Entrevista com Vanessa Petrelli Corrêa

Painel da  ONU discutirá indicadores mais abrangentes

O debate sobre indicadores mais abrangentes que o PIB será um tema central do Painel de Alto Nível – anunciado no início de agosto pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon – para discutir a agenda de desenvolvimento global após 2015 e do grupo intergovernamental que definirá os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). É o que prevê Vanessa Petrelli Corrêa, uma das 26 personalidades nomeadas por Ban para o painel da ONU e entrevistada por Página22 enquanto ocupava a presidência interina do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), cargo recentemente transmitido ao economista Marcelo Neri, da FGV.

Como a experiência com os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) poderá ajudar na definição dos ODS?

Pelos resultados dos ODM, os indicadores para medir os avanços de desenvolvimento não devem desconhecer os avanços na distribuição de renda, redução da pobreza e melhoria na educação. Você pega o PIB de dois países. O PIB de um país cresceu sem distribuir renda. O outro PIB cresceu melhorando saúde, educação e preservando as condições ambientais. Qual dos dois países tem um melhor desenvolvimento? Indicadores meramente econômicos são insuficientes. O debate sobre os indicadores será uma questão central tanto no painel da ONU como no grupo intergovernamental que debaterá os ODS.

Tal discussão poderá gerar massa crítica para pensar em novos indicadores?

Posso dar um exemplo clássico. A taxa média de crescimento do Brasil de 2004 a 2011 foi de 4,3% ao ano, relativamente menor que a dos outros países dos Brics. Só que o Brasil cresceu distribuindo renda, reduzindo a pobreza drasticamente, e não necessariamente isso aconteceu em todos os Brics. Portanto, são discussões fundamentais nesse debate o conceito de desenvolvimento e qual é a métrica que o mensura.

Qual será a participação do Ipea na definição dos indicadores para monitorar os ODS?

Eventualmente, o Ipea pode ser chamado a participar de uma mesa-redonda sobre o assunto. Mas isso deverá ser primeiramente um movimento do governo brasileiro. O Ipea teve participação importante no acompanhamento dos ODM, que foram definidos por uma comissão da ONU. No caso dos ODS, eles serão fruto de uma discussão entre governos.

Enquanto os ODM limitam-se ao mundo em desenvolvimento, os ODS serão universais. Como isso influenciará a negociação dos ODS?

Obviamente, essa não será uma discussão trivial. A convergência não é direta, especialmente porque serão tratadas questões vinculando corresponsabilidades, inclusive financeiras. Isso envolverá uma discussão longa. O importante é que lá sejam tirados princípios e indicadores e acordadas as corresponsabilidades. E um dos elementos fundamentais é pensar o futuro sem separá-lo da questão ambiental. É pensar as condições de avanço do desenvolvimento a longo prazo com o meio ambiente dentro. A análise do desenvolvimento sustentável já é por si só um tema para o próprio Brasil, que não pode destruir uma riqueza única.

Mas o modelo atual de investimentos em infraestrutura tem atropelado prerrogativas ambientais. Como a senhora vê o desafio de crescer sem cruzar os limites ecológicos?

Pensar nisso é pensar nos padrões de consumo dessa população que estamos incluindo, no transporte coletivo, coleta de lixo, energia, na complexidade de nossas cidades médias, que estão crescendo muito rapidamente. Por isso, esse é um debate brasileiro, sobre como crescer sem destruir o meio ambiente. Outra coisa interessante no processo de definição dos ODS é que possivelmente serão feitas discussões entre países que pertencem ao mesmo bioma.

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