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De lá pra cá

01.10.2010

O paradoxo do ambientalismo

0 por Flavia Pardini # em De lá pra cá

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Foto de Lon&Queta via Flickr

Foto de Lon&Queta via Flickr

Se os ecossistemas são essenciais para o homem, como explicar o fato de que o bem-estar humano continua aumentando mesmo com a degradação de boa parte dos ecossistemas ao nosso redor? É o paradoxo do ambientalismo, segundo um time de pesquisadores oriundos da McGill University, no Canadá, que se dispôs a investigar a questão. Os resultados foram publicados em setembro na revista BioScience.

O mote surgiu a partir da Avaliação Ecossistêmica do Milênio (AEM), concluída em 2005, e que analisou quatro categorias de serviços prestados por ecossistemas: os “fornecedores”, como alimentação, água e produtos florestais; os “reguladores”, que regulam mudanças no clima, enchentes, doenças e a qualidade da água, os “culturais”, que geram benefícios recreacionais, estéticos ou espirituais; e os “de suporte”, como a formação do solo, fotossíntese e o ciclo de nutrientes. A AEM concluiu que 60% dos ecossistemas avaliados estavam em declínio, a maioria deles provedores de serviços reguladores e de suporte. Aqueles em expansão eram, em grande parte, serviços fornecedores, como a produção de safras, gado de corte e aquacultura. A AEM também detectou aumento no consumo dos serviços de 80% dos ecossistemas analisados.

Ao mesmo tempo, o bem-estar geral da humanidade aumentou ao longo dos últimos 50 anos, em boa parte devido à rápida conversão de ecossistemas para a produção de alimentos, fibras e combustível. A análise da AEM levou em conta o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), não por ser um ótimo indicador do bem-estar humano, mas por falta de dados alternativos. O IDH agrega dados sobre a expectativa de vida, alfabetização, sucesso escolar e PIB per capita para chegar a uma medida do bem-estar das populações.

O primeiro passo dos cientistas canadenses para desatar o nó do paradoxo do ambientalismo foi investigar se estamos medindo o bem-estar humano incorretamente, o que sugeriria que, em vez de aumentar, ele estaria declinando com a degradação dos ecossistemas. Mas depois de avaliar dados e a literatura, os pesquisadores rejeitaram tal hipótese. Apesar das conhecidas críticas ao IDH, eles não conseguiram identificar medidas alternativas que indiquem queda do bem-estar em escala global. A maioria dos demais indicadores são correlacionados ao IDH e mostram que, na média, as condições globais para os seres humanos estão em alta.

Outras três hipóteses foram investigadas. A primeira propõe que nosso bem-estar dependeria de serviços ecossistêmicos ligados apenas à alimentação e, portanto, não seria afetado pela perda de outros serviços. A segunda hipótese explora a possibilidade de que, com a tecnologia, o bem-estar humano teria deixado de depender do estado dos ecossistemas. E a terceira questiona se seria uma questão de tempo e os efeitos da degradação ambiental apareceriam no futuro.

A avaliação dessas hipóteses produziu resultados mistos. Globalmente, está claro que a agricultura oferece benefícios para a humanidade, mas em escala local tais benefícios podem ser diminuídos pela perda de outros serviços ecossistêmicos, escrevem os autores. Eles também concluem que a eficiência com que somos capazes de extrair benefícios da natureza aumentou, mas a tecnologia não separou a sociedade da biosfera. Por fim, os pesquisadores identificam importantes lacunas de tempo nos sistemas da Terra, mas apontam que as conseqüências disso para o bem-estar humano ainda não estão claras.

Como toda boa pesquisa científica, a investigação gerou mais perguntas do que conclusões sólidas. “Tentar destrinchar por que as medidas de bem-estar humano estão aumentando enquanto as condições ecossistêmicas estão em declínio é crítico para melhorar o manejo dos ecossistemas”, afirmam os autores. “Essa conclusão sublinha a distinção importante, mas frequentemente esquecida, entre os impactos humanos na biosfera e o impacto da biosfera no bem-estar humano”. Embora tenhamos uma boa ideia dos efeitos negativos da maior parte das ações humanas sobre a biodiversidade, o capital natural e a biosfera, compreendemos muito pouco o que essas mudanças significam para a nossa qualidade de vida.

Para isso, é preciso integrar as pesquisas sobre bem-estar humano, agricultura, tecnologia e o tempo de resposta dos ecossistemas, defendem os cientistas. Quem sabe assim caminharemos para que só um dos lados do paradoxo – o da perda de serviços ambientais – seja revertido e que os homens continuem a viver bem sobre a Terra.

  • por Tweets that mention O paradoxo do ambientalismo « Página 22 -- Topsy.com # em 01.10.2010 às 1:15 pm | Responder

    [...] This post was mentioned on Twitter by Vescijudith and Revista Página 22, Revista Página 22. Revista Página 22 said: P22: O paradoxo do ambientalismo http://bit.ly/akQZA5 [...]

  • por Regina Scharf # em 03.10.2010 às 11:40 pm | Responder

    Bárbaro este post, Flávia. Acho particularmente interessante a terceira hipótese – a decadência dos recursos naturais pode ter um impacto inicialmente modesto (por causa da tecnologia que oferece soluções temporárias, ou porque ainda não chegamos num determinado ponto de impacto irreversível) e, de repente, em breve, começará a reverter o quadro de avanço da qualidade de vida. Torçamos que não.

  • por IDH + emissões de carbono « Página 22 # em 12.11.2010 às 4:54 am | Responder

    [...] 40 anos o bem estar humano só fez aumentar. Mas um time de pesquisadores canadenses apontou o paradoxo que vivemos em um artigo recém-publicado: como manter a qualidade de vida humana diante da [...]

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