Como é ser (realmente) pobre?

Favela em Bangladesh
Favela em Bangladesh

Cerca de 2,7  bilhões de pessoas vivem com menos de US$ 2 diários. Partindo do princípio que você aprendeu a ler e tem acesso a um computador, ou não estaria aqui comigo, é provável que nunca tenha enfrentado esse grau de pobreza.

Então, eu pergunto: você tem alguma idéia de como se viram essas pessoas?

No Brasil, é fácil responder. Com um salário mínimo que, desde o começo do ano, é de R$ 510 (ou US$ 17 por dia), você consegue alimentar uma família de quatro pessoas com quatro refeições diárias compostas de pão francês e cafezinho. Não sobrará dinheiro para mais nada. Nem transporte, nem aluguel, nem luz, nem lazer. Veja os cálculos aqui , num blog que refez um raciocínio que o satírico Pasquim concebeu há 40 anos para explicar como o salário mínimo era estabelecido. Já naquela época o mínimo comprava a tal dieta de café com pão.

Quer dizer: o poder de compra do trabalhador não mudou nada em todas essas décadas. Daí, dá no que dá: você bota o filho para ajudar madame na feira, constrói um barraco, faz um gato para ter alguma luz, gasta hoje o que vai ganhar amanhã.

E lá fora, como se vira a base da pirâmide? O que não lhe falta é sofisticação financeira e jogo de cintura, respondem os autores de Portfolios of the Poor: How the World’s Poor Live on $2 a Day, lançado recentemente. Daryl Collins (Bankable Frontier Associates), Jonathan Morduch (Financial Access Initiative) , Stuart Rutherford (The Poor and Their Money) e Orlanda Ruthven (Impactt) entrevistaram mais de 250 famílias que vivem com um orçamento de menos de US$ 2 diários em Bangladesh, na Índia e na África do Sul. As entrevistas ocorreram a intervalos de duas semanas, durante um ano.

O trabalho mapeia de onde vem e para onde vai cada centavo. E revela surpresas. Segundo os autores, a vida financeira dessas famílias é muito mais sofisticada do que se poderia imaginar. Algumas delas conseguem economizar, outras apelam para o microcrédito, alguns formam associações para baratear seus custos.

Uma das histórias narradas é a de Hamed e Khadeja, um casal que vive com o seu bebê numa favela de Dhaka, capital de Bangladesh. Eles têm uma casa de blocos, mas dividem cozinha e banheiro com mais oito famílias. Ele trabalha ocasionalmente dirigindo um riquixá motorizado. Ela complementa o orçamento como costureira. Eles ganham, em média, US$ 70 mensais, dos quais 20% vão para o aluguel. Praticamente todo o resto vai para a alimentação. Apesar da renda minguada, o casal tem uma vida financeira das mais complexas. Enviam dinheiro para a sua aldeia, guardam um pouco em casa, emprestam dinheiro aos amigos. Por outro lado, têm dívidas com o banco que lhes oferece microcrédito, com o dono da mercearia, além da dívida do pagamento adiantado. O casal é analfabeto e não sabe calcular, mas mantém controle rígido do seu fluxo de caixa. Quando perguntada sobre a forma como administra seu dinheiro, Khadeja explica: “conversamos a respeito o tempo todo e assim tudo fica nas nossas memórias”.

Num outro caso analisado no livro, a sul-africana Thembi, de 50 anos, que vive com US$ 169 mensais (incluindo US$ 114 de uma aposentadoria por invalidez), contraiu uma dívida imensa, de US$ 1.413, pois teve de pagar pelo funeral do irmão, que morreu de tuberculose (funerais são muito importantes na cultura nacional e este não é um gasto com o qual se costuma regatear). O livro descreve como ela contraiu dívidas junto à família, vendeu alguns carneiros e usou um seguro-enterro pelo qual vinha pagando havia muito tempo para conseguir equilibrar suas contas.

É isso aí. Vivem de café com pão. Mas a simplicidade para aí.

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