Cidades comestíveis

(FERNANDA DANELON/ HORTELÕES URBANOS)
(FERNANDA DANELON/ HORTELÕES URBANOS)

Durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, a população dos países envolvidos nos conflitos foi convocada a fazer sua parte nos esforços de guerra, reduzindo a pressão sobre a oferta de alimentos e a infraestrutura necessária para sua distribuição pelo país. Assim surgiam os “jardins da vitória”, nos quais se plantava nos quintais das residências parte dos alimentos que eram consumidos. Nos EUA, a produção dessas hortas chegou a representar até 40% do consumo de produtos agrícolas, de acordo com o jornalista Michael Pollan (leia sua carta-manifesto).

Algumas décadas mais tarde, o ritmo das grandes cidades acabou afastando as pessoas do contato mais íntimo com os alimentos, desde o cultivo até sua manipulação no balcão da cozinha. Algumas pessoas tornaram-se incapazes de reconhecer certos alimentos caso não estejam em bandejas de isopor em uma prateleira de supermercado. Outras trocaram o hábito de preparar sua comida pelo telefone do delivery ou pela praticidade dos congelados. Mas há um movimento de “contracultura alimentar” em curso nas grandes cidades – na verdade, uma literal “volta às raízes” –, que busca substituir parte do duro e cinza concreto que permeia o solo urbano por frutas e hortaliças.

Não é apenas a promessa de uma baixa pegada ecológica que torna as hortas comunitárias uma opção atraente. Elas envolvem os moradores de uma região em um projeto que pressupõe participação e cooperação e gera benefícios públicos, estreitando laços comunitários e afetivos. Cumprem ainda uma função estética importante para as acinzentadas “selvas de pedra”.

Ron Finley mora em uma das regiões mais degradadas de Los Angeles, considerada um “deserto alimentar”, abastecida somente por lojas de bebidas e redes de fast-food. Com a ajuda de um grupo de residentes, resolveu plantar alimentos no espaço da calçada em frente de onde mora, lugar antes ocupado pela grama – “Sou um artista, e jardinagem é meu grafite”, afirma Finley. A iniciativa expandiu. “Plantar sua própria comida é como imprimir seu próprio dinheiro”, diz (assista à palestra TED).

Na pacata cidade inglesa de Todmorden, hortas comunitárias foram polinizadas por toda a cidade: do milharal em frente à delegacia de polícia até as flores brotando entre as jazidas do cemitério — “o solo lá é ótimo”, diz Pam Warhurst, à frente da iniciativa. Essa “jardinagem de guerrilha” envolveu toda a comunidade, identificando aqueles com aptidão para plantar, disposição para colher, habilidade para cozinhar etc. Também gerou frutos econômicos: gente do mundo inteiro vai para lá para conhecer o “incrível caminho verde comestível”, que passa por toda a cidade (assista aqui).

O projeto também possui uma frente educacional, não apenas envolvendo os estudantes no plantar, mas também trazendo tópicos de agricultura para a sala de aula. O professor Stephen Ritz também percebeu os impactos positivos na educação, tendo ajudado a plantar mais de 10 toneladas de hortaliças, simultaneamente melhorando o desempenho educacional dos alunos de South Bronx, uma das comunidades mais pobres dos EUA (assista aqui).

Manipular a terra é profundamente terapêutico, e pode ser considerado um ato de rebeldia contra o cinza do concreto das cidades. “Além do mais, ganhamos morangos”, conclui Ron Finley (mais sobre hortas urbanas em “Recuperando o elo).

*FABIO F. STORINO É DOUTOR EM ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E GOVERNO

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