Quem opera o novo sistema

Cada vez mais, o profissional de sustentabilidade nas empresas deixa de ser visto como custo, e sim como alguém que agrega valor ao negócio. A má notícia é que a esperada transversalidade ainda não aconteceu

O belga e hoje residente em São Paulo Martin Bernard deixou há três meses a companhia de busca de executivos (executive search) da qual era sócio para montar um negócio próprio na mesma área, mas com um objetivo mais bem definido: prestar consultoria na procura de líderes e executivos ligados à sustentabilidade para empresas engajadas no tema. Chamada People 4 A Better World, é a primeira empresa de caça-talentos (headhunter) desse tipo no Brasil.

Por ser uma butique, não encontra candidatos no “varejo” com anúncios de vagas. A companhia busca meticulosamente os profissionais mais qualificados e capazes de lidar com os desafios de uma governança empresarial baseada na sustentabilidade. Ao explicar seu negócio, Bernard logo esclarece: “Não trabalho buscando profissionais, mas, sim, pessoas, porque não somos seres divididos entre a parte que trabalha e a que não trabalha”.

Pode parecer apenas uma diferença de palavras, mas, quando o assunto é sustentabilidade, estão em jogo elementos além da capacidade técnica e tempo de experiência. “Preciso ver no candidato as emoções, os valores e o brilho que tem nos olhos. Ele precisa acreditar no trabalho”, explica Bernard. Raramente essas características são procuradas em processos seletivos tradicionais e essa é uma mudança de comportamento que sua empresa pretende trazer.

O momento da entrevista é fundamental para que se alcance essa conexão sincera. Em vez de salas de reuniões frias e mesas tradicionais, Bernard propõe espaços informais, como um sofá em uma sala bem decorada com obras de arte que chamem a atenção do candidato. “Isso muda sua postura, ele se sente confortável e evita o uso daquela costumeira ‘máscara da entrevista’”.

DEFINA-ME OU TE DEVORO

A People 4 A Better World centra-se apenas em uma parte do grande sistema de recursos humanos que forma uma companhia. O profissional que atua no tema da sustentabilidade está em várias áreas, posições e setores. Defini-lo não é tarefa fácil nem objetiva, pois este pode ser desde o engenheiro ambiental até o diretor de operações, o professor, ou o voluntário que presta serviços a uma ONG.

Essa amplitude foi um dos fatores que levaram à criação em 2011 da Associação Brasileira dos Profissionais de Sustentabilidade (Abraps). Entre seus objetivos, está o de representar, conectar e fortalecer a atuação de quem é ligado a áreas como meio ambiente e responsabilidade corporativa. Marcus Nakagawa, consultor em educação para a sustentabilidade, idealizador e presidente, explica que não há restrições de ordem profissional para uma pessoa aderir à associação [1], visto que ainda é necessário saber quem compõe esse mercado.

[1] Basta que se pague uma taxa anual de R$ 150 para integrar a entidade. Dessa forma, o associado tem seu contato inserido na mala direta da Abraps, ganha descontos em cursos e pode participar de eventos do grupo

Um levantamento na mala direta da Abraps mostrou que 40% dos associados vêm de empresas privadas, 21% de consultorias e 10% de institutos, como ONGs. Os 29% restantes trabalham em atividades diversas. “As pessoas se associam em busca de informação e networking. Somos todos agentes de mudanças, e muitas vezes batemos cabeça sozinhos nas empresas”, diz.

A Abraps publicou em outubro sua primeira pesquisa sobre a atuação dos profissionais de sustentabilidade, realizada em 2011 pela consultoria Deloitte. Foram convidadas a participar da sondagem 80 companhias brasileiras que possuem departamentos de sustentabilidade consolidados. Desse universo, 23 aceitaram o convite. Juntas, elas empregam 387 mil funcionários.

No quesito sobre salários, observou-se que os profissionais de sustentabilidade recebem o equivalente aos das demais áreas. Quase um quarto das empresas consultadas pretendia expandir o quadro de funcionários da área em 2012 e 74% manteriam o tamanho da equipe. Além disso, 65% possuíam estagiários na área, uma média de dois estudantes por empresa.

