Economia Verde – No rastro do carbono

Enquanto aguardam um selo global, empresas usam pegada para ganhar lugar nas exportações e para inovar produtos

As emissões de gás carbônico na linha de produção do papel Report, da Suzano, alcançam 2,2 quilos de CO2 equivalente por folha.  Mas, no ciclo de vida do produto – fornecimento de matérias-primas, operação industrial e logística de distribuição –, o total de emissões quadruplica.  Tal cálculo, que engloba todo o ciclo, é o que se chama de pegada de carbono, utilizada na gestão interna das emissões e para conseguir certificações que aumentem a competitividade da empresa no mercado externo.  “O que alcançamos com essas certificações (relacionadas à sustentabilidade) é muito mais um diferencial competitivo do que acréscimos nos preços de nossos produtos”, assinala Alexandre Di Ciero, gerente-executivo de sustentabilidade da Suzano.

Entre as empresas brasileiras na linha de frente da pegada de carbono, a Suzano conduz a estratégia mais ousada. De maneira inédita na América Latina, a companhia de papel e celulose lançou, em maio, em São Paulo, as versões de quatro de seus modelos de papel – Alta Alvura, Paperfect, Report e Symetrique – com a certificação Carbon Reduction Label (em tradução livre, Selo de Redução de Carbono).  O cálculo da pegada foi efetuado pela consultoria ICF, que há mais de duas décadas responde pela elaboração do inventário de emissões dos Estados Unidos, e toma como guia a PAS 2050, metodologia que condiciona a concessão do selo pela britânica Carbon Trust.

Até o momento, falta um padrão internacional indiscutível de certificação da pegada de carbono, como é o caso da ISO 14000, referência para a gestão ambiental.  Mas a lacuna deverá ser preenchida em 2012, quando está prevista a publicação da ISO 14067, que estabelecerá critérios para medir a pegada de carbono baseados principalmente na PAS 2050, publicada em 2008 pelo BSI Standards, do Reino Unido, e na metodologia que o Instituto de Recursos Mundiais (WRI, na sigla em inglês) planeja lançar em breve.

No Brasil, a Natura desenvolveu sua própria metodologia de pegada de carbono, adaptada da PAS 2050, e a aplica desde 2010.  “Passamos a usar a pegada como ferramenta interna obrigatória no desenvolvimento de novos produtos”, explica Fabien Brones, gerente científico de impacto ambiental da Natura.

Por ter adotado o cálculo da pegada, a Natura conseguiu mapear melhor suas fontes de emissão.  No semestre passado, a Natura trocou o plástico petroquímico pelo plástico produzido à base de cana-deaçúcar pela Braskem no refil do sabonete cremoso Natura Erva Doce.  Além disso, substituiu por sachês os refis de plástico dos hidratantes corporais Natura Tododia.  Na troca, a economia de emissões de dióxido de carbono foi de 71% e 77%, respectivamente, e, de lambuja, o sachê quase zerou a geração de resíduos, que diminuiu 97%.

Significativa redução também foi obtida pela francesa Danone ao adotar a pegada de carbono, calculada conforme a PAS 2050.  Da matriz francesa, a subsidiária brasileira trouxe em 2006 a tecnologia “Foam” (espuma, em inglês), que diminui em 19% o peso das bandejas de plástico (marcas Activia, Danone e Danoninho).  O resultado nas emissões foi espetacular: 18 mil toneladas de CO2 foram poupadas em 2010.  Medida desde 2008, a pegada engloba produtos que representam 45% do volume de vendas, revela Lucas Urbano, gerente de sustentabilidade.  “Pretendemos atingir 100% das vendas até 2012 e, depois, buscar a certificação”, diz, lembrando da meta global da Danone de cortar em 30% a pegada de carbono de seus produtos.

“Há uma tendência crescente de grandes varejistas, como Tesco e Walmart, cobrarem a pegada de carbono de seus fornecedores”, observa o indiano Sujeesh Krishnan, presidente da Carbon Trust para as Américas.  Sem revelar quem é o cliente, Krishnan diz que mais uma companhia brasileira receberá o selo da Carbon Trust este ano e há negociações com outras cinco.  O selo da consultoria britânica foi lançado em 2007 e já está presente em mais de 90 marcas e 5 mil produtos, especialmente na Europa e nos EUA.

ERRATA: Diferentemente do publicado em “À procura de vocações”, na edição anterior, a Floresta Amazônica é a maior floresta tropical do mundo, com cerca de 6 milhões de km2.  Segundo a Conservação Internacional, a maior formação florestal do planeta é a Floresta Boreal, com cerca de 12 milhões de km2.  Em Curtas, algumas notas foram publicadas fora de ordem.  Veja a ordem correta na versão digital.

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