Fio de incerteza

Solução aparente para desastres ecológicos, usinas sem reservatório viram pretexto para sujar matriz elétrica do Brasil

Usinas a fio d’água foram adotadas como solução para atender ao crescimento da demanda brasileira por energia nas próximas décadas sem precisar alterar a formidável estrutura da matriz elétrica do País – baseada na maior parte em fontes renováveis, com 81,9% da geração provenientes de hidrelétricas e 6,6% de biomassa [1]. A tecnologia do fio d’água – apesar de tolerar um pequeno alagamento para além das margens naturais do rio em alguns casos – dispensa a formação de grandes reservatórios, como os de Itaipu, no Paraná, Tucuruí (Pará) e Sobradinho (Bahia), que produzem efeitos devastadores às populações humanas e à fauna e flora locais. A alternativa do fio d’água parece ótima na teoria, mas na prática vê-se que não é tão simples.

De solução sustentável, as hidrelétricas a fio d’água hoje se transformaram em argumentos favoráveis ao fomento das termelétricas movidas a combustíveis fósseis, como carvão mineral, gás natural e óleo combustível, os principais vilões das emissões de gases estufa e partículas poluentes na baixa atmosfera. Ao contrário das usinas com grandes reservatórios, que fornecem energia mesmo na estação seca, uma usina a fio d’água aproveita a vazão natural do rio que, por sua vez, depende das chuvas, condição que torna esse modelo vulnerável. Sobre esse cenário, pesam, ainda, os impactos adversos decorrentes das mudanças do clima, o chamado risco climático.

Na opinião do diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires, as fontes hídricas perdem o poder de regularizar o sistema elétrico a partir do momento em que o governo passa a construir hidrelétricas a fio d’água. Turbinada a fio d’água, a Usina de Belo Monte, no Pará, ilustra bem o problema. Sua capacidade instalada é de cerca de 11.200 megawatts, mas possui energia assegurada de apenas 4.500 MW em média ao longo do ano. “Na época das chuvas, vai até verter água, mas durante a seca pode ser que não se produza nada, porque não há um reservatório”, afirma Pires.

As termelétricas, além de suas instalações mais simples e econômicas, não dependem da sazonalidade climática. É essa característica que serviu como argumento para o Ministério de Minas e Energia (MME) incluir térmicas movidas a combustíveis fósseis na série de leilões agendados para este ano pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Mas a que preço? O valor monetário da energia de fonte fóssil e não renovável pode até ser competitivo. Contudo, ao embutirem-se os custos das externalidades negativas provocadas pelas térmicas, sobretudo as mudanças climáticas, o dilema volta à estaca zero.

Os prós e contras que alimentam esse trade-off (conflito de escolhas) do setor elétrico não param aí. Embora aparentemente tentem figurar como uma resposta à pauta ambientalista, o modelo fio d’água também pode acarretar enormes impactos socioambientais. Belo Monte de novo é um bom exemplo. “É fácil dizer que a energia gerada a partir da água é a mais barata do mundo quando o custo não computa o sofrimento das pessoas que habitavam a região inundada”, argumenta Iury Paulino, da direção nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). “É inadmissível permitir que uma grande riqueza como a energia de Belo Monte saia da região, enquanto a população que deu o local para fazer tudo aquilo é alocada em casas que se assemelham a um campo de concentração”, protesta Paulino, referindo-se ao reassentamento de aproximadamente 8 mil famílias ribeirinhas na região do Xingu em conjuntos habitacionais pré-moldados.

Qual será, afinal, a combinação que melhor proporciona segurança energética e atenua danos socioambientais? O coordenador do programa de clima do WWF-Brasil, Carlos Rittl, crê que o Brasil possui vasto potencial para suprir sua demanda por décadas com fontes renováveis.

Segundo ele, o governo precisa ser mais rigoroso com as medidas de mitigação de impactos gerados na construção de usinas a fio d’água e complementar sua matriz com eólicas, cuja produção é inferior a 5% do potencial do País para essa fonte; com biomassa da palha de cana-de-açúcar e de resíduo de madeira de produção legal; e, por fim, com energia solar fotovoltaica.

A solução para o conflito de escolhas ainda não está evidente, mas o estudo do Cebds sobre clima e energia surge como importante contribuição para diminuir as incertezas. O estudo analisou três situações – a de uma usina a fio d’água de até 30 MW, uma usina com até 100 MW e outra com mais de 1.000 MW. Os resultados apontam que, de fato, a vulnerabilidade das usinas a fio d’água em um cenário de mudanças climáticas supera a de usinas com reservatórios. “Se não for assegurada uma oferta complementar de energia por meio de outras fontes além da hídrica, cria-se, a médio prazo, um ambiente de insegurança energética no Brasil”, advertem os autores do estudo.

[1] Os dados fazem parte do Estudo sobre adaptação e vulnerabilidade à variabilidade climática: casos do setor elétrico brasileiro, lançado em julho pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), com apoio da WayCarbon e da Conservação Internacional (veja os dados aqui)

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