Estrelas cadentes

Regulamentações para combater o excesso de luz artificial são crescentes no mundo, mas no Brasil ainda existem poucos avanços

A energia elétrica trouxe diversos benefícios à sociedade. Graças a ela, foi possível estender a duração da jornada produtiva e das atividades recreativas que exigem luz. As cidades começaram a contar com a iluminação artificial a partir da segunda metade do século XIX. Passados cerca de 50 anos, os astrônomos americanos perceberam que o excesso de luz deixava os céus cada vez mais brilhantes, prejudicando a observação das estrelas e dos astros.

Era o primeiro alerta de poluição luminosa, que corresponde a toda a iluminação utilizada de modo excessivo e inapropriado, de acordo com apostila elaborada pelo Laboratório Nacional de Astrofísica. Hoje, esse tema é um campo multidisciplinar, pois a poluição luminosa tem impactos comprovados sobre os seres humanos e a natureza.

Os efeitos da luz artificial sobre a fauna e a flora já são bem conhecidos. Por exemplo, a exposição prolongada à luz artificial impede muitas árvores de se ajustarem às variações sazonais. Essa mudança traz implicações para espécies que dependem das árvores como habitat natural.

Pesquisas sobre insetos, tartarugas, aves, peixes, répteis e outras espécies selvagens mostram que a poluição luminosa pode alterar comportamentos, áreas de alimentação e ciclo reprodutivo, não apenas nos centros urbanos, mas também nas áreas rurais (Leia mais). Por outro lado, os efeitos da poluição luminosa sobre a saúde humana ainda são incertos, embora haja uma quantidade convincente de evidências que apontam para uma associação entre a exposição à luz artificial à noite e problemas de saúde, como distúrbios do sono,
alterações hormonais e até câncer de mama.

Combater o excesso de luz artificial que causa tantos danos é simples, mas o assunto é pouco divulgado. A International Dark-Sky Association (IDA) [1] recomenda que, em toda instalação luminosa, a luz incida única e exclusivamente na área que precisa ser iluminada. Por isso, luminárias que projetam a luz somente em uma direção são mais indicadas, ao contrário daquelas que dispersam iluminação lateralmente ou para cima, causando assim o efeito do brilho – aspecto alaranjado do céu que dificulta a visualização das estrelas. É o caso de muitas luminárias disponíveis no mercado, como os modelos esféricos ou globos de luz, bastante comuns em praças públicas.

[1] Referência no tema, foi a primeira organização americana a chamar atenção para os perigos da poluição luminosa

Para Tânia Dominici, astrofísica do Museu de Astronomia e Ciências Afins e pesquisadora do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e autora do blog Poluição Luminosa, é preciso que “arquitetos, engenheiros e outros envolvidos em construção civil e no redesenho estético das cidades e edificações eliminem essas luminárias de seus projetos”. Segundo ela, nos Estados Unidos já existe certificação para luminárias que considera os critérios de uma iluminação eficiente.

Além de luminárias mal projetadas, há iluminação em excesso nas cidades. A ideia de que iluminar um bairro ou uma região em particular possa reduzir o índice de criminalidade local não é consenso e foi criticada pela IDA. Um programa de iluminação pública mal concebido, feito sob o critério de combater crime e vandalismo, pode trazer às pessoas uma falsa sensação de segurança e desperdiçar recursos que seriam mais bem gastos no policiamento das ruas. “No Reino Unido, várias cidades estão optando por desligar a iluminação em lugares específicos e têm registrado queda na criminalidade. Há estudos que indicam que a iluminação mal concebida pode incentivar a criminalidade, por ser ofuscante e criar uma cegueira temporária nas pessoas”, afirma Tânia.

Para colaborar com projetos de ciência cidadã, que buscam alertar o público para o impacto da poluição luminosa, procure o projeto Globe at Night ou baixe os aplicativos para smartphone Dark Sky Meter (iOS) ou Loss of the Night (Android).

Muitos outros países estão avançando no combate à poluição luminosa. O número de regulamentações é crescente no mundo. Uma lei aprovada este ano na França obriga prédios comerciais a desligarem suas luzes a partir de 1 hora da manhã. As luzes de monumentos públicos também são mantidas acesas apenas nas áreas mais turísticas das cidades. O Chile, as Ilhas Canárias e o Havaí também têm desenvolvido ações nesse sentido.

No Brasil ainda existe pouca mobilização em torno do assunto, mas iniciativas como a certificação Leed [2], para construções sustentáveis, têm muito a contribuir. O Brasil ocupa a 5º posição no ranking em quantidade de edificações certificadas, totalizando 185 empreendimentos. Para obter o selo, o empreendimento precisa apresentar medidas de redução da poluição luminosa nas edificações, levando em conta a iluminação interna e a externa. “Algumas ações propostas para áreas internas são a redução da potência de luminosidade em ao menos 50%, ou seu total desligamento após o horário da jornada de trabalho comum”, comenta Felipe Faria, diretor da Green Building Council Brasil. Para tanto, os projetos consideram sistemas de monitoramento e controle de iluminação, timers para acionamento automático, sensores de presença, painéis de controle de iluminação etc. Outras opções são o acionamento automático de persianas ou aquelas de fachada que permitem a passagem de até 10% da luminosidade da área externa.

A poluição luminosa impede também que um décimo da população mundial tenha a experiência de ver a Via Láctea à noite. De acordo com o relatório The First World Atlas of the Artificial Night Sky Brightness [3], o brilho artificial do céu está acima do limiar da visão noturna.

O fotógrafo australiano Mark Gee produziu um vídeo para promover a Semana Internacional dos Céus Escuros, em abril de 2014, com imagens que ressaltam a diferença entre ambientes com luminosidade excessiva e a visão do céu no escuro. Ele considera que esta pode ser uma boa forma de educar as pessoas sobre o problema, já que as imagens provam que há um espetáculo de estrelas passando sobre as cidades diariamente que não é possível apreciar.

[2] O Leadership in Energy and Environmental Design (Leed) é um sistema internacional de certificação e orientação ambiental para edificações. O Green Building Council Brasil oferece cursos sobre a ferramenta

[3] Elaborado por P. Cinzano, F. Falchi, e C.D. Elvidge em 2001, este relatório foi publicado pelo periódico Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, um dos principais veículos acadêmicos em Astronomia e Astrofísica.

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