pensar na economia e nos empregos, é preciso se preocupar com a massa crítica brasileira.  A seu ver, a população está despreparada para discutir temas de interesse coletivo de natureza científica, como bioética, aborto, células tronco.

“É como aquele middle class americano. São pessoas de baixa instrução, mas que podem comprar. A gente caminha para isso”, diz o professor. A sentença combina com o diagnóstico de Moreira Salles: “O País prospera à força de consumo, não de investimento ou invenção.  Compramos coisas que foram pensadas lá longe, as quais serão brevemente superadas por outras coisas que também não terão sido pensadas aqui.  É um processo estéril”.

Passo acelerado
Nas palavras do professor Drugowich, o Brasil aprendeu a investir dinheiro em pesquisa, mas ainda não sabe transformar pesquisa em dinheiro.  Isso significa que há um gap entre o aumento exponencial da produção científica e os benefícios socioeconômicos percebidos.

O relatório mais recente sobre o Brasil do think tank Thomson Reuters qualifica o salto de produtividade científica como “fenomenal”.  O País passou de 8 mil artigos publicados em 1998 para mais de 20 mil em apenas dez anos.  Só o estado de São Paulo publica tanto quanto Argentina, México e Chile somados.

O salto marcado em pouco mais de uma década reflete o resultado de políticas públicas importantes.  Os 16 fundos setoriais iniciados em 1999 bombearam novos recursos para Pesquisa & Desenvolvimento, apesar de um longo período de contingenciamento voltado para garantir superávit fiscal.  Embora o orçamento do Ministério da Ciência e Tecnologia esteja estagnado há anos em torno de 1% do PIB, o próprio crescimento do País possibilitou melhora dos investimentos nessa área.

“O problema é que nos países desenvolvidos, como EUA e Japão, os investimentos privados têm muito mais importância.  E no Brasil são muito pequenos.  Se tirarmos a indústria de informática, o resto é praticamente nulo”, diz o físico José Davidovich, representante da Academia Brasileira de Ciências.

Para Davidovich, remediar esse panorama requer uma mudança cultural no setor produtivo, acostumado durante décadas a um mercado fechado e à inflação extremada, que estimulavam mais especulação que produção.  Em pesquisa realizada pelo IBGE, em 2005, com 95.300 empresas, apenas 6.168 declararam alguma atividade de P&D.  A Lei da Inovação, aprovada em 2004, oferece incentivos fiscais, mas até o ano passado só 441 empresas haviam buscado o benefício.

Segundo o professor Drugowich, a concentração de C&T nas universidades sem conexão com o setor produtivo também tem raízes históricas, acentuadas durante o regime militar: “A gente achava errado porque a universidade era o último reduto de autonomia que não tinha sido vendido para os militares.  Essa interação academia-indústria começa muito timidamente na década de 80 e só desabrocha nos anos 2000”.

É talvez irônico que as grandes realizações da ciência brasileira sejam justamente resultado de projetos econômicos estratégicos.  Destacam-se a Embrapa, a dupla ITA/Embraer e a indústria do etanol.  Projetos de longo prazo que, no entanto, ainda não inspiraram aventura semelhante em outras áreas.  No ano passado, o País perdeu 18 posições no ranking de inovação global da Insead – de 150º para 168º – e a revista The Economist pergunta: “O Brasil pode se tornar inovador em seus próprios termos ou o crescimento recente não passa de um efeito collateral do apetite chinês por commodities?”

Para a Unesco, que no relatório sobre ciência em 2010 elogia os avanços brasileiros, restam ainda três desafios fundamentais: reduzir as disparidades regionais (quatro universidades no estado de São Paulo respondem por 60% das publicações científicas do País), incentivar P&D para os negócios, não apenas com recursos públicos, mas criando um ambiente profícuo para o investimento privado, e internacionalizar as melhores universidades.

No capítulo de conclusão, os autores observam que o investimento público em ciência ainda é questionado nos círculos políticos brasileiros.  Prepararam dois bons argumentos que reproduzimos aqui: “Contribuir para o conhecimento universal torna os brasileiros mais aptos a determinar seu próprio destino”.  Ou, para os mais pragmáticos: “Quanto mais conhecimento uma sociedade obtém com base em métodos científicos, mais rica ela se torna”.

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Memória seletiva

Para o historiador da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Carlos Ziller, se o fator ciência não aparece nas elaborações sobre identidade nacional, isso se deve mais ao radar dos brasileiros que à própria história.  O professor afirma que o Brasil começou urbano, no litoral, e que, apesar dos mecanismos de censura, havia circulação de ciência nesses ambientes.

Segundo Ziller, a obra de Gilberto Freyre fixou a ideia de que a casa-grande, no meio agrário, definiu os traços mais marcantes da nossa cultura.  “Enquanto os historiadores estão preocupados com as relações sociais nas fazendas da época colonial, deixam de lado as atividades culturais produzidas nos centros urbanos.  O Brasil já começou com a marca do conhecimento astronômico, trazido pelas caravelas.  O próprio engenho de açúcar já era uma inovação enorme”, defende o professor.

Um dos motivos que levaram esses aspectos ao esquecimento, segundo Ziller, foram as mudanças do centro das decisões políticas e econômicas, da Bahia para o Rio de Janeiro e, mais tarde, para o Distrito Federal.  “No fim do século XVIII, Salvador estava vicejando.  Quando a capital se desloca, essa história se perde.  Os novos centros vão interpretando o Brasil a partir daquilo que eles eram, ou seja, o Brasil não era nada.”

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