Pesquisa mapeará o que diversos grupos da sociedade pensam sobre sustentabilidade

Em sua trajetória acadêmica, Rodrigo Penna-Firme*, professor do Departamento de Geografia e Meio Ambiente da PUC-Rio, questionava a separação que se costuma fazer entre natureza e cultura. Quando estudava incêndios florestais, pôde constatar que o comportamento cultural é um fator determinante para o meio ambiente. Exemplo: o manejo das queimadas pelos indígenas tinha um resultado muito distinto de quando um homem branco simplesmente colocava fogo, pondo a floresta a perder. Já o manejo indígena imitava as clareiras, contribuindo para a própria regeneração florestal. Ou seja, uma floresta respondia de uma maneira melhor ou pior ao fogo não por causa do tipo de floresta, mas por elementos como o conhecimento e o comportamento ancestral de manejar o fogo.

Hoje entendemos a importância da cultura para o ambiente, mas o que sabemos sobre o comportamento do brasileiro sobre questões como mudança climática e sustentabilidade? Sabemos também o que pensam os cientistas, os ambientalistas e e diversas lideranças. Mas o que pensa o cidadão comum? Como ele recebe essas informações e reage a elas? Quais as diferenças de visão entre os variados grupos da sociedade?

Para buscar respostas, Penna-Firme criou uma pesquisa, que pode ser respondida e compartilhada pelo meio deste link. As conclusões devem ser apresentadas na COP 24, Conferência do Clima a ser realizada na Polônia, em dezembro. Leia sobre a pesquisa nesta entrevista:

O que motivou a realização dessa pesquisa?

A motivação foi perceber que a gente sabe bastante sobre o que os ambientalistas, cientistas, líderes políticos e líderes religiosos pensam sobre questões ambientais, mudança climática, sustentabilidade. Essas noções estão sendo divulgadas pela grande mídia, que é o principal caminho pelo qual a população ouve falar sobre o assunto – embora fique sabendo nos bancos escolares também. Com isso, a grande questão que essa pesquisa pretende responder é: de que maneira as pessoas estão recebendo todas essas informações? Como entendem isso? E o que estão fazendo com isso? Se por um lado conhecemos bastante sobre o que esses grupos que mencionei pensam e sabem sobre a questão, por outro sabemos quase nada a respeito do que as pessoas comuns pensam sobre a questão.

O que a pesquisa traz de novo em relação a outros levantamentos?

Existem trabalhos muito bem feitos pelo Ministério do Meio Ambiente se não me engano iniciados em 1991. A cada 5 anos conseguiram fazer um levantamento muito interessante. Contrataram firma de consultoria, fizeram amostragem grande sobre o que o brasileiro pensava sobre aspectos e questões ambientais.

[Em 1992 foi publicado O que o brasileiro pensa da Ecologia – O Brasil na Era Verde, pelo Mast/MMA/Iser/CNPq. Coordenaram a pesquisa e a publicação, respectivamente Samyra Crespo e Pedro Leitão; o estudo de 1997 foi coordenado por Samyra Crespo e publicado com o título O que o brasileiro pensa do meio ambiente, do desenvolvimento e da sustentabilidade, pelo MMA/Mast/CNPq e Iser. A pesquisa de 2001, coordenada por Samyra Crespo, foi publicada com o título O que o brasileiro pensa do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável, pelo MMA/Iser. A pesquisa de 2006, também coordenada por Samyra Crespo, foi publicada com o título O que o brasileiro pensa do meio ambiente e da biodiversidade, pelo MMA/Iser em parceria com Funbio, WWF e Natura].

Esta pesquisa que estamos fazendo agora inclui explicitamente a questão de mudança climática e, dentro das perguntas do questionário, cria a possibilidade de ver como os diversos grupos pensam. Esse discurso que vem de cima, apesar de todas as vertentes, é unificado, quase uníssono. Entretanto, estamos em um sistema de democracia multicultural.

Não estamos prestando atenção no que os mais diferentes grupos falam e pensam. Dando uma olhada nas respostas que já vieram, percebemos que existem diferenças significativas, e isso me chama atenção.

O que o senhor quer dizer quando afirma que essas informações chegam de cima para baixo?

Como uma pessoa que não está em uma universidade ouve falar desse tipo de coisa? Provavelmente ouviu no rádio, viu uma matéria sobre a poluição do rio no seu bairro, assistiu ao Fantástico especialistas falando sobre o Acordo de Paris. Tem essa coisa do discurso que vem de fora. Por exemplo, vi isso muito nas populações tradicionais, não são elas que falam que são tradicionais; o movimento ambiental é que fala: “Você é tradicional”. Ok, mesmo que seja isso, será que essas pessoas estão recebendo essa informação desse jeito? Será que esses filtros todos afetam a percepção? Como a pessoa entende esse negócio de sustentabilidade? O que ela quer fazer a partir daí? Então pretendemos fazer um retrato o melhor possível.

Qual é a amostra da pesquisa? Está sendo feita em todo Brasil por meio de qual metodologia?

A metodologia estamos fazendo da forma mais barata possível. Estamos pagando, com dinheiro de pesquisa, a plataforma SurveyMonkey, que cria questionários online e gera um link.

Como o convite para responder a pesquisa vai chegar a pessoas com diferentes visões, e não apenas a quem se interessa por meio ambiente e sustentabilidade, o que poderia enviesar os resultados?

