Informação para o novo século

Edição 41

10.05.2010

Nós e o ninho

0 por Flavia Pardini # em 41, Revista

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A trama da reprodução do cuco pode ser considerada cruel do ponto de vista ético, mas há um quê de beleza na sua dança de evolução e adaptação com o rouxinol

FlaviaNão sei por onde andei todos esses anos, mas até recentemente eu não tinha a mínima ideia de como o cuco – um pássaro comum em todos os cantos do mundo – engendra sua reprodução e garante espaço sob o sol.  Foi assistindo à TV, aquele velho aparelho no canto da sala, que aprendi por que os cucos são, literalmente, estranhos no ninho.  A intrigante estratégia arquitetada por esse pássaro tão pouco especial me roubou a paz nos dias que se seguiram.  Se, como dizia minha avó, a natureza é perfeita, deve haver algo de belo na trama do cuco.  Mas onde?  Como?

Senão, vamos aos fatos.  A espécie mais comum de cuco habita o chamado Velho Mundo, basicamente a Europa, e é enaltecido em verso e prosa pois seu canto anuncia a chegada da primavera.  Apesar do bom augúrio, o pássaro migra da longínqua África – onde passa os invernos – com uma missão que pode ser considerada perversa.  O cuco nunca choca seus próprios ovos ou cuida de seus filhotes – em vez disso, dedica energia a colocar quantos ovos for possível em ninhos de pássaros menores, em particular uma espécie de rouxinol e, então, asas pra que te quero.  Uma série de artimanhas garante que o rouxinol não apenas choque o ovo alheio, como alimente o filhote até que ele também possa bater asas.

O cuco bota, em cada ninho, um ovo idêntico ao do rouxinol e, para evitar que os donos dos ninhos reconheçam que é falso, jogam um dos ovos originais para fora.  Dos filhotes do rouxinol, um já era.  O casal de rouxinol, sem perceber a intrusão, põe-se a chocar os ovos.  O filhote do cuco nasce antes do que os do rouxinol e, recém-saído da casca, cego e pelado, joga os demais ovos para fora do ninho.  Tem mais.  O danado imita o canto do filhote de rouxinol para assegurar que os pais adotivos, a despeito de sua aparência dessemelhante e seu tamanho Desmesurado, continuem a alimentá-lo.

Parece que só tem para o cuco, mesmo.  Ele é capaz de cantar muito mais rapidamente do que o filhote do rouxinol, dando a impressão de que há mais de uma boca a alimentar. E assim o pequeno cuco recebe comida suficiente para ultrapassar em tamanho o de seus pais adotivos – chega a ser dez vezes maior.  Quando finalmente se vai, o saldo para os rouxinóis é desolador: nenhum filhote e uma temporada de reprodução desperdiçada.

Boquiaberta ao fim do documentário sobre os hábitos reprodutivos do cuco, logo me pus a pesquisar.  Como pode ser que o rouxinol não reaja?  E o que levou o cuco a desenvolver tão peculiar forma de reprodução?  Descritos inicialmente pelo naturalista inglês Edward Jenner no final do século XVIII, os truques do cuco foram atribuídos à migração que a espécie realiza até a África.  Segundo conta Nicholas Davies, pesquisador da Universidade de Cambridge e especialista em parasitismo de ninhada, a ideia de Jenner era que a longa viagem roubaria do cuco o tempo para construir ninho, chocar ovos e alimentar filhotes.  Naturalistas da mesma época buscaram outros possíveis motivos para tão chocante parasitismo, mas a chave veio com Charles Darwin e A Origem das Espécies.  É a evolução, estúpido.

As características que tornam mais provável que um organismo sobreviva e se reproduza são selecionadas naturalmente e se tornam mais comuns naquela determinada população ao longo do tempo.  Darwin apontou a vantagem que o parasitismo de ninhada traz ao cuco: sem os deveres de construir ninho, chocar e alimentar filhotes, ele é capaz de colocar mais ovos, aumentando suas chances de sucesso na reprodução.  Para Darwin, a questão era: por que não há mais espécies que exploram aquelas que vivem honestamente de seus próprios ninhos?

Davies e outros pesquisadores mostraram mais recentemente que, no caso do cuco e do rouxinol, assim como outros parasitas de ninhada, trata-se de coevolução – um processo recíproco de mudança evolucionária entre duas espécies.  À medida que o rouxinol desenvolve defesas contra o parasita, o cuco adapta-se a elas.  Nessa dança de evolução e adaptação, os melhores parasitas são aqueles capazes de manter seus hospedeiros vivos.  Afinal, o que seria do cuco sem o rouxinol?  Talvez aí esteja a beleza da coisa.

Culturalmente, o homem absorveu o comportamento do cuco.  Seus truques foram mencionados em várias peças de Shakespeare e inspiraram o título do filme Um Estranho no Ninho.  Em várias línguas, deriva de cuco a palavra para o marido traído que cria filhos de outrem.  Ética e moralmente, o comportamento desse pássaro tão comum pode causar espanto pela crueldade.  Mas o cuco está apenas sendo cuco.  Assim como o homem pode apenas ser homem.

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Revista Página 22 - Centro de Estudos em Sustentabilidade da EAESP - FGV
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