Vida além dos shoppings

Como no Brasil, a ação violenta da polícia nos protestos de maio e junho em Istambul também acendeu o pavio de pólvora que levou uma manifestação a ganhar a adesão de centenas de milhares de pessoas em toda a Turquia. Inicialmente um protesto contra a construção de um shopping center no Parque Gezi, uma das últimas áreas verdes no coração da antiga Constantinopla, a mobilização transformou-se em caixa de ressonância para um mar de insatisfações.

Na mira dos ativistas, medidas autoritárias do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan e o modelo de desenvolvimento urbano acelerado que tem destruído áreas de importância ambiental e prédios históricos para abrir espaço à construção de shopping centers, torres comerciais e do maior aeroporto do mundo, segundo plano do governo. Em abril, a polícia já reprimira violentamente protestos contra a demolição do icônico Cine Teatro Emek, que também cederá lugar a um shopping center.

Uma das mais promissoras lideranças da Turquia no tema da sustentabilidade, Aysegül Güzel , 30 anos, esteve por quase três semanas na Praça Taksim, onde fica o Parque Gezi. Pelo Skype, ela relatou a PÁGINA22 detalhes do cotidiano da ocupação da praça. Contou, por exemplo, que foi possível colocar em prática no local a filosofia da Zumbara, um projeto de banco do tempo que promove a troca de serviços sem o uso de dinheiro, no que ela chama de economia da doação.

A senhora vê conexões do ponto de vista temático e do método de organização entre os protestos de maio e junho na Turquia com os dos Indignados na Espanha, o Occupy Wall Street, nos Estados Unidos, e os de junho no Brasil?

Acreditamos que todos esses movimentos em diferentes países estão conectados de alguma forma. No nosso caso, o Parque Gezi está no meio da cidade, dentro da Praça Taksim. Ele era um bom símbolo para mostrar a transformação urbana que está ocorrendo na Turquia. É um típico caso de transformação urbana severa, que, suponho, também ocorre no Brasil. Há lugares onde os pobres vivem, a cidade começa a crescer, esses lugares ficam mais na moda e investidores tentam fazer dinheiro com os novos negócios imobiliários. O governo diz aos pobres que devem se mudar do local. Ou de alguma maneira as pessoas não conseguem mais pagar o aluguel, que encarece. Neste momento, existem muitos lugares na área central onde o governo está incentivando a construção de hotéis e outros empreendimentos, em vez de cuidar dos bairros da periferia de Istambul.

A cidade de São Paulo terminou 2012 com 53 shopping centers e atravessa no momento uma forte onda de investimentos em torres comerciais, novos shoppings e edifícios residenciais no centro expandido.
Todas as regiões metropolitanas do mundo estão passando por isso.

Por que o Parque Gezi é tão importante para a população de Istambul? A imprensa noticiou na época dos protestos que ele é uma das últimas áreas verdes da região central da cidade.

Não é a última área verde, mas certamente não há muitas restantes em Istambul. Mas a razão dos protestos não foi somente essa (o plano do governo de construir um shopping center na área do parque). Os protestos não iniciaram agora, estavam acontecendo desde o ano passado, mas eram manifestações de base mais comunitária e festivais de músicas, por exemplo, mas não era um tópico popular. A Praça Taksim, assim como seu entorno, é uma área muito importante, porque é o centro da cidade, é onde a transformação urbana ocorre, é onde todos os protestos ocorrem.


Os protestos na Praça Taksim então ocorreram durante um ano?

A Praça Taksim é onde acontece qualquer manifestação por qualquer razão. Mas por cerca de um ano ocorreram manifestações especificamente no Parque Gezi, que fica dentro da praça. Se você me pergunta por que tudo isso estava ocorrendo, eu não tenho uma resposta pronta para isso. Há várias explicações. Quando começaram a cortar as árvores lá, as pessoas começaram a protestar contra isso no Facebook. Alguns passaram a dormir no parque e a polícia tentou retirá-los. No dia seguinte, havia mais gente e a polícia atacou novamente. Mais pessoas foram para o local e a polícia voltou a atacar. Também planejam reconstruir um quartel e um centro de música (uma mesquita também faz parte dos planos do governo para remodelar a praça e o parque, implantado sobre um antigo cemitério armênio, aterrado no fim da década de 1930).


A remodelagem urbana do parque e da praça teria então sido apenas o estopim de uma mobilização com objetivos mais amplos?

