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Natureza feminina

No mundo todo, as atividades florestais são dominadas por homens, cenário ainda pouco debatido. Especialista alerta que a desigualdade de gênero compromete os resultados de conservação e desenvolvimento

A QUENIANA Wangari Muta Maathai liderou um grupo de mulheres que plantou milhares árvores para combater as secas. Ganhou o Nobel da Paz em 2004. Hoje, comanda o Green Belt Movement. Foto: Wikipedia Commons.
A QUENIANA Wangari Muta Maathai liderou um grupo de mulheres que plantou milhares árvores para combater as secas. Ganhou o Nobel da Paz em 2004. Hoje, comanda o Green Belt Movement. Foto: Wikipedia Commons.

No último Dia Internacional da Mulher, Lorena Aguilar, conselheira-sênior de gênero para uma das maiores organizações conservacionistas do mundo, a IUCN, fez um apelo: “Se nós não adotarmos uma perspectiva de gênero, não resta nenhuma dúvida de que vamos falhar nos nossos esforços de fortalecer a contribuição das florestas para a redução da pobreza, a conservação da biodiversidade e o desenvolvimento sustentável”.

A convicção da especialista chamou a nossa atenção para um panorama ainda pouco discutido.  No mundo inteiro, o setor florestal é amplamente dominado por homens, o que inclui não só a propriedade ou posse das terras como também o controle sobre as atividades econômicas desenvolvidas nessas áreas.

O Banco Mundial e a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) já realizaram estudos que comprovam essa realidade na África e na Ásia.  Mas essa é uma tendência que se repete no mundo todo, não somente nos países pobres detentores dos maiores remanescentes florestais.  Na Suécia, só 38% das reservas particulares estão nas mãos das mulheres.  Nos Estados Unidos, cerca de10% dos profissionais do setor florestal são do sexo feminino.

Trata-se de um desperdício monumental de oportunidades que não diz respeito apenas a justiça, igualdade e correção política.  No mundo da conservação, há um entendimento de que o sucesso de áreas protegidas depende do apoio de comunidades locais.  Isso significa criar oportunidades econômicas alinhadas à preservação dos recursos naturais.  Mas parece que a cena ambientalista ainda não acordou para um velho conhecido do ativismo social: a especial capacidade multiplicadora de meninas e mulheres.

Em média, no mundo em desenvolvimento, mulheres tendem a aplicar 90% de sua renda na família, enquanto os homens ficam entre 30% e 40%.  Se a mulher for saudável, com acesso a serviços e informação, seus filhos também serão.  E, como se trata de vítimas de discriminação que têm menos oportunidades, o investimento na ala feminina significa destravar um potencial produtivo gigantesco, de trabalho e de conhecimento, com desdobramentos sobre economias locais.

“Mas não é só isso”, disse Lorena em entrevista a Página22.  “Em todo o mundo nós observamos que, quando as mulheres são incluídas, os resultados ambientais de projetos florestais são mais efetivos.” Isso se explica pela divisão de funções ditadas pela tradição.  Frequentemente, mulheres são as encarregadas da alimentação da família, via plantio e coleta.  O resultado, segundo a especialista, é que, quando chega a hora de montar um plano de manejo, homens tendem a se interessar mais pela madeira, enquanto as mulheres, pelas frutas, óleos, resinas, sementes.

“São conhecimentos complementares.  Se as mulheres são excluídas da esfera de decisão, exclui-se também todo o conhecimento sobre produtos não madeireiros que poderiam tornar aquele empreendimento diversificado, portanto mais favorável à conservação da biodiversidade e economicamente mais interessante.” Uma pesquisa publicada no periódico Ecological Economics, em 2009, sobre empreendimentos florestais na Índia e no Nepal, revelou que aqueles grupos que tinham maior proporção de mulheres em seus comitês executivos apresentaram melhores resultados em regeneração florestal, volume de produção agroflorestal e respeito às normas acordadas (compliance).

Mulheres são donas ou principais mantenedoras de apenas 5% das terras do planeta, segundo a IUCN, e isso inclui as florestas.  A ironia é que, ao mesmo tempo que elas seguem alijadas da liderança em atividades de conservação e silvicultura, são também o grupo mais vulnerável aos impactos do desmatamento, porque dependem fortemente da diversidade de recursos para alimentação e para complementar a renda da família.

Lorena cita ainda outro exemplo, relativo à conservação marinha.  Segundo ela, os esforços para melhorar as condições de vida de comunidades pesqueiras costumam se concentrar em fornecer mais e melhores redes e barcos.  O foco, como de praxe, é a atividade própria dos homens.  Mas são as mulheres que tradicionalmente detêm o conhecimento sobre como aproveitar todos os insumos dos peixes, para alimentação e artesanato, e também sobre armazenagem.  A especialista diz que as experiências que atentam para a equidade de gênero costumam apresentar melhoria de renda para as comunidades com menor impacto sobre o meio ambiente marinho.

Fora da esfera local, os desafios – e as oportunidades – são enormes, enquanto as regras do mecanismo Redd seguem indefinidas no âmbito da Conferência do Clima.  Já existe um consenso sobre a necessidade de beneficiar comunidades tradicionais e indígenas, mas a questão de gênero ainda não foi incorporada.

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