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Informação para o novo século

Edição 02

01.10.2006

Prosperidade que protege

0 por Regina Scharf # em 02, Revista

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O National Park Service gastou US$ 2,6 bilhões em 2005 para administrar 388 parques nacionais americanos – investimento que teve um retorno superior a US$ 12 bilhões.  Ou seja, o Estado conseguiu multiplicar por 4,6 cada dólar pago pelo contribuinte.

O parque campeão de arrecadação foi o de Great Smoky Mountains, na cadeia dos Apalaches, na fronteira dos estados da Carolina do Norte e do Tennessee.  Famoso pela abundância de ursos e uma elevada biodiversidade para os padrões das fl orestas temperadas, ele recebeu mais de 9 milhões de turistas no ano passado – movimento que deixou US$ 652 milhões na economia local e que permitiu a geração de 14 mil empregos.  A rentabilidade também foi excelente nos badalados Grand Canyon (US$ 416 milhões), Yosemite (US$ 317 milhões) e Yellowstone (US$ 298 milhões).

Os parques não são apenas prósperos.  Eles também são amados pela comunidade, a ponto de atraírem 125 mil voluntários para trabalhos diversos de manutenção e educação.  Além disso, escolas, igrejas e grupos ambientalistas promovem anualmente a campanha March for Parks, série de eventos em nível nacional que incluem longas caminhadas e a arrecadação de fundos.

Tanto o engajamento quanto essa movimentação econômica verificada nos parques dos EUA podem parecer inatingíveis para quem acompanha a questão no Brasil.  Segundo o Ibama, dos 60 parques nacionais brasileiros, apenas 18 são ofi cialmente abertos à visitação – ou seja, tem alguma infra-estrutura, o que inclui a cobrança de ingresso.  No ano passado, eles receberam, juntos, apenas 2,9 milhões de visitantes – menos de um terço do número de turistas que foram ao Great Smoky Mountains no mesmo período.  O mais popular e rentável dos parques brasileiros é o do Iguaçu, que recebeu 1 milhão de turistas em 2005, que deixaram R$ 600 milhões na região.

Uma das explicações da rentabilidade das unidades de conservação nos EUA é a abundante infra-estrutura oferecida.  Mais de 600 concessionários administram hospedarias, lojas de suvenires, transportes e serviços de alimentação em parques do país.  Entretanto, muitas dessas unidades de conservação restringem as atividades comerciais dentro de seus limites, ao mesmo tempo que estimulam a oferta de serviços nas cidades vizinhas.  No caso de Great Smoky Mountains, por exemplo, o comércio opera apenas da porta para fora, na tentativa de reduzir seu impacto sobre os recursos naturais.  É a fome com a vontade de comer, a conservação casada à prosperidade.

Mas a infra-estrutura não basta para explicar o sucesso fi nanceiro e de público dos parques americanos.  É preciso entender, em um contexto maior, a postura dos administradores públicos, que não têm vergonha de dizer que as unidades de conservação visam o lucro, sim.  “O sistema de parques nacionais é muito mais do que uma máquina econômica”, declarou recentemente Fran Mainella, diretora do National Park Service, nas comemorações dos 90 anos da organização.  “Os parques nacionais também existem para o nosso prazer.  Conservam o nosso patrimônio natural, nossa herança cultural – em suma, nossa herança nacional.”  Ou seja, para Fran, a rentabilidade é condição sine qua non, vem antes mesmo da conservação.

Tal declaração pode parecer herética deste lado do Equador – e provavelmente é mesmo, se for levada ao pé da letra.  Mas o que é importante reter aqui é que difi cilmente se conseguiria o apoio das comunidades vizinhas para projetos de conservação dessa monta se elas não recebessem algum tipo de remuneração ou benefício.  E, sem apoio, dá no que dá: desmatamento, invasões de posseiros e fazendeiros, caça e extração de madeira ou palmito, mineração clandestina.  Ou, ainda, incêndios criminosos, como o que destruiu em setembro 60% da área regularizada do Parque Nacional da Serra da Canastra, em Minas.