A gente está entrando em mídias sociais, grupos de Facebook e de WhatsApp, em uma ação boca a boca mesmo. Tem estagiários nossos e alguns bolsistas trabalhando para disseminar o questionário. E está dando certo, as pessoas estão respondendo. Ainda tem uma predominância de Sudeste porque a pesquisa começou aqui, mas está pipocando no Brasil inteiro. Os alunos para quem dou aula estão ajudando a divulgar em suas redes. Às vezes um chega mais e conta que é da Umbanda, outro é católico – porque veem que tem um recorte religioso na pesquisa. Tem gente da extrema esquerda, tem gente do coletivo das mulheres… cada um vai disseminando a pesquisa em seu grupo. A gente está crescendo de grão em grão.

Quantas pessoas já responderam?

Tem cerca de 800 no Brasil e 350 na Polônia. Mas, na Polônia, a estratégia está sendo fazer entrevista pessoalmente.

Por que a Polônia? Porque é onde será divulgado o resultado durante a COP 24?

A coordenadora que trabalha comigo é polonesa, tem ligação na universidade Agnieszka Latawiec, professora do Departamento de Geografia e Meio Ambiente da PUC-Rio], além disso a Polônia tem características demográficas interessantes, que permitem comparar internacionalmente grupos de extrema direita aqui e lá, grupos católicos aqui e lá e assim por diante. Mas o nosso foco é Brasil e quanto mais grupos representados aqui, melhor. Alguns grupos são bem minoritários, por exemplo os quilombolas, caiçaras, budistas, que são minorias quantitativas. Então a amostragem ficará enviesada, porque a representatividade é diferente. O fato é que não conhecemos o que o brasileiro pensa, não fazemos a menor ideia sobre o que os brasileiros fazem – ou dizem que fazem – a respeito desses assuntos.

Para que os resultados da pesquisa deverão servir?

O que será feito com esses dados, não sabemos. É o caso da energia atômica, pode fazer reator para gerar energia elétrica ou explodir o mundo. Espero que seja feito bom uso com esse tipo de informação, ou seja, que não se criem doutrinas sobre “faça isso ou faça aquilo”. Tem um lado muito sério, muito bom, muito importante dos movimentos ambientais alertando, mostrando às pessoas que a gente está ultrapassando certos limites. Eu concordo com tudo isso. Mas não importa minha opinião: quero ouvir dos outros, se isso bate com essas noções que estão sendo colocadas. Como estou dizendo, são colocadas de cima para baixo. Quero saber se o sujeito recicla o lixo, se o tratamento que dá a um animal ou a uma planta tem a ver com a visão de mundo dele. Esse comportamento, por exemplo pode estar associado a uma maior disponibilidade para pagar por um serviço ambiental, conceito que ele nem sabe o que significa. E vai ajudar a desafazer certos mitos, preconceitos e estereótipos sobre certos grupos e confirmar outros.

Dará para ver as contradições também. Muito me interessa buscar as contradições. Por exemplo, concordo que a gente não pode sair esburacando a terra para buscar minérios e deixar por isso mesmo mas, pera aí, eu cheguei aqui nessa reunião para falar disso de carro, que tem na constituição minério de ferro, bauxita. A questão do desenvolvimento sustentável passa por isso: vamos morar na caverna? Como faz daqui pra frente? O cidadão diz “Vamos salvar os peixes do mundo”, mas está indo comer atum em extinção no restaurante japonês. Uma das perguntas do questionário é “O quanto você acha que deveria ser conservado de natureza no mundo?”

Tem várias repostas dizendo que tem de preservar tudo. Mas essas pessoas têm noção do que isso significa, do que terão de abrir mão na vida delas para que isso aconteça? Então dará para mapear essas contradições e depois gerar publicações sobre o resultado dessas perguntas.

Como as perguntas foram montadas? De onde surgiram as ideias para montá-las, foi de algum grupo na universidade?

Surgiu da minha cabeça, na verdade. E depois convidei a professora Agnieszka Latawiec que trouxe boas ideias, colaborou com outras perguntas, editou outras; além de outros pesquisadores, como Bernardo Strassburg.

A ideia é fazer a pesquisa anualmente, para se obter uma série histórica?

A vida das pessoas é corrida, não dá para fazer pesquisas cara a cara. Então optamos pela saída tecnológica, de mandar um link. Mas, com isso, o resultado vem de forma pingada. Achei que ia ser difícil, mas está bem difícil. Ao mesmo tempo, está acontecendo. O link está aberto há meses e temos esse número de respostas que mencionei. Do ponto de vista estatístico, para comparação entre grupos, está lindo. Mas para generalizar, ou seja, dizer “O brasileiro pensa assim”, ainda falta um pouco.

Quanto falta?

O ideal seria uma amostragem aleatória por todo o Brasil. A nossa amostragem é tendenciosa porque começa no Sudeste e vai espalhando. Mas é o que tem pra hoje. O importante é saber que existe uma pluralidade de pensamentos que precisa ser ouvida.

*Rodrigo Penna-Firme é professor do Departamento de Geografia e Meio Ambiente da PUC-Rio, coordenador adjunto de pós-graduação em Geografia. PhD em Antropologia pela Indiana University (EUA). Biólogo, mestre em Ciências Ambientais e Florestais, e pesquisador em Antropologia Ambiental e Ecologia Política, nos temas: mercantilização das relações sociedade-natureza, conflitos socioambientais, populações tradicionais e conservação, pobreza e meio ambiente e relações entre religião e ecologia e conservação neoliberal da natureza (medidas de conservação que se baseiam e/ou favorecem mecanismos de mercado e valoração econômica da natureza).

 

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