O diretor da PricewaterhouseCoopers (PwC) no Brasil, Ernesto Cavasin, afirma categoricamente que as grandes empresas já possuem alguma ação ligada à sustentabilidade – seja ela vinculada à gestão ambiental, à responsabilidade social, seja ao compromisso de publicar relatórios anuais de suas atividades corporativas. Para o executivo da PwC, o profissional da área ganha cada vez mais importância no mercado de trabalho. “Esse trabalhador deixou de ser visto como um custo e aquele que cria entraves. Passou a ser tratado como mitigador de riscos, sobretudo, por conta da maior fiscalização pelo governo e do monitoramento mais rigoroso da sociedade civil sobre os impactos socioambientais das empresas. Hoje, esse profissional agrega valor ao negócio”, afirma Cavasin. Um exemplo são metas de maior eficiência energética ou consumo de resíduos.

rep22TRANSVERSALIDADE LONGE

Ainda assim, a tão sonhada transversalidade – quando a sustentabilidade passará a permear todas as áreas, desde o fornecimento de matérias-primas até a propaganda de produtos e serviços – não está tão próxima. Esse foi o tema da dissertação de mestrado de Marcus Nakagawa, a ser defendida no fim deste semestre.

Sua pesquisa mostra que o assunto continua mais ligado à busca de eficiência no uso de energia, água e matérias-primas e a processos, tais como contração de fornecedores, gestão de recursos naturais e participação no Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), da BM&FBovespa. “O assunto deveria estar mais voltado para os produtos e serviços finais que as empresas oferecem. Um ou outro produto que é feito de material 100% reciclável ganha muito destaque, porque ainda é uma novidade. Tinha de ser algo mais corriqueiro”, afirma Nakagawa.

Já Cavasin, ao imaginar o futuro bem próximo da carreira de sustentabilidade, traça um paralelo com a questão da informatização na década de 1970. “Naquela época, a empresa tinha um operador em uma sala cuidando de um único computador. Nos anos 1980, mais gente começou a mexer com essas máquinas, até a popularização nos anos 1990. Hoje, a informática é o coração de qualquer negócio, o que explica a grande importância do CIO (do inglês Chief of Information Officer, ou diretor da área de tecnologia da informação), que faz parte do quadro dos altos executivos em algumas empresas. Vejo a mesma coisa acontecendo com a sustentabilidade”, afirma.

A criação de comitês e comissões de sustentabilidade são bons indicativos de que o tema ganha espaço e relevância nos negócios. A CPFL Energia, maior distribuidora privada de energia elétrica do Brasil, por exemplo, tem ambos. Seu comitê de sustentabilidade foi implantado no começo de 2012. É formado por diretores de diversos segmentos da companhia que debatem mensalmente tudo o que envolve questões ambientais e sociais.

Graças ao comitê, foram aprovadas duas metas para o fim deste ano: reduzir em 12% as emissões de gases de efeito estufa referentes aos quilômetros rodados pelos veículos de toda a empresa e em 5% o consumo de papel. Acima do comitê e respaldando sua atuação está a comissão de sustentabilidade. Seu poder decisório é similar ao do Conselho de Administração, com quem se comunica diretamente. Tal robustez deve-se à presença na comissão de dois membros do conselho e um representante dos acionistas. Isso facilita a implementação e a aceitação das propostas relacionadas à área socioambiental no alto escalão da empresa.

Augusto Rodrigues, diretor de comunicação empresarial e relações institucionais da CPFL, é também o coordenador do comitê. Ele explica que a ação conjunta do comitê e da comissão é fundamental para alinhar os diferentes níveis hierárquicos da companhia. A sustentabilidade já influencia quaisquer decisões que a CPFL toma. “Como também produzimos energia, nosso negócio está muito associado ao meio ambiente. Anos atrás, notamos como a menor disponibilidade de água em um rio afetava a atividade de nossas hidrelétricas. Resolvemos, assim, incluir desde 2009 o tema em nosso planejamento estratégico”, diz.

Em 2011, a CPFL criou um braço só para a produção de energia limpa e renovável, a CPFL Renováveis. Já são 34 pequenas centrais hidrelétricas, oito parques eólicos e quatro usinas de biomassa. Em novembro, deve entrar em operação sua primeira usina solar, em Campinas, no interior paulista.

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