Ambientalismo, entre a comunicação e a ciência

O que está na berlinda não é a salvação do planeta ou da biosfera, mas o prazo de validade da espécie humana
Por José Eli da Veiga*

Talvez não haja slogan ambientalista com mais aceitação do que “salvar o planeta”.  O que é impossível, já que a Terra desaparecerá muito antes da morte térmica para a qual inexoravelmente caminha o universo. Das cinco eras em que a astrofísica organiza o futuro, este planeta dificilmente sobreviverá à segunda. Além disso, quanto mais se aprofundam as pesquisas cosmológicas, mais encurta o prazo previsto sobre o inevitável choque entre a Via Láctea e Andrômeda, que deverá ocorrer daqui a 2 bilhões ou 3 bilhões de anos. E, muito antes disso, a Terra poderá ter destino semelhante ao de planetas similares que já viraram pó.  Recentes análises de imagens de oito desses cadáveres estelares feitas pelo Telescópio Espacial Spitzer, da Nasa, só confirmaram que uma estrela como o Sol incha até se tornar aquele tipo de gigante vermelho que aniquila planetas de órbitas próximas.

Não tem, portanto, qualquer nexo científico a ideia de que a humanidade poderia ter alguma chance de evitar o fim dessa densa massa de rocha fundida e de metal chamada de Terra.  O mais provável, portanto, é que se queira comunicar duas coisas bem diferentes quando se usa o substantivo planeta precedido pelo verbo salvar.

Em primeiro lugar, que não se esteja pensando no planeta, mas naquele fino invólucro esférico que começa uns 160 quilômetros abaixo da superfície e que avança outros 160 quilômetros para fora até a termosfera, na fronteira com o espaço, através dos oceanos e do ar.  É essa casquinha que há cerca de 3 bilhões de anos autoriza a vida no planeta.  Ou, como alguns talvez prefiram, vem mantendo o planeta apto para a vida.

Há aí uma séria confusão entre as ideias de planeta e de biosfera, distinção importantíssima, pois é muito mais delicado e frágil esse conjunto de ecossistemas do qual dependem inúmeras formas de vida.  Mas uma distinção que só aumenta a dificuldade, pois o mais provável é que seu desaparecimento seja bem anterior ao do planeta, em razão da também inexorável entropia, a segunda lei da termodinâmica.

Em segundo lugar, há a questão do verbo salvar.  Em vez de usá-lo no sentido de livrar da morte, ou da destruição, é claramente utilizado no sentido de tirar de perigo, ou de preservar de dano.  Isto é, não de supor que seria possível suspender o processo entrópico, mas sim no sentido de que ele não seja ainda mais acelerado do que já foi por conta das atividades humanas.

Quando o grande biólogo Edward O. Wilson escolheu a frase “Como salvar a vida na Terra” para subtítulo de seu belo livro A Criação (Companhia de Letras, 2008), com certeza não pretendeu incentivar qualquer sonho de eternidade.  Bem ao contrário, o objetivo do livro é justamente convencer as vítimas de dogmas religiosos de que a urgente necessidade de defender a natureza serve aos interesses de toda a humanidade.

O que realmente está na berlinda não é a salvação do planeta, ou da biosfera, mas o encurtamento do prazo de validade da espécie humana.  Tanto isso é verdade que a mesma ambiguidade também pode ser identificada no discurso de outros renomados cientistas.  Na carta recentemente enviada ao casalobama pelo casal Hansen , a principal preocupação é com a “humanidade e com toda a vida na Terra que será herdada pelos nossos filhos, netos e aqueles que ainda não nasceram”.  Também clamam pela preservação “da natureza e da humanidade”, depois de afirmarem que o planeta está em perigo, mas que ainda tem chance.

Nem sequer o irascível James Lovelock escapa da regra.  No segundo parágrafo do livro A Vingança de Gaia, diz que vê o declínio da saúde da Terra como a preocupação mais importante, porque a vida humana depende de uma Terra sadia.  E vai ainda mais longe: “Nossa preocupação com ela deve vir em primeiro lugar, porque o bem-estar das massas crescentes de seres humanos exige um planeta sadio”.

Ou seja, os cientistas que mais alertam para os riscos da erosão da biodiversidade e da ruptura climática estão essencialmente preocupados é com a qualidade de vida das futuras gerações.  A rigor, com a possibilidade de que elas existam.  Todavia, em vez de dizer com clareza que se trata de não abreviar a existência da humanidade, contribuem para que seja nutrido o mecanismo de transferência embutido no slogan que mais emplacou.

As razões desse fenômeno talvez só possam ser explicadas pela psicologia e pela antropologia, as ciências que mais estudam os mitos.  Mas certamente resultam da intersecção das duas primeiras das três dimensões em que se dá o envolvimento dos humanos com a natureza: a da experiência imediata, a da interpretação pessoal, e a da análise científica.  O fato é que o slogan se mostrou excelente recurso comunicativo, apesar de sua irracionalidade.  E não é o único.

*Professor titular do Departamento de Economia da USP e autor de vários livros sobre desenvolvimento sustentável.  Www.zeeli.pro.br

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