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Apesar das incertezas climatológicas, especialistas falam em agravamento do quadro e lenta recuperação dos reservatórios

As incertezas em relação ao comportamento do clima no Sudeste devem demorar a se dissipar, em meio à mais grave crise hídrica vivida pela região nas últimas oito décadas. Passado o período chuvoso (outubro a março), as condições de abastecimento público, entre outros usos (produção agrícola, geração de energia etc.), continuam críticas, desafiando os prognósticos de quando efetivamente será possível recuperar o nível dos reservatórios.

A despeito dos recentes avanços observados no campo da ciência climática, ainda existem limitações técnicas para acertar na previsão de chuvas, observam os climatologistas. Mas é possível traçar alguns cenários.

Os especialistas alegam que fenômenos cada vez mais frequentes e extremos, por vezes claramente associados à mudança climática, representam um enorme desafio à compreensão de muitas anomalias sem precedentes no planeta. As opiniões também se dividem na comunidade científica quando o assunto são os efeitos do desmatamento na Amazônia para a regulação do clima no País, sobretudo no Sudeste, onde, “principalmente no verão, as chuvas ocorrem pela grande umidade vinda daquela região”, lembra Gilvan Sampaio, meteorologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Em um quadro de escassez, as atenções se voltam agora para cenários hidrológicos, que, bem ou mal, permitem antever as condições de abastecimento das áreas mais afetadas. Contudo, pressionada pelo crescimento da população, além de outros usos não residenciais, a tendência de consumo ainda é de alta e, mais uma vez, foi impulsionada pelas altas temperaturas do verão.

O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, instalou no início de 2014 uma rede de 30 pluviômetros automáticos (somados a outros sete do Departamento de Águas e Energia Elétrica – DAEE) para monitorar as chuvas nas bacias de captação do Sistema Cantareira, principal complexo de reservatórios que abastece a Grande São Paulo.

Com o agravamento da crise, os relatórios semanais têm sido divulgados pelo website cemaden.gov.br.

O trabalho contempla cinco cenários de precipitação: média climatológica (1930-2013); 25% abaixo; 50% abaixo; 25% acima; e 50% acima da média, com base no histórico mensal de temperaturas, explica José Antonio Marengo, pesquisador titular e climatologista do Cemaden.

Com base nos registros acumulados até 10 de fevereiro, por exemplo, mantidas as precipitações da média climatológica, o volume armazenado no Sistema Cantareira seria de 173,80  hectômetros cúbicos [1](hm³) (13,70% de 1.269,02 hm³), no término da estação chuvosa (30 de abril). No fim da estação seca (30 de setembro), ficaria em 193,98 hm³ (15,29%), alcançando 226,01 hm³ (17,81%) em 1º de dezembro. Em um cenário de chuvas 40% abaixo da média – como ocorreu no último trimestre de 2014 –, o total armazenado somaria 87,41 hm³ (6,89% de 1.269,02 hm³). Nessa hipótese, o segundo volume morto (reserva técnica) dos reservatórios se esgotaria em oito meses.

[1]  1 hm³ equivale a 1 milhão de metros cúbicos (m3)

A estiagem de 2013 e 2014, com reflexos que se prolongam por 2015, foi de grande intensidade, e comprometeu seriamente os níveis de armazenamento dos principais sistemas produtores de água do Sudeste. “A recuperação dos reservatórios não deverá acontecer tão cedo. A expectativa é que isso somente seja possível, no mínimo, daqui dois ou três anos”, avalia Tércio Ambrizzi, climatologista do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG-USP).

“A situação só melhoraria se ocorresse um dilúvio gigantesco, mas certamente improvável”, diz Marengo. Como a probabilidade de recuperação dos reservatórios é muito baixa, mesmo que a situação melhore um pouco, “continuaremos usando o limite como no cheque especial”, compara.

Águas até março

O regime de chuvas no Sudeste (que têm ocorrido mais em forma de pancadas isoladas e sem regularidade) não deve alterar-se significativamente até março, e é pouco provável que as precipitações se “desloquem” para o período menos chuvoso e seco, a partir de abril, analisa Ambrizzi.

O quadro hídrico e as condições climáticas em 2015 exigem muita cautela “porque o cenário é de agravamento”, define Augusto José Pereira Filho, meteorologista do IAG-USP. Neste momento, ele enfatiza, “a saída seria aumentar a eficiência do sistema [de abastecimento público] e mudar os hábitos da população. A economia de água é urgente, e não pode mais ser adiada”.

“Passaremos pelo período chuvoso sem recuperar o volume morto”, resume Antonio Carlos Zuffo, professor do Departamento de Recursos Hídricos da Faculdade de Engenharia Civil da Unicamp. A seu ver, durante a construção do Sistema Cantareira (1967/72 e 1977/82), não foram considerados estudos [2]  bastante conhecidos sobre variações climáticas com impactos hidrológicos significativos, argumentando que períodos climáticos cíclicos – que acarretam cheias e estiagens – são provocados por mudanças na atividade solar.

[2]  Leia mais sobre os ciclos solares no artigo “O Sol, o motor das variabilidades climáticas

Alguns estudos científicos, como os dos Ciclos de Suess, de Hallstattzeit, de Gleissberg e o de Schwabe, reforçam a teoria dos ciclos solares, “atividades naturais que não devem ser desconsideradas no planejamento hidrológico”, defende.

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