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Informação para o novo século

Edição 40

10.04.2010

Percepções

0 por Ricardo Barretto # em 40

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As escolhas que temos feito não passam de variações do mesmo tema, restritas a um único conjunto dentro do universo

percepcoesFico incomodado com o bordão “liberdade de escolha”.  Hoje, bastante relacionada a mercadorias, a expressão traz uma ideia falsa – já que o consumo se inscreve em limites bem definidos – que relegou o sentido positivamente anárquico das escolhas ao segundo plano.

Em nosso dia a dia, temos a todo momento opções 1, 2, 3, 4… em menus, gravações, planos, pacotes e definições de produtos e serviços que dariam aquela sensação de o mundo se adaptando a nossas necessidades e gostos.  Você analisa com parâmetros próprios e passa à próxima etapa.  Ok.  Enter.

Senha. Assinatura. A propaganda dizia que, consumado o ato, você entraria em um estado de êxtase. Mas aposto que um plano cliente especial bônus plus de celular na verdade nos proporcionará em breve um suspiro enfadonho. Não é para menos. Rotina em demasia é difícil de suportar. Recorro à imagem de conjuntos matemáticos para explicar melhor.

Pensamos escolher coisas diferentes em um universo infinito e em quebrar com a mesmice.  Mas, se reparamos bem, estamos sempre optando por elementos do conjunto C (onde C = Consumo).  E aquela emoção diferente, prometida pela propaganda, está distante, contida em outros conjuntos que não C, espalhados pelo universo (U).

E se em vez de comprar aquele aparelho novo você escolhesse coisas na sua casa que estão encostadas para trocar via escambo eletrônico (alguns exemplos: xcambo, trocaster, freecycle, paperbackswap, gameswap) Pelo aparelho de outra pessoa?  E se decidisse que comprar aquela peça de madeira não seria mais essencial do que levar as crianças na praça para plantar uma muda?  E se abdicasse do slogan “eu consumo mesmo que a qualidade de vida na minha cidade piore”? Em vez de escolher um carro novo, com IPI reduzido, você poderia escolher os dias da semana em que o carro usado ficaria na garagem para você ir a pé, de bicicleta, ônibus, metrô, trem ou pegar uma carona.

Com alguma criatividade, começa a aparecer uma série de opções que não passam pelas de consumo – mas pelas opções fora do consumo.  Algo saudável numa economia em que até o corpo virou nicho de mercado.  Na área de serviços temos cabeleireiros, clínicas e academias prometendo milagres para que esse produto básico que é seu corpo se torne um master plus, como só se vê na mídia.  Na área de produtos, químicas e adereços prometem o mesmo aprimoramento.

Nada contra o cuidado de si. Michel Foucault mostra que esse conceito segue a cultura ocidental há muito tempo.  Já foi identificado com a experiência dos prazeres nos gregos, que determinava a ética da moral antiga; passou depois pela concepção cristã da experiência da carne – e a repressão a ela associada -; e chegou à experiência moderna da sexualidade, com todo o teor de controle que o conceito permite e que os padrões estéticos de hoje ajudam a reforçar.

O discurso atual pró-saúde, bem-estar e beleza parece criar mais uma neurose coletiva de padrões inatingíveis – que criam uma demanda sem fim por novas opções de produtos e serviços para o corpo – do que um estímulo ao equilíbrio físico e à propriocepção, que podem muito bem ser atingidos com uma boa aula de dança.

Quando penso nisso, tenho em mente um texto de Jean Baudrillard em que chama atenção para a possibilidade de contornarmos os sistemas à primeira vista hegemônicos – como uma espécie de jogo de corpo da capoeira, de passar pela tangente.  Para o filósofo, é explorando o que não foi explorado pelo sistema que encontramos opções reais de constituir algo novo.

Céu se torna o limite.  Aliás, uma fronteira da nossa existência, já que mantendo o consumo em níveis atuais, o patrimônio que chamará atenção é o carbono acumulado na atmosfera.

Ricardo Barreto é coordenador de comunicação do Gvces, bacharel em Relações Internacionais com especialização em Jornalismo e bailarino contemporâneo

  • por Democracia em três atos « Página 22 # em 11.04.2010 às 5:18 pm | Responder

    [...] Ao permitir a pluralidade e a pulverização do emissor (o que em outras situações poderíamos substituir por produtor ou candidato) e do receptor (consumidor ou eleitor), as novas tecnologias amplificam o espectro do debate e das ideias, capilarizam as mensagens e as escolhas, e descortinam um universo para além do conjunto de opções restringidas pelo mainstream e o velho jeito de fazer negócios e de se organizar socialmente (mais em Percepções). [...]

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Revista Página 22 - Centro de Estudos em Sustentabilidade da EAESP - FGV
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