Por Amália Safatle Na Praia de Catuama, próxima à Ilha de Itamaracá, em Pernambuco, um observador atentou que o lixo ali entre pedras e areia não era legado recente da presença humana. E sim devolvido e capturado continuamente pelo vaivém das marés, jogado fora tantas vezes, tantas vezes recuperado. Daí a vontade de congelar uma fração desse movimento cíclico, em forma de retratos. Ricardo Aguiar – que, depois de 20 anos como diretor de arte em cinema, renomeou-se RAG para identificar a nova fase da carreira como artista visual –, registrou esses instantes nietzschianos do eterno retorno, em que os…
Autor: Amália Safatle
Por Amália Safatle A economia verde não passará de mais uma história da carochinha se não for olhada através de uma lente “macro”. É com estes termos que o professor da FEA-USP José Eli da Veiga alerta para o que chama de armadilha da Rio+20: a ilusão de que basta migrar do crescimento marrom, poluente, para o crescimento verde que os nossos problemas estarão resolvidos. “Não”, frisa ele. A reforma necessária é estrutural e vai no coração do modelo macroeconômico sobre o qual o capitalismo moderno foi construído. E que fez do consumo o motor de tudo, inclusive da estabilidade…
Por Amália Safatle Nunca os atores da sociedade civil estiveram tão institucionalizados e tecnologicamente conectados. Mas, a nove meses da Rio+20, ainda falta enxergar o todo do qual fazem parte, as causas em comum e as bandeiras capazes de arregimentar as pessoas. “Tem marcha dos indignados, a Primavera Árabe, a campanha do clima. Existe uma energia latente, mas que não está canalizada”, constata Aron Belinky, coordenador de processos internacionais do Instituto Vitae Civilis e integrante do Comitê Facilitador da Sociedade Civil Brasileira na Rio+20. Essa desarticulação é preocupante, tendo em vista que a governança não cabe mais na caixinha institucional,…
Por Amália Safatle Desde que os meninos deixaram a sala de aula pela última vez, há mais de 40 anos, o corpo da velha escola da vila abriu-se definitivamente aos sinais do tempo. Abandono, vai pensar a maioria. Mas quem sabe tenha outros tipos de vida brotando lá, lançando raízes entre paredes e escadarias. A palavra é dignidade, posto que a seu modo conserva a memória cultural do passado, sem medo da transformação natural em curso. Maria Zélia, morta por tuberculose quando adolescente, deu nome à primeira vila operária do Brasil – construída a partir de 1911 –, onde casas…
Por Amália Safatle Implantar uma obra de grande porte na Amazônia requer uma engenhosidade bem além da engenharia. Vem justamente de um engenheiro – Victor Paranhos, presidente do consórcio Energia Sustentável do Brasil – o relato dos desafios políticos que definem contornos de uma obra que afeta tanta gente, da população local aos governantes, dos trabalhadores ao consumidor final, sem falar na natureza transformada e nas cidades que brotam nos confins do País. Nesta entrevista concedida no fim de maio, Paranhos e o diretor de meio ambiente e sustentabilidade do consórcio, Antonio Luiz Abreu Jorge, mostram, do ponto de vista…
Por Amália Safatle O que a maior operadora de viagens da América Latina tem a dizer sobre sustentabilidade? Como o turismo, de forma geral, poderia ser usado como instrumento de conservação ambiental e cultural? Nesta entrevista, o fundador da CVC, Guilherme Paulus, que trabalha com o setor há 38 anos, nega que a atividade traga impactos negativos a uma região, defende que o “progresso tem que vir forte”, e acredita que cabe aos governos a tarefa de proteger os lugares. Paulus aponta as razões pelas quais o turismo associado à natureza não decolou: falta conforto ao turista. “O pobre gosta…
Por Amália Safatle Dípticos são quadros pintados ou esculpidos em dois panos ou tábuas que se dobram, reza a definição. Aqui, a dobradura serve também para criar pares de lugares diferentes, mas similares em sua oposição ou complementaridade. Noite e dia, convexos e côncavos, o concreto armado e a mata desarmada. O fotógrafo Ding Musa nos conta sobre o prazer de construir imagens sem tempo ou referência. Em vez de representar um lugar que existe, prefere retratar uma ideia de lugar. Pois os locais de referência cansam, enquanto a ideia permanece. O díptico também está no material e imaterial. “Apesar…
Por Amália Safatle O fotógrafo, literalmente, atirou no escuro. Mirou uma cidade, mas acertou outra. Quando viu o resultado, não reconheceu a São Paulo onde mora. Formas impensadas se revelaram, como se a metrópole fosse mesmo feita de camadas, universos paralelos que emergem de surpresa. Foi assim que apareceu um sinuoso Grajaú. Um Cadeião de Pinheiros, sorriso aberto na prisão. E um fulgurante Pacaembu em noite de jogo. Veja na galeria ao lado.
Por Amália Safatle O que realmente importa? Essa é a pergunta. É a pergunta que a discussão da felicidade inspira, a ponto de provocar Eduardo Giannetti a unir as pontas da Filosofia e da Economia, em busca das questões viscerais do indivíduo e da civilização. “Nós queremos ter mais tempo para conviver com os nossos amigos, nossos filhos, para buscar o conhecimento, para usufruir da natureza? Ou queremos competir violentamente para consumir cada vez mais e ficar com uma sensação crescente de falta de tempo?”, pergunta o autor de livros como Felicidade, Autoengano e O Valor do Amanhã (Companhia das…
(…que não teve sogra nem caminhão) Na busca de indicadores de desenvolvimento que destronem o PIB do reinado absoluto, será que a felicidade deve ser o parâmetro? Depois de um caudal de informações e opiniões colhidas em entrevistas durante mais de uma semana, ligo o rádio e quem está lá é Mario Prata, com toda a concisão dos cronistas: “No Brasil, o fracasso não faz o menor sucesso”. Talvez não o faça também em outros lugares, mas no país obcecado pela alegria das celebrações e pelo sucesso esfuziante, o fracasso pega muito mal. O Velho Mundo que fique lá com…