Potenciais para economia de baixo carbono

Levantamento analisou cinco setores nos quais o Brasil reúne requisitos para se estabelecer como uma potência econômica e ambiental

Um dos aspectos em que o Brasil tem um grande destaque no contexto internacional é o ambiental. A questão está em consolidar um modelo de desenvolvimento que transforme esse patrimônio em um fluxo de riquezas, valorando o capital natural e reforçando, assim, as vantagens comparativas do País.

Um levantamento realizado pelo GVces [1], com apoio do Environmental Defense Fund (EDF), analisou cinco setores nos quais o País reúne requisitos para se estabelecer como uma potência econômica e ambiental, considerando a atual participação no PIB, o potencial de crescimento e as atuais e futuras regulações sobre emissões de gases-estufa. São eles: etanol de cana-de-açúcar; florestas plantadas e reflorestamento comercial; energia limpa e renovável; agricultura de baixo carbono; e mercados emergentes de serviços ecossistêmicos.

A conclusão é que, embora cada um dos setores tenha enfrentado dificuldades nos últimos anos, há potencial para expansão de energias renováveis alternativas, ações de eficiência energética, um mercado consumidor extenso para o etanol, e a possibilidade de aliar ganho de produtividade e eficiência com redução e remoção de emissões tanto na agropecuária quanto na silvicultura. A seguir, alguns trunfos, dificuldades e oportunidades em cada área:

ETANOL. Segundo maior fabricante de etanol no mundo, atrás dos EUA, o Brasil apresentou forte crescimento nos anos 2000. Mas, sobretudo após a safra 2007/08, o setor sucroenergético tem sofrido com o controle de preços da gasolina (seu principal substituto) e o alto endividamento. Pesam a favor do País o fato de o etanol de cana-de-açúcar possuir maior produtividade e potencial de redução de emissões e a grande frota de veículos flex fuel, com mais de 20 milhões de automóveis. Assim, apesar da crise atual, a expectativa é de que a produção e o consumo de etanol dobrem até 2022, com enfoque no mercado interno.

FLORESTAS. O Brasil ocupa a segunda posição também no ranking mundial de cobertura florestal, atrás da Rússia, mas com apenas 0,8% destinado à produção florestal legal. O clima e a disponibilidade de terras e água fazem com que o País apresente a maior produtividade no setor em comparação com o resto do mundo – especialmente na produção de eucalipto e pinus. Mas, com obstáculos de infraestrutura e fundiários, deixa de figurar entre os cinco principais exportadores de produtos florestais. Mesmo assim, a área de florestas plantadas no País pode crescer dos atuais 7 milhões de hectares até 17 milhões de hectares em 2025. Em relação às florestas nativas, o Brasil reúne 20% das espécies do mundo, e, estudos indicam que, caso a totalidade da biodiversidade brasileira fosse explorada de forma sustentável, geraria cerca de US$ 2 trilhões ao ano.

RENOVÁVEIS. No campo das energias renováveis, o cenário é favorável à fonte eólica (onshore); difícil para as fontes biomassa e PCHs em função dos elevados custos; e incerto para solar fotovoltaica, em estágio inicial de desenvolvimento no País. O potencial de crescimento é afetado pela atual insegurança regulatória. Do lado da demanda, ações que promovam a eficiência energética possuem custo inferior ao de expandir a rede e são objeto de programas como o Procel, que em 2013 contribuiu para uma economia de quase 10 TWh, cifra abaixo do potencial de mais de 50 TWh por ano.

AGROPECUÁRIA. Respondendo por 22,5% do PIB em 2013, a agropecuária deve sua pujança ao aumento de produtividade, às condições climáticas e à disponibilidade de terra, o que deve permitir elevar a produção em 34% até a safra 2022/23. Por outro lado, o setor foi responsável por 29,6% das emissões de gases-estufa em 2012. Aí está uma grande oportunidade: a agropecuária tem o potencial de reduzir suas emissões em até um terço até 2020, por meio de ações contempladas no Plano de Agricultura de Baixo Carbono – Plano ABC, especialmente na produção de gado de corte. Além do benefício ambiental, as medidas aumentam a produtividade e a eficiência e melhoram a projeção do produto brasileiro em mercados internacionais.

SERVIÇOS ECOSSISTÊMICOS. Os mercados de serviços ecossistêmicos vão de incipientes a meramente voluntários. No primeiro caso, é possível citar o de títulos florestais – as Cotas de Reserva Ambiental (CRAs) – com potencial para abater 56% do déficit de Reserva Legal e movimentar até R$ 24 bilhões. Similarmente, os Créditos de Logística Reversa de Embalagens (CLRs) já estão sendo emitidos por cooperativas de catadores. Em relação às emissões de gases de efeito estufa, as iniciativas ainda são voluntárias, por exemplo, os projetos de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal e o papel da conservação, manejo e aumento de estoque florestal (Redd+). Um mercado de redução de emissões está previsto na Política Nacional sobre a Mudança do Clima, mas ainda não foi regulamentado. Com as políticas públicas e as estratégias de investimento corretas, o Brasil poderá se consolidar como uma superpotência econômica e ambiental mundial.

[1]Brasil – Potência Econômica e Ambiental No Século 21, Foco na economia de Baixo Carbono foi coordenado por Mario Monzoni e Guarany Osório, com equipe técnica formada por Gustavo Velloso Breviglieri, Renato Armelin e Susian Martins.

 

* Coordenador do GVces
** Coordenador do programa de Política e Economia Ambiental do GVces

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