Clima & Economia

O futuro do mercado de carbono

Pouco se sabe o que pode acontecer nas negociações internacionais sobre mudança climática.  Mesmo assim, a compra e venda de créditos continuarão a crescer

As negociações internacionais para a redução de gases-estufa podem parecer lentas.  Isso não quer dizer que os mercados de crédito de carbono estão indo mal.  Ao contrário: eles continuam se recuperando da crise financeira que afetou a economia global nos últimos dois anos e dão indicações de que estão organizados para funcionar em um segundo período de compromisso, o chamado pós-Kyoto.

A 16a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, realizada em Cancún no fim de 2010, conseguiu alguns avanços, mas ainda é incerto se haverá um novo acordo, com compromissos reais após 2012, quando expira o Protocolo de Kyoto.  Mesmo assim, uma recente previsão feita pela consultoria Point Carbon, ligada ao grupo Thomson-Reuters, mostra que o total de certificados de redução na modalidade Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) deve se multiplicar por sete entre 2013 e 2020.  O total passaria dos atuais 513 milhões de toneladas de CO2 equivalente para algo em torno de 3,6 bilhões.

O MDL é um mecanismo reconhecido e aprovado pela ONU para o cumprimento das metas internacionais de redução de emissões.  Permite aos países do Anexo I (os desenvolvidos e com metas) investir em projetos de energia limpa nos países em desenvolvimento (como Brasil, Índia e China) e abater a redução de carbono de suas emissões domésticas.

Essa sinalização do mercado – de que está interessado no certificado internacional – não se trata propriamente de bondade ou desejo de salvar o planeta.  É, na verdade, uma percepção de que, mesmo com o atraso das negociações, o MDL é uma ferramenta eficiente e barata para os países industrializados compensarem suas emissões.

“O MDL vai continuar sendo uma boa opção.  O custo de oportunidade é o melhor, mais barato do que trocar filtro de fábrica na Europa”, comenta o diretor Marco Antonio Fujihara, do Instituto Totum.  Para ele, o ritmo das negociações internacionais não permite previsões muito acertadas sobre como será o novo regime de compromissos.  Ainda assim, o consultor concorda com a tendência de crescimento nos próximos anos apontada pela Point Carbon.

Isso deve ocorrer mesmo com reviravoltas no principal mercado de carbono do mundo – o europeu.  Conhecida pela sigla EU ETS (European Union Emissions Trade Scheme), a bolsa de emissões da Europa tem funcionado como o pilar mestre das transações globais de carbono.  Isso porque, além de compromissos perante Kyoto, os países da União Europeia (incluindo também os não Anexo 1) comprometeram-se a atingir uma redução de 20% das emissões do bloco em 2020, comparado aos níveis de 1990.

Além de papéis gerados com reduções entre os próprios países, o EU ETS aceita, até certo limite, a “importação” de créditos advindos de projetos de MDL.  Recentemente, em janeiro deste ano, a União Europeia decidiu banir créditos gerados por projetos de MDL considerados polêmicos, principalmente os de substituição de gases industriais.  Isso deve afetar China e Índia, países que foram acusados de validar projetos com metodologias duvidosas.

Mesmo assim, as previsões da Point Carbon para o MDL após 2012 não se alteram, e apontam os projetos de energia renovável como dominantes.  “Esperamos que os projetos se movam com significativa rapidez durante o ciclo de análise, graças a uma simplificação dos procedimentos de análise e ao aumento da capacidade dos órgãos decisores e do comitê do MDL”, diz o gerente de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo da Point Carbon, Arne Eik.

O funcionamento do mercado da União Europeia já reflete uma tendência que passou a ser negociada nas altas esferas da ONU: metas nacionais e acordos regionais.  Esse tem sido o tom dos países após a conturbada reunião de Copenhague.  Lá, a maioria das partes apresentou planos domésticos de ação.  O Brasil estabeleceu seu Plano Nacional sobre Mudança do Clima com meta geral de 36,1% a 38,9% na redução de sua trajetória de emissões até 2020.  Por enquanto, as experiências internas de comercializar carbono são incipientes.  Quem sabe se, com a implementação da meta, começam a se aquecer.

