Do Antropoceno ao Obsceno

Os efeitos da pecuária têm sido devastadores para o planeta, em especial para as florestas tropicais. Enquanto se estimula a dieta de carne e laticínios, o consumidor raramente relaciona o que está em seu prato com a destruição ambiental

Um  grande desafio para a humanidade é mudar os hábitos de produção e consumo que destroem o planeta e ameaçam nossa sobrevivência como espécie. A explosão do consumo de carnes e laticínios – e as projeções de que este duplicará até 2050 – levou a Organização das Nações Unidas para a Alimentação  e a Agricultura (FAO) a tratar o impacto da pecuária (de bovinos, suínos, caprinos, ovinos e aves) como problema planetário e urgente. A pecuária produz menos de 2% do Produto Interno Bruto global, entretanto, é a principal causa do aquecimento global junto com o uso de combustíveis fósseis. Contribui para o desmatamento, a destruição da biodiversidade e de ecossistemas vitais.

Muitos brasileiros acreditam que a pecuária bovina seja essencial à economia nacional, ao gerar uma parte importante do PIB. Todavia, o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) e a Cooperação Alemã (GIZ) apontam o setor como de grande risco para investimento, pois as carnes são “alimentos caros”.  A cada 1 real de ganho privado na produção de carne geram-se 20 reais de custos (externalidades) em perdas do capital natural, como escassez e poluição de água potável, infertilidade dos solos e desmatamento. Na prática, os lucros são privados e os prejuízos, públicos! [1].

[1] TRUCOST. Natural Capital Risk Exposure of the Financial Sector in Brazil, January 2015. Disponível em goo.gl/Pqh9TF. Report by Brazilian Council of Businesses for Sustainable Development (CEBDS) and the German Council for International Collaboration (GIZ).

A pecuária é o setor econômico que mais utiliza terras no planeta – 26% da superfície livre de gelo para pastagens, e 33% das lavouras para produção de ração animal, o que resulta em mais de 1/3 das terras úteis do globo.

Entre os ambientes mais pressionados para sua expansão estão as florestas tropicais, reduzidas a menos de 1 bilhão de hectares. O planeta perdeu 600 milhões de hectares de florestas tropicais, cerca de 25% no Brasil. A perda anual média é de cerca de 1%, o que levará o planeta a perder mais de 80% de suas florestas tropicais até o fim do presente século.

Os brasileiros destruíram cerca de 1/3 de suas florestas tropicais – mais de 175 milhões de hectares. A Amazônia Brasileira acumula perdas de 75 milhões de hectares (15% da área original) e a Mata Atlântica, pelo menos 100 milhões de hectares (88% da original). Hoje, mais de 3/4 da área onde foi floresta tropical são ocupados pela pecuária bovina (Meirelles, 2013).

O Brasil dedica 200 milhões de hectares a pastos e a maior parte dos 33 milhões de hectares de soja e dos 15 milhões de hectares da safra de milho (em 2 safras), à alimentação animal, no Brasil ou no exterior. Se a Área de Preservação Permanente e a Reserva Legal forem consideradas equivalentes  a  30%, teremos uma área ocupada de 286 milhões de hectares, 1/3 da superfície do País. No Brasil, apenas em relação à pecuária bovina, um comedor de carne “ocupará”, durante 70 anos, um hectare de ambiente tropical devastado. Ao final da vida, terá comido 20,3 bois (cerca de 2,8 toneladas de carne). Destes animais, pelo menos 7 sairão da Amazônia. Isto porque, em menos de meio século, o Brasil “despachou” mais de 40% de seu rebanho bovino para a região. Se projetado seu crescimento como nas últimas décadas, metade da boiada do Brasil viverá na Amazônia. Como a produtividade altera-se lentamente, será preciso desmatar mais 40 milhões de hectares, área equivalente ao estado do Rio.

O maior desafio é a falta de debate sobre o impacto de nosso consumo e, mais diretamente, interesses públicos diante de interesses de alguns poucos grupos privados que controlam a produção de carnes e laticínios. A falta de atenção dos grandes meios de comunicação, as tradições culturais e os dogmas religiosos agravam ainda mais a ausência de debate.

A obtenção de proteínas para a segurança alimentar sem esgotar os recursos naturais do País e do planeta raramente está nas agendas públicas. Cada vez mais estudos apontam a necessidade de diminuir o consumo de carnes e laticínios (Chattam House, 2015). Mesmo assim, prevalece o modelo de desenvolvimento que valoriza e estimula o consumo desses produtos como parte imprescindível da dieta humana. O consumidor raramente relaciona o que está em seu prato com a destruição do planeta. O que se afigura é que, se não discutirmos agora o impacto de nosso consumo alimentar, a Era do Antropoceno se transformará na Era do Obsceno.