Revolução às avessas

A exploração crescente do gás de shale põe em xeque a expansão das fontes renováveis
A tão sonhada revolução energética ambiental, fundamental para frear as emissões de gases-estufa e seu efeito mais perverso, o aquecimento global, parece estar acontecendo no campo da energia fóssil. A rápida revitalização da indústria dos Estados Unidos, associada à redução das emissões de CO2 do país para os mesmos níveis registrados em meados de 1990, chamou a atenção do mundo para o shale, ou folhelho, em português – popularmente conhecido como xisto no Brasil. Trata-se de uma rocha presente em boa parte do globo que pode liberar grande quantidade de gás natural (metano) depois de um sofisticado processo de fraturamento hidráulico [1]. O Brasil é um dos países que veem o gás de shale com grande interesse: em novembro a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) deverá realizar a 12ª Rodada de Licitações [2], voltada para a exploração de gás convencional e não convencional (gás de shale).

O debate sobre os impactos ambientais ainda é recente e tão controverso que a extração do gás de shale está proibida em alguns países, como França, e até mesmo em alguns estados americanos, como Nova York. Embora o gás natural seja a fonte mais limpa entre os fósseis – emite entre 50% e 70% menos gás carbônico do que o carvão –, o processo de extração do shale gera pelo menos duas incertezas de natureza ambiental. Existe a possibilidade de o metano escapar para a atmosfera, eliminando assim a vantagem climática do não convencional em relação aos demais fósseis [3]. E há também o risco de contaminação do solo e dos lençóis freáticos pelo coquetel de produtos químicos que, depois de preencher as fraturas das rochas e expelir o gás incrustado, é recolhido à superfície e depositado em lagoas.

Até certo ponto, o gás natural é visto com bons olhos pelos ambientalistas. Em estudos de cenário de energia para 2050, o Greenpeace elimina o carvão, os óleos combustíveis e a energia nuclear da matriz energética e mantém apenas o gás natural para suprir as falhas eventuais de geração das usinas de fontes renováveis (hidráulica, solar e eólica). O coordenador da campanha de energias renováveis do Greenpeace Brasil, Ricardo Baitelo, explica que, apesar de ser um combustível fóssil, o gás natural será importante na transição para uma matriz energética renovável. “Sempre teremos necessidade de energia de base termelétrica que possa ser despachável quando necessário”, reconhece. Porém, dados os riscos detectados na exploração de gás de shale, Baitelo defende o uso do gás natural convencional retirado das chamadas rochas reservatório, onde em geral também se encontra petróleo.

As formações de folhelho rico em gás são conhecidas há muitos anos. Mas, em 2005, os EUA introduziram nova tecnologia na exploração, o fraturamento horizontal das rochas [4], aumentando a produtividade dos poços e viabilizando economicamente o gás de shale. Não demorou e descobriram-se folhelhos ricos também em óleo em regiões ao norte do país. Segundo o gerente da empresa de consultoria Gas Energy, Marcelo Mendonça, essa rápida sequência de episódios derrubou o preço do gás de shale – de US$ 10 por milhão de BTU para US$ 2,5.

A queda nos preços da energia local contribuiu para a indústria americana reassumir o seu status de grande player no mercado internacional. “Além de reverter o processo de queda de competitividade do seu complexo industrial, o país passou a dominar o mercado de gás e de petróleo de shale”, analisa Mendonça.

A “ERA DO GÁS”

Assim como o Brasil, a China e vários outros países vão tentar replicar o sucesso americano. Isso pode mudar o cenário geopolítico mundial do petróleo, assim como a própria estrutura econômica global. Na avaliação do físico José Goldemberg, ex-reitor da Universidade de São Paulo (USP), a corrida pela exploração do shale poderá colocar em xeque o mercado do petróleo convencional.“Estamos diante da ascensão de uma ‘era do gás’, o que deve ser uma nova revolução energética, como foi o carvão no século XIX”, afirma Goldemberg. Se isso for verdade, projetos de produção de petróleo muito caros, como o pré-sal brasileiro, correm o risco de se tornar economicamente inviáveis.

Goldemberg não crê que o Brasil consiga acompanhar o ritmo dos EUA, onde foram perfurados cerca de 20 mil poços de shale em menos de dez anos. “Além de toda a infraestrutura que será necessária, as empresas que ganharem o direito de exploração terão dificuldade de obter licenciamento com o Ibama”, assinala o físico. E não é só isso. De acordo com o vice-diretor do Instituto de Eletrotécnica e Energia (IEE) da USP, Colombo Celso Gaeta Tassinari, as bacias sedimentares [5], onde se encontram as rochas de shale, precisarão ser estudadas exaustivamente antes do início da prospecção.

“Hoje sabemos apenas que existe a reserva de folhelho, mas não sabemos quanto gás ela aprisiona.” Uma vez feito esse levantamento, serão necessários estudos para avaliar as características petrofísicas da rocha e garantir um processo seguro na execução do fraturamento hidráulico. Ou seja, há um longo percurso até que as primeiras porções de gás de shale sejam extraídas em segurança do subsolo. “A produção não deve ocorrer em menos de 10 anos”, calcula Colombo Tassinari.

[1] Pequenas explosões provocam fraturas nas rochas; o gás é expelido quando um composto químico preenche essas fraturas.
[2] A 12ª Rodada ainda precisa de autorização do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) para ocorrer.
[3] O potencial de aquecimento do metano (CH4) é 21 vezes superior ao do CO2 ao longo de cem anos.
[4] Ao atingir o folhelho, a sonda se curva e faz a exploração horizontal do poço em um raio de até 1 quilômetro.
[5] As bacias de Parecis, Parnaíba, Paraná, São Francisco e Recôncavo Baiano estão entre as cotadas para a rodada.

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