"Protestos não são 'planos'"

Em artigo exclusivo a PÁGINA22, Charles Kirschbaum, professor e pesquisador do Insper, aborda a configuração dos movimentos atuais de forma horizontal facilitado pelas redes sociais

Captura de Tela 2013-07-04 às 18.44.10Uma das ideias mais centrais nos protestos atuais nas cidades brasileiras é a constituição em “rede”. Por trás dessa ideia, vem de carona um pacote de significados. A primeira ideia que surge é a de “horizontalidade” – em uma “rede”, predominam as conexões horizontais, os contatos informais, a influência e persuasão. Em contraste, estruturas “hierárquicas”, onde as relações são verticais e predomina o comando, existe a formalidade. A segunda ideia que vem à mente é a fluidez das informações. Em uma “rede”, entende-se que as informações fluam de forma livre, sem barreiras. Já em estruturas hierárquicas, como as organizações burocráticas, as informações são cuidadosamente filtradas, bloqueadas e resguardadas. Finalmente, em uma organização hierárquica observamos fronteiras rígidas. É sempre possível identificar quem pertence a ela e quem está fora. Em uma rede, a inclusão é entendida como universal.

Para muitos, um dos maiores atrativos dos movimentos atuais é justamente a característica de ‘rede’. Assim, imaginamos que as antigas estruturas governamentais, partidárias e sindicais seriam permeadas por uma participação mais direta, a alguma forma de diálogo onde os mediadores formais não tenham tanto peso. Ou seja, conduzindo diretamente à democracia participativa. Através das mídias sociais, ambiciona-se a formação espontânea de uma rede que articule os cidadãos, sem discriminações por origem social, geográfica ou partidária e em torno de um bem comum: a reforma de antigas estruturas – a começar pela “caixa preta” dos transportes públicos.

Mas, aqui surge um paradoxo já evidente em muitos artigos de opinião do momento: sem um foco, talvez o movimento se esvaia. Porém, como alcançar um foco sem sacrificar tais características de “horizontalidade”? Muitos estão se referindo ao movimento atual como a “primavera brasileira”, estabelecendo uma analogia direta à “primavera árabe”. Mas essa analogia revela, imediatamente, o perigo que se esconde no possível desenrolar do movimento. Nos países árabes, houve uma grande variação nos resultados dos protestos. Em alguns países, houve avanço da democracia e do respeito aos direitos humanos, enquanto em outros houve uma guinada à radicalização. Do lado de cá, quando nos perguntamos “para onde vão os protestos?”, muitos confessam sua confusão.

Para boa parte dos analistas, talvez não seja o momento de sequer refletir sobre o que está acontecendo, como se a participação, a mobilização pela mobilização, bastasse para retirar o país da inércia e fosse motivo para plena comemoração. E novamente, para muitos que já participaram, a utopia das mídias eletrônicas plenamente planas é agente propulsor da motivação em sair de casa e entregar-se a esse enorme ‘magneto humano’.

No entanto, para que um foco emerja, é necessário que lideranças emerjam. Geralmente, pensamos nas lideranças como porta-vozes, como por exemplo, uma estudante de Direito e um professor de História que têm dado entrevistas à TV. Mas, esse tipo de liderança não é a única. Outro tipo de liderança extremamente importante são aqueles capazes de influenciar o fluxo de informações, de transmitir certas ideias, enquanto barram outras.

Em uma “rede”, essas lideranças informacionais, os “hubs” e “intermediários”, emergem. O poder deles não é imposto, mas surge naturalmente através das interações por dois motivos. Em primeiro lugar, são capazes de articular e negociar demandas conflitantes e propor reivindicações que representem a sobreposição, o ponto de união de grupos muito distintos. Em segundo lugar, são eleitos como “pontos focais” em situações onde há uma avalanche de informações desconexas e conflitantes.

Tais líderes surgem como “depuradores” da informação, e por isso, tornam-se cada vez mais centrais no fluxo informacional. Não precisamos esperar até o final do movimento para acompanhar o despontar dessas lideranças. Através de dados coletados nas postagens de Facebook, Twitter e outras mídias eletrônicas, é possível localizar as vozes mais escutadas que, possivelmente, terão maior peso na formação da opinião pública.

A título ilustrativo, temos os dados de ‘retwitter’ do hashtag #passelivre postados em 18 de junho e relacionados aos protestos em São Paulo armazenados no site www.nodexlgraphgallery.org, o que nos dá uma ideia deste quadro.

Ao analisar esses dados, concentrei-me nos indivíduos que tinham a maior capacidade de intermediação na rede, e não tanto no número de seguidores. Obviamente, os indivíduos com alto número de seguidores são capazes de ecoar a mensagem para um grande número de internautas. Mas aqueles que se destacam como os principais intermediários são capazes de articular mundos sociais fracamente conectados. São capazes de tornar o M’Boi Mirim mais próximo da Avenida Paulista. O gráfico reproduz alguns dos principais twitteiros no movimento paulista.

Talvez não surpreenda identificar o escritor Paulo Coelho como um dos indivíduos mais influentes (e no Rio de Janeiro, encontramos o rapper MV Bill). Sozinho, ele conta com mais de 8 milhões de seguidores no Twitter. Mas se nos fixássemos apenas nos “Paulos Coelhos”, talvez a mobilização não fosse tão efetiva. Vemos também indivíduos como ”Pinheirinho”, que com um pouco mais de 3 mil seguidores, propagou a mensagem para São José dos Campos (SP), e logo depois, aparece o Sindicato dos Metalúrgicos da mesma cidade.

Obviamente, minha análise não constitui um retrato completo do fenômeno. Além de outras mídias (do Facebook ao SMS), a rede é dinâmica, o que possibilita a rápida troca de posições. Indivíduos periféricos podem tornar-se rapidamente centrais.  Porém, em que isso importa para a democracia? Assim como acompanhamos nas semanas que antecedem as eleições como os candidatos estão evoluindo nas intenções de voto, podemos observar como as redes estão se formando, quais grupos estão melhores representados e quais se tornaram, repentinamente, marginalizados. E, com isso até, refletir qual será nossa posição neste universo em rápido movimento.

Acesse aqui, na página do professor Charles, o grafo (visualização das redes sociais) do dia 18.06, que mostra o fluxo de ‘tuíters’ responsáveis por difundir mensagens pró-mobilização a partir da hashtag #passelivre.

*Charles Kirschbaum, professor e pesquisador do Instituto Ensino e Pesquisa (Insper) nas áreas de teoria organizacional, redes sociais e estratégia

(clique na imagem das redes elaborada por Charles Kirschbaum para amplia-la)

Protesto SP2

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