A corrida do gás

http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Marcellus_Shale_Gas_Drilling_Tower_1_crop.jpgNão é petróleo, mas também não são painéis solares ou turbinas eólicas. A última febre energética nos EUA é o bom e velho gás natural, combustível menos poluente do que petróleo e carvão, considerado por muitos como uma “ponte” para a economia de baixo carbono. Mas a corrida para extrair gás natural de uma enorme formação rochosa sedimentar no noroeste do país está causando polêmica.

No centro está a chamada Marcellus Shale, uma formação sedimentar que se estende por 128 mil km2 debaixo dos estados de Philadelphia, West Virginia e partes de Maryland, Virginia, Ohio e Nova York. Estima-se que a quantidade de gás recuperável na região chegue a 1,42 trilhão de metros cúbicos, o suficiente para abastecer o país inteiro por dois anos. Se a exploração continuar em ritmo acelerado, há previsões de que o gás vindo de formações sedimentares represente metade da oferta de gás nos EUA até 2035. Tudo isso graças a avanços na tecnologia que, há apenas alguns anos,  passaram a permitir a perfuração de poços e o fracionamento horizontal de quilômetros de rocha.

A técnica é chamada de fraturamento hidráulico – apelidada de fracking – e consiste em injetar uma mistura de água, areia e químicos e, com pressão, criar trilhas permeáveis na rocha que permitam que o gás flua para um poço. Cada fratura hidráulica usa cerca de 11 milhões de litros dessa mistura líquida, que depois precisam ser retirados para que o gás atinja o poço. A grande quantidade de água necessária e a disposição da mistura depois de usada têm impactos sobre os recursos hídricos da região.

Nos últimos dez anos, o poder público de Nova York investiu bilhões de dólares para comprar terras próximas a reservatórios e cursos d’água no norte do estado com o objetivo de preservar os serviços ambientais que fornecem água limpa para uma população crescente. Para evitar impactos negativos a esse ativo ambiental, o estado baniu a perfuração de poços para exploração de gás natural até que sejam completados estudos sobre seus efeitos.

A indústria garante que não há efeitos danosos ao meio ambiente e à saúde humana, mas a população e ambientalistas protestam contra os riscos. Diante da polêmica, a agência de proteção ambiental americana, a EPA, está estudando os impactos da atividade e promovendo audiências públicas na região para discutir o assunto. Atualmente, a EPA não regula a exploração de gás natural em formações como a Marcellus Shale, o que fica a cargo de cada estado. Na Philadelphia, um grupo de famílias recentemente entrou na justiça alegando que a água de seus poços atersianos foi contaminada pelo fracking.

Cada vez mais, fontes de energia baratas e abundantes são escassas e valiosas, e nem regiões populosas e influentes como o noroeste dos EUA ficam imunes à corrida que elas detonam. Que não é por ouro, mas quase.

[Com informações de Soeder, D.J. (2010), The Marcellus Shale: Resources and Reservations, EOS, Transactions, American Geophysical Union, volume 91, number 32]

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