Entre chimpanzés e bonobos

Traços do comportamento humano têm origem em nossos parentes primatas. Em se tratando de ciência política, no entanto, a complexidade aumenta e não basta acreditarmos em um pensamento baseado apenas na bipolaridade entre “esquerda” e “direita”

Embora não seja muito usada no Brasil, a mais influente metáfora zoológica sobre as tendências políticas da época moderna é a que compara o ouriço à raposa, inspirada em um verso do poeta grego Arquíloco de Paros (século VII a.C.): “Muitas coisas sabe a raposa, mas o ouriço uma grande”.

Virou uma espécie de fábula na pluma do grande historiador das ideias Isaiah Berlin (1909-1997) com o propósito de iluminar a tensão entre o monismo, comum a todas as grandes doutrinas, e sua própria preferência pelo avesso, o pluralismo. Como o ouriço, visões de mundo unitárias cultuam uma grande verdade, enquanto o manejo de valores conflitantes exige os dons da raposa.

Todavia, quanto mais avançam as pesquisas científicas, mais vai sendo confirmada a hipótese de que estão em parentes muito mais próximos dos seres humanos os fundamentos de suas ideologias. Propensões egoístas e altruístas, competitivas e cooperativas, agressivas e pacíficas, correspondem à dupla herança legada aos humanos pelas duas espécies do gênero Pan: o chimpanzé propriamente dito (Pan troglodytes) e o bonobo (Pan paniscus).

A profícua produção em primatologia do americano de origem holandesa Frans de Waal mostra que as duas espécies são bipolares, mas que, por razões evolutivas bem fáceis de explicar, comparados a chimpanzés, os bonobos demonstram muito mais tolerância, empatia e reciprocidade, além de também serem bem mais altruístas, cooperativos e pacíficos.

Nem por isso, tais evidências autorizam associações da esquerda com a herança que viria predominantemente dos bonobos e da direita com a dos chimpanzés, como ocorreu em debates na grande imprensa dos Estados Unidos, pois a bipolaridade se refere muito mais à tensão entre comportamentos autoritários e libertários, que ocorrem tanto na direita quanto na esquerda, como fartamente demonstrou a história do século XX.

Essa confusão parece inevitável num país que se acostumou a etiquetar pessoas e movimentos de esquerda de “liberais” e os de direita de “conservadores”, mas é inaceitável o contrabando feito pelo Datafolha quando afirma que “48% dos brasileiros se identificam com valores ideológicos de direita”.

Adotada em outubro, essa nova catalogação das inclinações político-ideológicas dos brasileiros usou uma enxuta lista de dez alternativas muito mais relacionadas à oposição entre valores autoritários e libertários, inadequadas para avaliar a contradição direita/esquerda.

ANALISE_GraficoClaro, uma pesquisa desse tipo não poderia prever quatro opções de respostas a 62 questões, como faz o meticuloso teste proposto pela britânica “bússola política” (ver em politicalcompass.org). Mesmo assim, basta conhecer a abordagem geral desse teste para que se entenda o equívoco do Datafolha.

Como mostra a figura ao lado, em um gráfico de sistema cartesiano ortogonal, a contradição esquerda/direita aparece no eixo das abscissas, e a autoritária/libertária, no das ordenadas, localizando todas as possíveis combinações (pares ordenados) em quadrantes: o da direita autoritária, o da esquerda autoritária, o da esquerda libertária, e o da direita libertária.

Quem puder experimentar esse pedagógico teste notará que ele contém surpresas bem mais divertidas do que se poderia imaginar. Ainda mais se também for possível comparar os resultados de um grupo de amigos, mesmo que todos fiquem no mesmo quadrante.

*Professor titular da USP e autor de A Desgovernança Mundial da Sustentabilidade (ED. 34: 2013). www.zeeli.pro.br

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