Por Regina Scharf
O National Park Service gastou US$ 2,6 bilhões em 2005 para administrar 388 parques nacionais americanos – investimento que teve um retorno superior a US$ 12 bilhões.  Ou seja, o Estado conseguiu multiplicar por 4,6 cada dólar pago pelo contribuinte.
O parque campeão de arrecadação foi o de Great Smoky Mountains, na cadeia dos Apalaches, na fronteira dos estados da Carolina do Norte e do Tennessee.  Famoso pela abundância de ursos e uma elevada biodiversidade para os padrões das fl orestas temperadas, ele recebeu mais de 9 milhões de turistas no ano passado – movimento que deixou US$ 652 milhões na economia local e que permitiu a geração de 14 mil empregos.  A rentabilidade também foi excelente nos badalados Grand Canyon (US$ 416 milhões), Yosemite (US$ 317 milhões) e Yellowstone (US$ 298 milhões).
Os parques não são apenas prósperos.  Eles também são amados pela comunidade, a ponto de atraírem 125 mil voluntários para trabalhos diversos de manutenção e educação.  Além disso, escolas, igrejas e grupos ambientalistas promovem anualmente a campanha March for Parks, série de eventos em nível nacional que incluem longas caminhadas e a arrecadação de fundos.
Tanto o engajamento quanto essa movimentação econômica verificada nos parques dos EUA podem parecer inatingíveis para quem acompanha a questão no Brasil.  Segundo o Ibama, dos 60 parques nacionais brasileiros, apenas 18 são ofi cialmente abertos à visitação – ou seja, tem alguma infra-estrutura, o que inclui a cobrança de ingresso.  No ano passado, eles receberam, juntos, apenas 2,9 milhões de visitantes – menos de um terço do número de turistas que foram ao Great Smoky Mountains no mesmo período.  O mais popular e rentável dos parques brasileiros é o do Iguaçu, que recebeu 1 milhão de turistas em 2005, que deixaram R$ 600 milhões na região.
Uma das explicações da rentabilidade das unidades de conservação nos EUA é a abundante infra-estrutura oferecida.  Mais de 600 concessionários administram hospedarias, lojas de suvenires, transportes e serviços de alimentação em parques do país.  Entretanto, muitas dessas unidades de conservação restringem as atividades comerciais dentro de seus limites, ao mesmo tempo que estimulam a oferta de serviços nas cidades vizinhas.  No caso de Great Smoky Mountains, por exemplo, o comércio opera apenas da porta para fora, na tentativa de reduzir seu impacto sobre os recursos naturais.  É a fome com a vontade de comer, a conservação casada à prosperidade.
Mas a infra-estrutura não basta para explicar o sucesso fi nanceiro e de público dos parques americanos.  É preciso entender, em um contexto maior, a postura dos administradores públicos, que não têm vergonha de dizer que as unidades de conservação visam o lucro, sim.  “O sistema de parques nacionais é muito mais do que uma máquina econômica”, declarou recentemente Fran Mainella, diretora do National Park Service, nas comemorações dos 90 anos da organização.  “Os parques nacionais também existem para o nosso prazer.  Conservam o nosso patrimônio natural, nossa herança cultural – em suma, nossa herança nacional.” Ou seja, para Fran, a rentabilidade é condição sine qua non, vem antes mesmo da conservação.

Tal declaração pode parecer herética deste lado do Equador – e provavelmente é mesmo, se for levada ao pé da letra.  Mas o que é importante reter aqui é que difi cilmente se conseguiria o apoio das comunidades vizinhas para projetos de conservação dessa monta se elas não recebessem algum tipo de remuneração ou benefício.  E, sem apoio, dá no que dá: desmatamento, invasões de posseiros e fazendeiros, caça e extração de madeira ou palmito, mineração clandestina.  Ou, ainda, incêndios criminosos, como o que destruiu em setembro 60% da área regularizada do Parque Nacional da Serra da Canastra, em Minas.

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Revista Página 22 - Centro de Estudos em Sustentabilidade da EAESP - FGV
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