Entrevista: Hugo Penteado

COMO TURBINAR OS INVESTIMENTOS RESPONSÁVEIS NO BRASIL

Enquanto nos Estados Unidos a participação dos investimentos socioambientalmente responsáveis (ISR) beira os 12% do total das carteiras de renda fixa e variável, no Brasil, nem há estatísticas sobre o assunto. Desde 1997 como economista-chefe do Santander Asset Management, Hugo Penteado agregou a seus afazeres em junho a área de ISR. Sua missão é aumentar substancialmente a proporção de investimentos responsáveis na carteira da empresa, hoje calculados em no máximo 3%. Penteado indica que os fundos de renda fixa também passam a fazer parte da estratégia de ISR do Santander.

O Santander resolveu aplicar critérios socioambientais na alocação de recursos para seus fundos convencionais, além dos fundos especializados em sustentabilidade. Valerão para os convencionais os critérios usados hoje nos fundos socioambientais de renda variável?
Queremos que todos os gestores de ativos e analistas de ações conheçam os critérios de investimento responsável que foram usados na avaliação das empresas que pertencem a ambos os portfólios – fundos de ações tradicionais e fundos de ações ISR. No caso do Fundo Ethical do Santander, usamos metodologia própria criada em 2001, que tem total transparência nos seus critérios. Ele foi o primeiro fundo de ISR dos mercados emergentes.

Como é definida a carteira do Ethical? As empresas respondem questionários de maneira voluntária?
Os questionários são respondidos por nós a partir de informações públicas das empresas. O objetivo principal é que a companhia seja transparente. Os PRI (Princípios para o Investimento Responsável, na sigla em inglês, declaração disponível em no site unpri.org) procuram tornar as empresas transparentes nessas informações. Como no Brasil nem sempre as informações são satisfatórias, a gente também entra em contato com a empresa depois de ter as informações públicas absorvidas.

O Brasil está muito abaixo da média da Europa e dos EUA no que se refere aos investimentos socioambientalmente responsáveis (ISR)?
Não há no país estatísticas sobre o volume de investimentos responsáveis. Aqui na área de ISR do Santander Asset Management a proporção dos investimentos é muito pequena, de 2% a 3% apenas. O objetivo no mundo todo é ampliar a abordagem de investimentos responsáveis para o máximo possível de modalidades de aplicação de aportes. Como o Brasil tem uma característica de investimentos em renda fixa, a ideia é incorporar esse conceito também nessa modalidade.

O que fazer para os ISR deslancharem no País?
Temos de uniformizar as metodologias de análise das empresas e que elas sejam validadas por organismos externos às firmas de investimento. Imagina que sou produtor de tomate e chego a um supermercado dizendo que meu tomate é orgânico. Quem decidiu que ele é orgânico? Eu? O mesmo vale nos ISR. Não posso decidir que meu fundo tem um critério que criei e que ele seria sustentável com base nessa norma.

Isso dificulta a decisão do investidor na escolha do fundo que receberá seus recursos?
O ideal seria ter uma uniformização do mercado. Dessa forma, o investidor olharia mais para o melhor desempenho com a clareza de que os critérios de avaliação das empresas estão sendo seguidos de forma correta por todos, porque têm validação externa. Isso é um desafio.

Os fundos referenciados nos IRS teriam maior credibilidade com a uniformização das metodologias e a validação externa dos critérios?
Isso daria para o investimento maior credibilidade. Mas não que a credibilidade hoje seja baixa. As empresas que trabalham com essa modalidade têm obrigação de mostrar a metodologia e mostrar como está trabalhando esse quesito. Mas imagina que um investidor responsável no Brasil terá de estudar várias metodologias para definir sua escolha.

Como é isso lá fora, na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo?
Desse jeito também, eles não têm uniformização ainda, embora essa discussão também começa a ocorrer nessas regiões. Os movimentos estão indo na direção de ter um selo do ISR, que abarcaria padrões socioambientais e de governança corporativa.

Como você vê o potencial de os investidores interferirem de maneira mais incisiva no desempenho sustentável das empresas?
Temos uma classe importante de investidores institucionais, que são os fundos de pensão. No Brasil, já há uma legislação que estimula os fundos de pensão a olhar mais para essa modalidade de investimentos responsáveis (consulte a Resolução 3.792/09, do Banco Central). Como são investidores muito grandes e de longo prazo, eles conseguiriam com isso reforçar a prática dentro de uma classe importante de investimentos que exercerá um efeito cascata para os private banking e investidores do varejo. A disseminação tem vários caminhos a percorrer, como a renda fixa e os títulos privados, incluindo as debêntures.

É significativo o espaço para aplicar os princípios do ISR no mercado brasileiro de debêntures?
É um mercado incipiente, mas que está crescendo. Temos no Santander Asset umas 30 operações de debêntures avaliadas no prazo de seis meses dentro dos critérios de ISR para alocá-las nos fundos de renda fixa. Nos fundos de renda fixa, tudo  que hoje é debênture está passando pela avaliação de ISR. A ideia é ampliar para outros títulos privados como os CDBs (Certificados de Depósito Bancário) e com o mesmo tipo de abordagem. No Santander, começamos em agosto de 2010 a fazer a avaliação de riscos socioambientais das empresas emissoras de debêntures. A depender da nota que ela recebe, alocamos mais ou menos debêntures nos fundos convencionais de renda fixa (a empresa emissora das debêntures consegue receber um volume maior de dinheiro pelos títulos que entram no fundo de renda fixa quando tem nota mais alta).

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