Quando você pergunta sobre as razões dos protestos, não há uma única resposta para todas essas questões. O fato é que houve um grande movimento de pessoas provocado por diferentes razões, muitos traumas. Isso aconteceu pela primeira vez na Turquia, foi realmente surpreendente. Acho que em parte foi uma motivação inspirada nos movimentos anticapitalistas. Outra razão foi a necessidade de uma expressão de liberdade plena. Quando digo liberdade, é de fato ser o que eu quiser que seja, aceitando as diferenças. Houve muitas explicações (apontando os motivos dos protestos) no governo do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan e seu partido (Partido da Justiça e Desenvolvimento, AKP, na sigla em turco). Não quero dizer no sentido de uma ditadura, de um partido islâmico. Quero ser muito cuidadosa com todos esses tópicos, especialmente quando falo com a mídia estrangeira. As pessoas gritam, tentando expressar o que pensam e sentem. Apenas querem viver sua vida e aceitar a vida dos outros, e que os outros aceitem a sua. É como uma simples e clara mensagem humanística. Mais que isso, houve uma consciência das pessoas e o significado da liberdade ficou mais claro para nós. Não foi como pedir ao governo que nos dê liberdade, foi mais como viver com boa qualidade de vida, com respeito ao outro.


Entre os países de maioria islâmica, a Turquia é conhecida por ter um grau razoável de separação entre religião e Estado e há muitos muçulmanos turcos que defendem a tradição secular do regime republicano instaurado no início do século XX. A mistura entre as duas coisas pelo partido governante foi um dos aspectos questionados nos protestos recentes. Qual sua opinião sobre esse tema do Estado secular?

Tenho um ponto de vista diferente sobre o assunto. Por exemplo, na Turquia há um grupo de pessoas que apoia Mustafa Kemal Atatürk (1881-1938) que fundou a República da Turquia, como um país secular, que fez muitas mudanças, mas a liberdade foi limitada a um grupo de pessoas. Na Turquia, temos sofrido muito por causa disso. O que estava sentindo no último momento é que as pessoas querem liberdade para todos, não apenas para um grupo de pessoas. Nesse sentido, quando você diz que este é um movimento secular, esse é um tópico muito difícil na Turquia, que ainda divide a população turca. No Parque Gezi, havia pessoas segurando bandeiras com a imagem de Atatürk, que é um mito na Turquia. É muito complicado dizer qualquer coisa negativa sobre ele. Esses são geralmente os secularistas.


A senhora participou dos protestos de maio e junho na Praça Taksim?

Estive lá desde o primeiro dia.


O que aconteceu durante esse período, as pessoas discutiam política, ouviam música? Pode descrever um pouco as atividades que se faziam durante o período?

A ocupação do Parque Gezi durou 20 dias e, por mais de 10 dias, a polícia não conseguiu entrar na Praça Taksim e imediações, isso foi uma coisa muito boa. Foi como se estivéssemos em um Estado independente. Por 20 dias, Gezi ficou ocupado por uma comunidade auto-organizada, com muita liberdade, capaz de tomar suas próprias iniciativas. Todos se perguntavam o que poderiam oferecer para aquela comunidade. Houve muitas trocas, cooperação, um espírito incrível.


Em linha com os valores de sua entidade, a Zumbara, com sua ideia do banco do tempo, de trocar tempo para ajudar os outros?

Sim, estávamos tentando essa economia alternativa há seis anos e pude viver meu sonho durante esses 20 dias. Todos sentimos bastante confiança um no outro e tentamos nos apoiar, de acordo com as necessidades da comunidade, na cozinha improvisada, na limpeza. Um dia redesenhamos o ponto de ônibus na Praça Taksim. Senti-me muito viva, como se estivesse em minha casa ao longo dos 20 dias, foi tão poderoso! De certo, não foi tudo (cor-de-rosa). Obviamente, sofri muito com os ataques da polícia, muito medo, muitas provocações do governo, vimos claramente como por todo o tempo eles estavam usando a mesma estratégia de separar as pessoas, isso foi tão claro, horrível. Isso também me transformou, agora tenho uma ideia clara de como a política funciona. Pensava e lia sobre o assunto, mas nunca vi isso antes tão claramente. Também sabia sobre terrorismo, sobre alienar as pessoas, pensava nesse nível intelectual, mas nunca vi que era tão fácil (ser acusado) de terrorista. O governo nos chamava de “terrorista”, e respondíamos: “Que merda de terroristas?”

Não fazia sentido o governo chamar os ativistas de “terroristas”?

Claro que não. Foi uma estratégia do governo para mostrar uma situação adversa para a mídia. Mostrar que os
manifestantes não eram bons indivíduos, que não se devia acreditar neles. Creio que é uma estratégia de separação das pessoas, enquanto o espírito no Parque Gezi foi de unidade.


Quantas pessoas participaram da ocupação?

