O que tem para comer?

A boa notícia publicada recentemente pela revista científica Nature é que todos os anos a biosfera terrestre absorve cerca de um quarto de toda a emissão de dióxido de carbono (CO₂) produzida por ações do ser humano, como queima de combustível fóssil ou desmatamento. A má notícia é que as emissões geradas nas demais atividades humanas, particularmente na produção de alimentos, se sobrepõem a esse mecanismo natural (o chamado serviço ecossistêmico) de resfriamento da atmosfera.

O problema maior não decorre das emissões de CO₂, mas de metano (CH₄) e de óxido nitroso (N₂O), gases com uma capacidade de efeito estufa 28 e 265 vezes maior que o dióxido de carbono, respectivamente. Boa parte desses gases está associada à produção de alimentos. O metano é jogado na atmosfera em grande quantidade por bovinos e outros ruminantes e por alguns cultivos, especialmente o de arroz. Já a emissão de óxido nitroso está associada ao uso excessivo de fertilizantes e às queimadas.

No entanto, conclusões relacionadas à mudança climática não constituem verdades indefectíveis. O que é verdade hoje pode deixar de ser amanhã. A própria Nature divulgou em fevereiro um estudo realizado por pesquisadores brasileiros e escoceses, intitulado Increasing beef production could lower greenhouse gas emissions in Brazil if decoupled from deforestation, mostrando que o aumento na produção de carne poderia até reduzir as emissões de gases-estufa no Brasil, caso tal produção seja dissociada do desmatamento (acesse pelo link).

De acordo com essa pesquisa, somando-se o aumento da demanda por carne às políticas efetivas de controle do desmatamento, pode-se criar um estímulo à intensificação das áreas de pastagens. E, se essa intensificação se der por meio da recuperação de pastagens degradadas, ocorrerá um aumento significativo dos estoques de carbono no solo, o que, segundo os autores do estudo, será suficiente para contrabalançar o aumento das emissões dos animais.

Mas, enquanto isso não acontece, as carnes continuam cotadas como os grandes vilões do aquecimento global no setor de alimentação. Veja no gráfico o ranking de pegada ecológica da Business Insider, uma revista eletrônica internacional dirigida ao público empresarial.

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