A preço de laranja

Ao usar como matéria-prima um resíduo das processadoras de suco, a TerpenOil oferece um produto de limpeza não poluente, enquanto dá destinação a sobras industriais

A arte de imitar a natureza com o propósito de fazer bons negócios e ao mesmo tempo evitar danos ambientais tem potencial de mobilizar inovações em diversas atividades econômicas. Os exemplos se multiplicam, com destaque para o mercado da química verde, onde transita a TerpenOil. Esta pequena empresa de Jundiaí (SP) achou um filão para lá de promissor: a fabricação de produtos naturais de limpeza geral e tratamento do ar, livres de cloro e outros químicos convencionais que são tóxicos e de origem fóssil, produzidos com maior emissão de gases de efeito estufa.

Voltada inicialmente para a crescente demanda corporativa por produtos e serviços de baixo impacto, eficientes e de custo competitivo, a novidade tem como matéria-prima básica o terpeno – componente vegetal responsável pela assepsia da natureza, muito comum na casca de cítricos. Trata-se de uma substância orgânica presente em sementes, flores, folhas, raízes, frutos e madeira. Uma tonelada de terpeno da laranja gera 3% de ativo, também usado para tintas, solventes e aromas, além de produtos de limpeza.

“O segredo do crescimento está no apelo da saúde e bem-estar, na tecnologia e na diversificação de aplicações”, aponta o diretor da empresa, Marcelo Ebert. O empreendedor trocou há sete anos o trabalho com análise de risco no mercado financeiro pelo novo negócio, que hoje fatura R$ 500 mil por mês e absorve como insumo o resíduo do processamento de laranja em fábricas de suco. Assim, a solução fornece um atributo de sustentabilidade adicional: a redução de desperdícios mediante o aproveitamento comercial de sobras industriais.

A ideia surgiu quando o administrador de empresas José Luiz Majolo, sócio da TerpenOil, recebeu um vendedor de produtos de limpeza na pousada que montou em meio à Mata Atlântica no interior de São Paulo, após deixar a vida estressada como alto executivo de um banco. A fórmula daqueles desinfetantes produzidos artesanalmente, contendo terpeno, chamou a atenção do empresário, que em 2007 comprou a patente do invento de um professor da Universidade Federal do Ceará.

“O pulo do gato da tecnologia foi potencializar o efeito do terpeno; sem ela, não conseguiríamos fazer produtos com escala, qualidade e preço competitivo”, explica Ebert. Ele informa que concorrentes utilizam o insumo vegetal bruto, de baixo rendimento, em linhas de produtos naturais normalmente comercializadas juntamente com as opções convencionais, à base de petroquímicos, que dominam o mercado [1].

[1] O mercado brasileiro de produtos de limpeza girou R$ 5 bilhões em 2014, metade relativa a lava-roupa e amaciante.

Um empurrão foi a experiência bem-sucedida de retirar graxas de peças de fogões e geladeiras na fábrica da Whirlpool, em Barretos (SP), com redução de 20% no consumo de energia e de 76% no de água. A partir de então, como estratégia para demonstrar os benefícios da inovação e ampliar a participação, a TerpenOil oferece desconto em relação ao custo do cliente com o serviço de limpeza que usa produtos sintéticos. “A economia em água, transporte e espaço para estocagem é evidente”, diz o empresário. Para ele, “apesar do maior entendimento dos tomadores de decisão sobre as questões ambientais, o preço ainda é o critério mais relevante”.

A empresa aposta na tendência de “vegetalização” do setor, e conta hoje com cerca de 80 clientes corporativos, entre bancos, companhias de tratamento de efluentes e prestadores de serviço profissional de limpeza – inclusive alguns que utilizam o produto com marca própria, como mecanismo para disseminar a inovação. “Na parceria, nós fazemos a química e eles, as vendas”, explica Ebert, com planos de desenvolver novas utilidades.

Hoje a matéria-prima vegetal processada pela empresa a partir da casca da laranja está presente em desinfetantes, solventes e desengordurantes de uso rotineiro, mas também em produtos que limpam carros e equipamentos, além da categoria destinada a aromatizar ambientes ou neutralizar odores de lixo e de esgoto.

Em 2013 a TerpenOil se associou ao Banco Santander para formar a Ambievo, especializada em descontaminação de solos à base de/com o uso de terpenos, com previsão de faturar R$ 100 milhões até 2016

A porta de entrada para o varejo, onde a competição das corporações gigantes é feroz, será um projeto cuidadosamente trabalhado como um marco do negócio: o lançamento de um lava-roupa natural. O produto já passou nos testes iniciais e será colocado no mercado em cooperação com uma empresa produtora de enzimas, componentes mais importantes da fórmula. “Como não trabalhamos com insumos sintéticos, tivemos de reinventar todo o processo para chegar ao produto”, explica Ebert, na expectativa de lançar o primeiro lote até o fim do ano.

A iniciativa, segundo ele, poderá triplicar o faturamento da empresa, que também olha para a internacionalização e começou a negociar a venda de produtos para os Estados Unidos. Após consultoria apoiada pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), os materiais de marketing e o site foram reformulados, com tradução para o inglês, e agora os procedimentos internos estão sendo preparados para competir lá fora.

A ida ao varejo e às exportações também será inovadora, segundo o empresário: “Pensamos de maneira diferente desde o início do negócio, sempre com a preocupação de que o consumidor não pague mais caro pelo que é mais sustentável”.

Ficha – TerpenOil

Setor: Química verde (limpeza)

  • Pequena empresa
  • Faturamento 2015: R$ 6 milhões
  • 20 funcionários
  • Fundação em 2007
  • Principais clientes: Santander, Osesp, Inova, Odebrecht Ambiental

O que faz: Desenvolve e comercializa produtos de limpeza, purificação de ar e neutralização de odor utilizando blends à base de terpenos, ativos naturais encontrados nos óleos essenciais das plantas

Inovação para sustentabilidade: A empresa não utiliza em suas fórmulas nenhum componente petroquímico, fosfático, clorado, amoníaco, corrosivo nem conservantes sintéticos. A base de seus produtos são os terpenos extraídos a partir da casca da laranja, ativos encontrados em abundância nos óleos essenciais das plantas e responsáveis pela assepsia da natureza. O terpeno possui propriedades solventes, neutralizadoras de odor e de ação microbiológica, após submetido a processos físicos. Por meio da tecnologia adquirida e desenvolvida pela empresa, foi possível transformar um resíduo em produtos de alto valor agregado

Potencial de replicação e escalabilidade: A empresa possui tecnologia inovadora e possibilita produtos naturais em larga escala com qualidade igual ao sintético, e a preço competitivo. O plano é entrar no mercado de varejo, a partir do lançamento de um lava-roupa natural. Além disso, como o Brasil é o maior exportador de laranjas do mundo, há uma grande disponibilidade no mercado da matéria-prima usada pela empresa

Destaques de gestão: Possui certificação de qualidade ISO 9001 desde 2009 e práticas de planejamento estratégico, segurança do trabalho e gestão de fornecedores