Isso mudava. Na primeira noite, cerca de 30 dormiram lá, na noite seguinte, 1.000 pessoas compareceram e 100 dormiram. Um dia depois, 10.000 pessoas, e umas 1.000 dormiram. O dia depois talvez 300.000 pessoas apareceram na Praça Taksim. Moradores dos outros bairros vieram também, porque havia vários problemas nas áreas fora da zona central de Istambul e em outras cidades do país. Os ativistas diziam que, durante o dia, eram como Clark Kent (risos), pois as pessoas iam ao trabalho de dia e à noite, para a praça (o jornalista Clark Kent, identidade secreta do Super-Homem).


A participação máxima em Istambul foi então de 300 mil pessoas em um desses 20 dias?

É difícil responder, mas na noite de 31 de maio, uma sexta-feira, e manhã de 1º de junho, um sábado, ao redor de 300 mil pessoas. E mais gente protestando nos bairros.


Como a concentração popular na Praça Taksim espalhou-se por toda a Turquia?

Isso foi possível também pela comunicação por meio das redes sociais, o Facebook, sobretudo. Já havia razões para as manifestações. A população estava sofrendo, tinha tópicos para discutir e expressar publicamente. Havia diferentes razões para gritarmos nas ruas, de alguma forma sermos vistos, mas as redes sociais espalharam mensagens que levaram as pessoas ao Parque Gezi, e do Gezi para Istambul e de Istambul a outras cidades. Esse foi o motivo que tornou tão viva a mobilização, pelo jornalismo-cidadão que foi produzido naqueles 20 dias, realmente poderoso. A grande mídia não mostrava nada. Vivo em Istambul e meus pais em Adana, no sul da Turquia. Falava com eles diariamente por telefone e lhes pedia para não acreditarem na mídia, para checarem notícias sobre os protestos no Facebook. Um amigo que também estava na Praça Taksim tentava explicar aos pais por que a ocupação era importante, que não iria embora do lugar, e os pais pediam para ele voltar para casa, que ele poderia ser ferido. O efeito dos jovens explicando a seus pais por que aquilo era tão importante, o que estavam fazendo na praça, foi uma coisa muito poderosa, e em toda a Turquia.


Como a grande mídia noticiou os protestos?

No primeiro dia, não mostrou nada, foi como se nada estivesse acontecendo. Depois, foi como algo controlado, eles fizeram um péssimo trabalho.


Pode explicar melhor como funcionou o jornalismo-cidadão que a senhora mencionou?

Muitos na praça fizeram transmissões ao vivo pela internet. Havia, por exemplo, um canal de televisão pela internet. Sempre o assistia quando eu não estava em Taksim. Agora não estamos mais no Parque Gezi, mas muitos fóruns estão acontecendo em Istambul, e dentro dos fóruns há grupos de trabalho, onde se conversa sobre qualquer coisa, e alguns estão ministrando oficinas de jornalismo.


No dia 5 de agosto, a Justiça condenou com penas de prisão a maior parte dos 275 militares, intelectuais, jornalistas e políticos da oposição acusados de tramarem um golpe de Estado contra o governo do primeiro-ministro Erdogan, 19 com prisão perpétua. Há algum vínculo entre o julgamento e os protestos?

É um assunto muito relevante, mas é um outro tópico. Prefiro não dar meu ponto de vista, porque é um tema muito complicado sobre o qual não tenho informação suficiente. Certamente, tudo está conectado de alguma forma, mas a informação não está tão transparente para se ter uma ideia clara do que está acontecendo. Em 5 de agosto, foi a decisão final de um julgamento que já durava cinco anos. Há, inclusive, militares das Forças Armadas. Tivemos três golpes de Estado na história da República. Essas pessoas estavam planejando um novo golpe. Já os manifestantes tinham diversas demandas ao governo, como liberdade de expressão, modificações no modelo atual de desenvolvimento urbano e outros problemas sociais e políticos (organizações de direitos humanos e oposicionistas alegam que vários condenados são inocentes, inclusive jornalistas investigativos que escreveram reportagens críticas ao governo de Erdogan).


Após a onda de protestos em maio e junho, os ativistas estão organizando um novo partido político, um movimento social, uma organização similar ao 15-M dos Indignados na Espanha, por exemplo? Qual foi o aprendizado político com a ocupação da Praça Taksim e do Parque Gezi?

Aprendemos quão poderoso é estar auto-organizado, para ter esperança novamente em nós mesmos. Estávamos quase perdendo a esperança (risos) e podemos agora avançar, dizer “eu quero” e tomar iniciativas. Eu e amigos criamos, por exemplo, uma nova entidade chamada “Baraka”, com a finalidade de promover o aprimoramento de capacidades e habilidades por meio de um processo de diálogos.


