Dia Internacional do Refugiado: pouco a celebrar

O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) divulgou nesta terça (20/6), Dia Internacional do Refugiado, um panorama da situação global de deslocamento humano forçado em 2016. Os números são impressionantes: 65,6 milhões de pessoas deslocadas, sem lar, sem segurança e com direitos cada vez mais restritos – o maior número já registrado pelas Nações Unidas desde sua constituição, em 1945. O contingente de pessoas deslocadas é maior do que a população atual do Reino Unido, o 21º país mais populoso do mundo.

“Este é um número inaceitável, que deixa mais claro do que nunca a necessidade de solidariedade e propósito comum na prevenção e resolução das crises e para assegurar que os refugiados, os deslocados internos e os asilados de todo o mundo sejam adequadamente protegidos”, disse Filippo Grandi, chefe da Acnur. “Em um mundo em conflito, o que precisamos é determinação e coragem, não medo”.

Do total de deslocados em 2016, mais de 22 milhões de pessoas eram refugiados – indivíduos que abandonaram seu país por conta de perseguição política ou conflito armado violento. A Síria continua sendo a principal crise humanitária da atualidade, espalhando mais de 5,5 milhões de pessoas para além de suas fronteiras, principalmente na Turquia e no Líbano. Na África, a crise humanitária no Sudão do Sul, que vive uma disputa violenta de poder entre grupos étnicos, expulsou mais de 730 mil pessoas do país.

Outro contingente importante é composto pelos deslocados internos, aqueles que abandonam suas casas, mas não chegam a abandonar seu país (por vontade própria ou por restrição nas fronteiras). Mais de 40 milhões de pessoas estavam nesta condição no final de 2016, concentradas novamente no Oriente Médio, particularmente no Iraque e Síria, mas também em países em situação de pacificação, como a Colômbia.

Do total de pessoas deslocadas no final de 2016, cerca de 10 milhões delas ficaram nesta condição no ano passado, sendo que 2/3 deste contingente acabaram fugindo de seus países de origem. Ou seja, uma pessoa foi forçada a deixar sua casa a cada três segundos em 2016 – menos tempo do que o necessário para ler esta frase.

A maior parcela dos refugiados (84%) é composta por famílias de baixo ou médio rendimento, sendo que um em cada três refugiados (4,9 milhões de pessoas) foi abrigada em 2016 por um país pobre. O desequilíbrio de refúgio entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento reflete a persistente falta de consenso internacional sobre o tema e a proximidade de muitas nações pobres a regiões de conflito. Ele ilustra também a importância de apoio aos países pobres que abrigam o grosso do contingente global de refugiados.

“Hoje, vivemos em um mundo em que as incertezas são muitas: a instabilidade econômica, as convulsões políticas e a proximidade da violência dos lares pode nos fazer querer fechar os olhos ou fechar nossas portas, mas o medo e a exclusão nos nos levam a um lugar melhor – eles só nos levam a mais barreiras, alienação e desespero”, apontou Grandi. “Está na hora de mudarmos esta trajetória para melhor”.

Os números de 2016 apontam também para algumas boas notícias. O retorno de deslocados e o reassentamento em países terceiros aumentou no ano passado com relação ao ano anterior. Mais de 189 mil refugiados foram reassentados em 37 países em 2016, e quase meio milhão de refugiados e 6,5 milhões de deslocados internos conseguiu retornar a suas cidades de origem – ainda que muitos o tenham feito em circunstâncias longe do ideal.

“O Dia Internacional dos Refugiados é um momento para perguntarmos a nós mesmos o que cada um pode fazer para superar a indiferença ou o medo e abraçar a ideia da inclusão, para receber refugiados em nossas próprias comunidades, e para conter narrativas que busquem excluir e marginalizar refugiados e outros grupos em necessidade”, concluiu o chefe do Acnur.

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