Energia renovável torna a economia mais competitiva

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Projeções de crescimento do PIB brasileiro apontam uma taxa de crescimento de 5% ao ano nesta década.  Em 2050, ainda estaremos crescendo 2,5% ao ano e teremos uma população de 260 milhões de habitantes.  Embora o País já tenha uma plataforma energética composta 88% de fontes renováveis, esse crescimento pode dobrar nossas emissões de carbono se mantido o padrão atual de geração de energia, graças à exploração do pré-sal.

Mas, segundo estudo lançado pelo Greenpeace no final do ano passado, o Brasil pode manter suas taxas de crescimento, cumprir o compromisso de cortar emissões e ainda economizar bilhões.  Para isto, deve começar já a ampliar o investimento em fontes renováveis como energia eólica e solar, bem como eliminar termelétricas a óleo diesel, a carvão e usinas nucleares.  A economia fica por conta da eficiência energética e dos custos de geração menos salgados.  Eles tendem a subir mundialmente para os combustíveis fósseis à medida que as emissões de CO2 são valoradas.  O estudo completo pode ser acessado aqui.

O nó do aumento do consumo

beatrizA classe média já constitui metade da população brasileira, e os programas de distribuição de renda, aliados à estabilidade econômica, têm dado poder de compra às classes D e E. Mas ainda são poucas as empresas que se deram conta do potencial que esse mercado representa, como mostra pesquisa sobre mercados inclusivos divulgada pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds) em novembro passado (acesse aqui). Beatriz Carneiro, diretora-executiva da entidade, falou a Página22:

O crescimento do mercado nas classes C, D e E pode aumentar também a pegada ecológica das empresas.  Como lidar com isso? A ascensão dessas classes foi uma grande conquista, determinante para que o Brasil superasse os efeitos da crise financeira global, que ainda afeta alguns importantes mercados.  Mas não podemos perder a visão crítica a respeito desse fenômeno socioeconômico.  A construção desse novo mercado deve contemplar a questão da sustentabilidade, da mesma forma que devemos rever o modelo de produção e consumo voltado para as classes A e B. Esse novo mercado deve ser tratado como parceiro na construção da economia verde.  Ao trabalharmos com as classes C, D e E, poderemos ampliar o alcance de iniciativas como edificações que não desperdicem materiais ou que sejam energeticamente eficientes, por exemplo.

As empresas conseguem lidar com temas tão complexos como os negócios inclusivos e a economia de baixo carbono ao mesmo tempo? A economia de baixo carbono é uma realidade mais concreta entre as empresas.  Hoje até arrisco a dizer que, se não todas, a grande maioria das Energia renovável torna a economia mais competitiva empresas associadas ao Cebds tem, no seu planejamento estratégico, alguma ação ou projeto relacionado à economia de baixo carbono.  Já sobre os negócios inclusivos, o que se vê é que essa é uma oportunidade ainda pouco aproveitada.  Há casos bem consistentes de negócios inclusivos no Brasil, mas as pesquisas que fizemos denotaram um grau de desconhecimento considerável sobre o tema.  O social é o pilar mais frágil da sustentabilidade no Brasil e no mundo.  Até o momento houve avanços mais significativos nas dimensões econômica e ambiental.  Investir nesses negócios, além de ser lucrativo, gera desenvolvimento para as regiões onde vivem as pessoas e encoraja a melhor distribuição de renda, mas ainda há muita oportunidade não aproveitada.

O que as empresas precisam para conseguir lidar com essas agendas complexas lado a lado? O que falta agora é ganhar escala nessas iniciativas das empresas.  E, para isso, o diálogo entre os setores público e privado é imprescindível.  O governo tem feito a sua parte, a regulamentação dos artigos 6º, 11 e 12 da Política Nacional sobre Mudanças Climáticas, com limite para o teto de emissões, foi bem importante.  Mas não adianta as empresas e o governo fazerem cada qual a sua parte, como se fossem duas metas paralelas.  Para chegarmos a um nível significativo de redução de emissões e de ações de mitigação, é importante que haja um diálogo sistemático entre todos nós.  Nessa integração entre empresas, sociedade e governo é essencial que as políticas públicas tenham maior aceitação e sejam plenamente implantadas e disseminadas.

*Jornalistas especializados em meio ambiente.

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