Com amigos da Zumbara?

Não, outras pessoas. Mas a Zumbara também está fazendo coisas diferentes. Estamos vendo como podemos apoiar conversações sobre economia alternativa na universidade e tentando ver como dar mais poder às pessoas na comunidade. Acredito que isso transforma as pessoas e as organizações. É difícil, às vezes fico muito frustrada porque tudo é lento, democracia é muito difícil, mas penso que estamos aprendendo. Sobre partido político, sei que há pessoas estudando e trabalhando para eles, mas não estou interessada em nenhum partido, no sentido de que não é o tópico que está me consumindo mais energia no momento.


O que há de comum entre os protestos e o trabalho da Zumbara?

Vivi naqueles 20 dias o que estamos chamando de espírito de Gezi. Foi algo incrivelmente poderoso, porque estava vivendo o mundo que imaginamos em Zumbara. Um mundo em que as pessoas usam o dinheiro como expressão de gratidão, vivem numa cultura da doação com a consciência de unidade, integridade e abundância.


A senhora poderia explicar o significado da palavra “Zumbara” e o porquê de sua escolha para batizar a organização?

Zumbara não significa nada no sentido literal. É uma contração de “zaman kumbarast”, que quer dizer “cofrinho do tempo” em turco (o cofre em forma de porco usado pelas crianças). Gostamos mais da expressão “cofrinho do tempo” do que “banco do tempo”, e numa chuva de ideias com amigos tivemos essa ideia da palavra “zumbara”.


A senhora conheceu a experiência do banco do tempo em Barcelona, onde viveu por quatro anos. O banco do tempo da Zumbara é uma inspiração para um tipo de economia da doação nos âmbitos nacional e global ou um projeto de corte mais comunitário?

Conheci o banco do tempo no bairro onde morei em Barcelona. Mas há uma distinção entre a iniciativa da qual participei na Espanha e a nossa iniciativa em Istambul. Combinamos o banco do tempo com uma poderosa rede social e utilizamos uma linguagem de um modo que os jovens possam aplicar as ideias do projeto no seu dia a dia. De fato, vejo o banco do tempo como ferramenta para apoiar relacionamentos, confiança e comunidades resilientes. E como inspiração para uma cultura da doação que leve as pessoas a se questionarem sobre o significado do dinheiro, do tempo, o que elas amam fazer na vida, as habilidades e experiências que lhes proporcionam prazer e felicidade.


A onda de protestos facilitou o trabalho de divulgação e expansão da Zumbara?

Definitivamente. Fizemos um grande esforço para promover eventos na sede da Zumbara e atividades pela internet. Organizamos muitos círculos de doação, dias de troca. Eventos como esses estão agora se espalhando muito rapidamente por toda a Turquia. Além disso, estamos operando por meio de um modelo comunitário autossustentado com a figura do iniciador de comunidade. Pessoas interessadas em iniciar comunidades Zumbara em suas cidades, bairros, escola e empresa estão entrando em contato conosco e depois as acolhemos em nossa comunidade de iniciadores de comunidades. Compartilhamos experiências, ideias e inspirações livremente. Depois da ocupação do Parque Gezi, mais pessoas passaram a nos procurar para introduzir a Zumbara em suas comunidades.


A senhora não pensa que o banco do tempo mantém a ideia estrutural da economia de mercado onde tudo tem de ser trocado por alguma coisa? Uma verdadeira economia da doação não seria uma em que ofertas são genuinamente desinteressadas da obrigação de troca?

Obrigada por sua pergunta. Nós não trocamos dinheiro por tempo. Descobri ser o banco do tempo uma linda iniciativa, uma vez que ajuda as pessoas a questionarem sua percepção sobre o tempo. Além do mais, penso que é positivo pedir reciprocidade, especialmente nas grandes cidades, onde tudo é tão veloz e o tempo é a coisa mais importante. Dessa forma, creio que o banco do tempo é um modelo econômico alternativo muito interessante. Não nos esqueçamos de que modelos diferentes de compartilhamento podem apoiar-se mutuamente. É bom que inovemos com diferentes modelos. Eu dou meu apoio a quem queira iniciar um experimento econômico com modelo distinto de compartilhamento.


A senhora poderia mencionar alguns exemplos específicos de trocas fomentadas pelo banco do tempo da Zumbara?

Variam bastante. Posso citar, entre outros, aulas de Photoshop, prática de línguas estrangeiras, oficinas de produção de instrumentos musicais e aulas de culinária.


Poderia dizer se tem uma religião e se é adepta do Estado secular?

Opto por não me expressar e identificar por etiquetas.

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