O risco de ficar só na campanha contra o canudinho

Impulsionados pela pressão do público, os governos e as empresas estão considerando eliminar ou eliminar gradualmente os plásticos de uso único, como os canudos. Na Universidade Stanford, especialistas discutem as limitações dessas proibições e o potencial para mudanças significativas. Banir o canudinho é um emblema didático da preocupação com o lixo plástico. Mas as pessoas não podem achar que, evitando canudo, já fizeram sua parte. Obter “licença moral para poluir” seria o maior risco.

A seguir, entrevista concedida a Rob Jordan, feita com Jim Leape, codiretor do Stanford Centre for Ocean Solutions, e Craig Criddle, professor de engenharia civil e ambiental, sobre o caminho para reduzir a poluição do plástico dos oceanos. Leape tem sido um líder nos esforços de conservação dos oceanos. Criddle avaliou o uso de microorganismos para biodegradar materiais plásticos e para sintetizar bioplásticos biodegradáveis a partir de resíduos de matérias-primas, e como reduzir os custos para que essa tecnologia seja amplamente adotada

Qual é a escala do problema plástico da poluição oceânica?

Leape: Nossos oceanos estão atualmente nadando com plásticos. Estima-se que existam agora 150 milhões de toneladas de plástico no mar. Acrescentamos 8 milhões de toneladas por ano – ou seja, cerca de cinco sacolas de supermercado cheias de resíduos plásticos em todos os cantos da costa ao redor do mundo, de acordo com um estudo recente. Foi previsto que, se as tendências atuais continuarem, até 2050, o plástico no oceano superará a quantidade de peixe.

Por que o cidadão deve se importar?

Leape: Microplásticos já permeiam os oceanos. Eles estão em cerca de um quarto dos frutos do mar em nossos mercados e até mesmo em sal de cozinha. Os plásticos também permeiam os sistemas de água doce, como rios e córregos. Uma pesquisa recente descobriu plásticos em 94% das amostras de água da torneira nos EUA e em quase todas as marcas de água engarrafada. Existem muitas pesquisas em andamento sobre os efeitos dos plásticos oceânicos sobre a saúde, mas já sabemos que alguns deles e as substâncias químicas que se ligam a plásticos na água podem causar câncer, distúrbios genéticos e outros efeitos nocivos.

Quão significativas ou potencialmente eficazes são os compromissos recentes para proibir canudos de plástico?

Leape:

Os canudos de plástico são apenas uma pequena fração do problema – menos de 1%. O risco é que bani-los pode conferir “licença moral” – permitindo que as empresas e seus clientes sintam que já fizeram sua parte.

O desafio crucial é assegurar que essas proibições sejam apenas um primeiro passo, mais fácil de alcançar, desde que seja parte de uma mudança muito mais fundamental, evitando os plásticos de uso único nas cadeias de valor dessas empresas e de toda a economia.

Par resolver esse problema precisamos reciclar mais ou mudar para plásticos biodegradáveis?

Criddle: Além de reciclar mais e reutilizar mais materiais, precisamos de novos materiais que possam fazer o mesmo trabalho que os plásticos atuais, mas sejam biodegradáveis, não tóxicos e não se concentrem nas cadeias alimentares. Esses materiais já existem na natureza. Muitos microrganismos produzem polímeros bioplásticos moldáveis que são totalmente degradáveis. Eles armazenam esses polímeros dentro de suas células como pequenos grânulos. Curiosamente, esses grânulos contêm “as sementes de sua própria destruição”: enzimas que quebram o polímero quando é necessário para a alimentação. Com efeito, a natureza projetou este plástico para desmontagem. Nós devemos fazer o mesmo.

Quais são os principais obstáculos para essa mudança de paradigma e como podemos superá-los?

Criddle: O custo é um grande problema. Precisamos fazer polímeros totalmente biodegradáveis que sejam competitivos em custo. Cerca de metade do custo de produção de polímeros biodegradáveis é o custo da matéria-prima. Açúcar e óleos são muito caros. Felizmente, os microrganismos também podem usar substratos baratos e renováveis, como resíduos de alimentos, metano de biogás, dióxido de carbono e hidrogênio renovável.

Também podemos reduzir os custos [do plástico biodegradável] por meio de melhores métodos de bioprocessamento, através de engenharia metabólica e explorando a incrível diversidade de sistemas de produção de bioplásticos que a evolução já criou.

Em última análise, podemos diminuir ainda mais os custos e obter economias de escala por meio de sistemas de produção descentralizados e, talvez, também em grandes biorrefinarias.

O que governos, comunidades e pessoas individuais podem fazer para aliviar a carga de resíduos plásticos?

Criddle: Precisamos pensar em quais incentivos promoverão uma cultura de reciclagem e inovação em relação aos fluxos de resíduos. Leis equilibradas são necessárias para controlar o problema e, ao mesmo tempo, estimular a inovação. Novos modelos de negócios sustentáveis são necessários para abordar o atual dilúvio de plástico e também para possibilitar uma nova geração de materiais e tecnologias sustentáveis.

Leape: Existem dois imperativos claros. A primeira é investir em uma melhor coleta de lixo nos poucos países que respondem pela maior parte do plástico que flui para o oceano. O segundo imperativo, mais fundamental, é tirar plásticos do nosso fluxo de resíduos.

Quarenta anos após o lançamento do primeiro símbolo universal de reciclagem, apenas 14% das embalagens de plástico são recicladas. Com isso, as empresas precisam não apenas fabricar produtos que sejam recicláveis, mas realmente fabricá-los com material reciclado ou totalmente biodegradável.

As comunidades e os consumidores podem desempenhar papéis vitais. Quando as comunidades agem para proibir os plásticos de uso único e os consumidores individuais levantam preocupações, atores maiores prestam atenção. Em outras questões, da sobrepesca ao desmatamento, vimos que empresas voltadas para o consumidor – como McDonalds, Unilever e Walmart – podem ser extremamente sensíveis às preocupações de seus clientes. Essas empresas globais podem ser alavancas importantes para impulsionar a mudança e mudar para uma economia circular e regenerativa. A indignação do consumidor com a crise dos plásticos já está despertando a atenção de grandes empresas e de muitos governos. Esse é um começo promissor.

Mais notícias sobre lixo plástico: https://news.stanford.edu/2017/10/25/qa-robert-waymouth-future-plastics/